27 de setembro de 2015

O avesso das coisas, de Drummond

Qualquer um que me conheça minimamente advinha meu fascínio com os aforismos de O avesso das coisas, de Carlos Drummond de Andrade, e entende meu descontentamento com a respectiva ediçãozinha bonachona publicada pela Ed. Record.

A começar pelas ilustrações de Jimmy Scott: de talento inegável, mas cujo ar exageradamente caricato destoa da refinada ironia melancólica do conjunto de máximas do autor, as quais humildemente ele batizou de "mínimas" em sua bela introdução.

Isso, aliás, no mínimo me faz pensar: se até a Record é capaz de cometer esse tipo de erro, também é lícito eu conjecturar que o evidente desencaixe da edição ao seu conteúdo (similar ao corriqueiro sentimento de desencaixe do sujeito ao mundo, tão poetizado pelo autor) pode ser apenas uma maneira criativa de mostrar o tal "avesso das coisas" - neste caso, mostrar que até ao avesso da mais alta elegância literária pode haver uma imensa cafonice editorial.

Mas o mais impressionante de tudo é perceber como o livro consegue ser tão bom apesar da edição. É o verdadeiro avesso do mercado editorial contemporâneo, que enche as prateleiras de edições refinadíssimas, mas com conteúdos de qualidade no mínimo duvidosa.

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