21 de julho de 2016

Olhos Puxados


Desde muito pequeno me classificaram como observador, visual, olhar sensível, e assim foi durante anos. Já fui desenhista, arquiteto, poeta. Já sonhei muito nesses anos que decoram as paredes da minha memória, inclusive com você, filho. Até que virei seu pai e você virou minha visão favorita, a mais intrigante de todas até aqui. Visão de infinitas surpresas, de inesgotáveis sorrisos. Como quando vejo estupefato sua atenção a cada pequena migalha no chão onde pisam seus pés descalços de passos firmes e incansáveis, obstinados. Ou quando admiro boquiaberto seu olhar atento a cada estrelinha, por mais paulistano que esteja o céu que embala essa sua infinita concentração no infinito. Cabeça nas nuvens e pés no chão, como sua mãe, de quem você tanto puxou. E que me presenteou com os olhos puxados, esses olhinhos espertos que nos fazem enxergar melhor a vida. Talvez você ainda não perceba, mas enquanto você vai crescendo e explorando as cores, as texturas e os sabores dessas suas miudezas do chão e do céu, nossa vida vai amadurecendo mais colorida, mais concreta, mais deliciosa, sem aquelas miudezas e mimimices dos adultos. Uma vida muito mais cheia de vida, cada vez melhor, cada vez maior.

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