17 de dezembro de 2015

Razão e emoção


Razão e emoção: não a dualidade de dois cavaleiros em duelo, mas a poderosa união do cavaleiro ao cavalo.

Imagem: Clipartandfonts.com

13 de dezembro de 2015

Não

Concordo quando afirmam que um dos maiores desafios dos pais é aprender a dizer "não", principalmente, no meu caso, quando preciso dizê-lo ao orgulho do workaholiquismo.

25 de outubro de 2015

Sem chegar a lugar algum

Dois passarinhos, um preto e um branco, formando o Ying-Yang.
12:00

Vale lembrar: a dicotomia benjaminiana já não comporta mais o narrador contemporâneo, pois ele nem é o viajante que volta para contar o que viveu, nem o velho familiar que sempre permaneceu na vila. O novo narrador, amante de Borges, que viaja vice-versa da casa ao trabalho e eventualmente ao lazer (do nada ao vazio, como preconizam os orientais), nem sai, nem fica: é eterno transeunte baudelariano girando na roda viva do Yin-Yang subjetivo. É por isso que a narrativa contemporânea dá tanto rodeio sem chegar a lugar algum.

03:00

G. K. Chesterton (escritor britânico cuja felicidade consistiu em fazer uma longa viagem para chegar exatamente no lugar de onde partiu, sentindo a aventura do viajante e a segurança familiar do aldeão, conforme narra em Ortodoxia), preocupado com os rumos que a narrativa mundial tomava, sugeriu o seguinte: se não é possível sair do círculo da loucura, é preciso pelo menos expandi-lo, deixar de centrar-se no indivíduo e, de fato, descentrar-se na natureza e na coletividade – olhar ao redor, sentir-se pequeno diante de tanta vida e ser feliz por fazer parte de algo maior; ou seja, deixar o romance psicológico e voltar às epopeias clássicas, como nos contos de fadas. Foi o que fizeram, por exemplo, Tolkien, Lewis e tantos outros escritores que partilhavam tal cosmovisão, sistematicamente renegada pelo cânone literário contemporâneo – cânone esse que preferiu privilegiar exatamente a psicologização do romance, cada vez mais centrado nas epopeias que ocorrem não no mundo, mas nos meandros entre mente e coração.

06:00

É mais ou menos isso que discute Ricardo Piglia no ensaio "Os sujeitos trágicos (literatura e psicanálise)" de Formas Breves. Em suma – diz o argentino – a atividade do narrador contemporâneo é semelhante à do psicanalista, basta ler Joyce ou o gênero policial – exemplifica. Paradoxalmente, aliás, Chesterton também foi mestre neste gênero renegado, como sempre fez questão de frisar outro grande escritor argentino chamado Jorge Luís Borges.

09:00

Incompreendido pela mesma época que o adora sem dele ter lido quase nada, Borges metaforizou o zeitgest do cânone literário contemporâneo sendo o velho escritor que se ensimesma em sua obra, seguindo parcialmente as orientações de Chesterton ao olhar ao redor (ainda que cego), sentir-se pequeno (diante de tanta literatura) e ser feliz por fazer parte de algo maior (uma grande biblioteca). O melhor narrador contemporâneo, portanto, é um metalinguístico argentino (nem americano, nem europeu) viajando entre uma porção de autores que ninguém nunca leu ou lerá, bem diferente do finado narrador da dicotomia benjaminiana.

12:00

Vale lembrar: a dicotomia benjaminiana já não comporta mais o narrador contemporâneo, pois ele nem é o viajante que volta para contar o que viveu, nem o velho familiar que sempre permaneceu na vila. O novo narrador, amante de Borges, que viaja vice-versa da casa ao trabalho e eventualmente ao lazer (do nada ao vazio, como preconizam os orientais), nem sai, nem fica: é eterno transeunte baudelariano girando na roda viva do Yin-Yang subjetivo. É por isso que a narrativa contemporânea dá tanto rodeio sem chegar a lugar algum.

18 de outubro de 2015

Virtuose

Como se já não bastasse ser virtuosa... hoje o dicionário me contou que minha esposa é também virtuose.

16 de outubro de 2015

Execução

Odiava aquele trabalho, mas tinha que executá-lo. Já acostumado, com muita astúcia, mirou e disparou. Outra bela foto!

11 de outubro de 2015

Refúgio

Um mundo melhor: não apenas quando soubermos receber refugiados, mas principalmente quando nenhum de nós precisar de refúgio.

3 de outubro de 2015

Perdendo tempo

Ao reparar na maneira maluca com que a formiga corria de um canto a outro da cidade carregando suas folhinhas, a cigarra tirou um dos fones do seu smartphone e recomendou:

 — Relaxa, meu! Essa sua correria não salva nem cinco minutos do seu dia!

Mal sabia a cigarra que o temor da formiga não era perder tempo, mas que lhe roubassem o relógio, a carteira, os pertences, a vida. Já que o tempo... só o perde quem o tem.

30 de setembro de 2015

27 de setembro de 2015

O avesso das coisas, de Drummond

Qualquer um que me conheça minimamente advinha meu fascínio com os aforismos de O avesso das coisas, de Carlos Drummond de Andrade, e entende meu descontentamento com a respectiva ediçãozinha bonachona publicada pela Ed. Record.

A começar pelas ilustrações de Jimmy Scott: de talento inegável, mas cujo ar exageradamente caricato destoa da refinada ironia melancólica do conjunto de máximas do autor, as quais humildemente ele batizou de "mínimas" em sua bela introdução.

Isso, aliás, no mínimo me faz pensar: se até a Record é capaz de cometer esse tipo de erro, também é lícito eu conjecturar que o evidente desencaixe da edição ao seu conteúdo (similar ao corriqueiro sentimento de desencaixe do sujeito ao mundo, tão poetizado pelo autor) pode ser apenas uma maneira criativa de mostrar o tal "avesso das coisas" - neste caso, mostrar que até ao avesso da mais alta elegância literária pode haver uma imensa cafonice editorial.

Mas o mais impressionante de tudo é perceber como o livro consegue ser tão bom apesar da edição. É o verdadeiro avesso do mercado editorial contemporâneo, que enche as prateleiras de edições refinadíssimas, mas com conteúdos de qualidade no mínimo duvidosa.

26 de setembro de 2015

Livros molhados

Começo a perceber que a intensidade das chuvas que nos sobrevêm são proporcionais ao número de livros que carrego comigo e à fragilidade das sacolas que uso para carregá-los.

Ademais: constato que a tempestade se deleita ao molhar os pertences dos desprevenidos; lembrando que, em muitos casos, "desprevenido" não é apenas quem carrega livros debaixo de chuva, mas sim todo aquele que a mim os empresta - quer sejam bibliotecas, quer sejam amigos.

23 de setembro de 2015

Melhorando o que já era bom

Nada mais natural do que desejar sua felicidade e me empenhar por ela, afinal você é a mulher que amo, que me faz muito mais feliz e que também está lutando, de maneira belíssima, pelo bem-estar do nosso amado filho, mais novo fruto do nosso amor. A cada ano que passa admiro mais e mais seu jeito de pensar, de agir e de sentir, suas mil faces de ternura e carinho, seu jeito elegante e simples de brilhar, lindo e leve de levar a vida a sério e de torná-la melhor para quem está ao seu redor. Parabéns não apenas por mais um ano de vida e pelas conquistas tão marcantes dos últimos tempos, mas parabéns, principalmente, por ser esse tipo de gente rara, tipo caída do céu, que nos faz ver na prática que o respeito, o amor e a felicidade existem, sim, e que são maravilhosos de viver. Que você siga bem em seus caminhos, sempre cheia de vigor, de serenidade e de desafios superados. Que desfrute de um lar cada vez mais aconchegante, de lugares bonitos para conhecer e voltar, de amigos e familiares sempre próximos e com saúde, de sucesso e realização em seu trabalho e em todos os seus projetos pessoais. Que você siga aproveitando cada mínimo detalhe e cada pequeno aprendizado advindos dessa imensa responsabilidade de sermos mãe e pai. E que você possa continuar tendo ao seu lado esse meu amor, essa minha admiração e essa minha disposição para, juntos, seguirmos construindo um caminho abençoado para nós e, como já sonhávamos, para nosso godinho que chegou chegando, melhorando o que já era bom!

Feliz aniversário, ma chérie, mais uma vez!

19 de setembro de 2015

Um pé atrás

Tem lá sua razão quem diz que uma boa dose de frustrações ajuda a construir um bom escritor. Agora, entre dar mais importância à biografia do autor do que à sua elaboração artística, há um abismo perigoso. Se a história pessoal de quem escreve fosse mesmo tão essencial, vasculhar a vida de cada crítico literário antes de o levar a sério também seria necessário: estudá-los-íamos com um pé atrás a cada indício de escritor frustrado.

18 de setembro de 2015

É isso que anda restando

De Dunga não querer pastores infiltrados nos bastidores da Seleção, sou totalmente a favor. Agora, de o técnico brasileiro não convocar nem o pastor artilheiro do brasileirão para a estreia das eliminatórias contra o fortíssimo Chile, aí eu já não gosto. Não pela canarinho em si, mas bem que podia pelo menos desfalcar ainda mais o Peixe, que está vindo com tudo por aí. Afinal, é isso que anda restando a este reles são-paulino: secar os rivais.

5 de setembro de 2015

Os conselhos do mar

Aos marinheiros de primeira viagem.

Um barco no mar com um senhor e um homem auxiliando uma criança a subir as escadas rumo à lua. Cena do curta-metragem La Luna, da Pixar.

O mar guarda em si as histórias de todos os navegantes que já o enfrentaram. Bons e maus, bem e mal sucedidos. De distintas épocas e diferentes destinos: em cada onda, em cada gota, uma lição.

No barco da vida,
os conselhos são o mar. 

Sem o mar,
o barco não sai do lugar. 

O bom navegador ouve cada história com muito respeito, atenção, sensibilidade e humildade. Conduz seu barco com firmeza e senso de direção, principalmente em meio às tormentas. Não se encanta com o canto das sereias, nem se desespera com o estrondo dos trovões. Garante que nenhum furo ou ventania deixará a água do mar se intrometer a ponto de o fazer naufragar. E entende, pelas próprias histórias que ouve, e que vai vivendo, que o mar é inevitável, às vezes traiçoeiro, mas sempre essencial.

3 de agosto de 2015

Cúmplice

É bom que você aprenda o quanto antes: uma massagem realmente boa é aquela que faz sua mãe ficar relaxada mesmo ao som do pior programa futebolístico, filhão.

6 de julho de 2015

Mas é ele

Não é estranho ter saudades antes mesmo de partir. Estranho é sentir essa saudade de quem ainda nem nasceu. E eu sei que poderia acalmá-lo dizendo fica traquilo, filho, papai volta logo. Mas é ele quem me acalma em uma mexida emocionante: logo mais você volta, papai, boa viagem e bom trabalho! Ele, junto à mãe: os que me dão sentido ao tudo.

24 de junho de 2015

Maninha

Karina e Vinícius. Foto de 2006.

Talvez ainda uma criança da última vez que citei você aqui. Nem faz tantos anos. É que o tempo voa, mesmo. Parece até que foi ontem que eu vi você aprendendo a dar os primeiros passos. E hoje já é sua filha, minha sobrinha, nosso clone, quem vai aprendendo a caminhar com as próprias pernas de maneira emocionante. Ligeira e encantadora como a mãe.

Talvez não saiba do meu orgulho ao vê-la alcançando a adultice em idade e maturidade. Não apenas por vê-la escutar Beatles e substituir-me no posto de ajudante-oficial na hiperatividade do pai, mas principalmente por vê-la aprender a lidar com os percalços da vida.

Talvez não tenha noção do tamanho do medo que a vida nos deu ano passado, susto maior do que vê-la pular do berço ou cair com o triciclo de cima do escorregador. E talvez não saiba o alívio que foi vê-la sair bem daquele hospital após tanta aflição, alegria maior do que vê-la escrevendo belas redações, ganhando de mim no xadrez e arranhando no teclado junto à Ju. A aluna mais querida e impaciente que já vi.

Talvez não perceba, mas continua se fazendo presente apesar da distância. Como quando eu chegava em casa e sentia o cheiro do seu mingau, usava seu shampoo para cachos e lamentava meus biscoitos subtraídos do armário.

Talvez não se dê conta, mas apesar dessa presença no coração, sinto falta da sua companhia cotidiana. De você invadindo meu quarto a despeito da placa "proibido Karina" para mostrar seu caderno, acompanhar-me no videogame ou suplicar a morte de uma barata.

Talvez não faça sentido, mas sinto falta até das nossas discussões para você falar direito e mais devagar, ou para eu dirigir direito e mais rápido. Do seu mau-humor matinal e da maneira sagaz com que você adivinhava meus defeitos e gostos, todos.

Talvez não demonstre tanto como deveria, mas gosto de você. Gosto quando você me atende monossilábica no telefone, quando ouço você cantar desafinada em inglês para a Manu dormir, quando você tenta me ensinar a mexer em eletrônicos e comprar coisas de bebê. Gosto de vê-la, de abraçá-la, de encher seu saco, de saber que minha irmãzinha é hoje uma universitária esforçada, uma filha companheira, uma namorida carinhosa, uma mãe cuidadosa, uma tia babona.

Talvez o Tito venha até a gostar da sua pipoca com ajinomoto e das outras tosqueiras que você curte, tal como a Manu já curte buzinar minha escaleta azul. Família cada vez mais bonita e mais barulhenta essa nossa, heim?

Talvez, enfim, seja esse tipo de vínculo simples e profundo que espero seguir vivendo nesses novos passos que estamos aprendendo juntos, maninha. Aprendendo juntos a ser o que nossos pais já são.

Feliz aniversário!
Com muito carinho, Dedei.

17 de junho de 2015

Unobtainium

O artigo roga ao líder criar vínculos como os na'vi, ser mais pinguim e menos leviatã, viver em harmonia em lugar da ambição cega. Mas há quem consiga enxergar por dentro da intenção do autor (mesmo que inconscientemente) o mesmo tipo de exploração que seu texto critica, resumindo-o assim: vire um avatar, vincule-se aos na'vi e conquiste para si o máximo possível de unobtainium.

31 de maio de 2015

Filho no Ventre

Ilustração de bebê no útero materno emanando corações azuis.

Não, não cabe mais

As roupas no corpo?
Os móveis no quarto?
Os gastos na conta?
O filho no ventre?

Não, não cabe mais
tanta alegria no peito!

4 de janeiro de 2015

Com o Piano

Juliana tocando piano.

Deixa-se delicadamente revelar
pela maneira de lidar
com o piano
da sala.

Toca e canta sempre que está bem
mas se uma tristeza vem
com o piano
se cala.

Por isso um sorriso nasce em meu coração
toda vez que a sua mão
com o piano
nos embala.