28 de janeiro de 2014

A Fila Anda

Impactaste minha vida como caminhão tombado na pista expressa da Marginal Tietê, como objeto na via às sete da manhã. Fizeste meu coração bater forte como bateria no Anhembi, como torcida organizada em final de campeonato. Puseste-me ansioso e sem escolha como trabalhador na linha vermelha querendo entrar em trem lotado, como mãe na fila do SUS. Encheste minha esperança como a 25 de Março no Natal, como córrego em verão. Deixaste meu amor grande e louco como o preço dos imóveis, como o trânsito da M'Boi Mirim. E minha vida ficou boa como pastel de japonês, como piscina do Sesc. Mas usaste-me e esqueceste-me como político eleito, como bituca de cigarro. Fiquei pálido e sem vida como céu cinza sem estrelas, como flor de shopping center. Perdido e sem rumo como turista na Paulista, como criança em beco da Luz. E quis voltar no tempo como retirante nordestino, como costureira boliviana. Mas não consigo esquecer-te. A fila não anda nesta cidade.

27 de janeiro de 2014

Gostar e Fazer

Eis o segredo: não só fazer o que gosta, tampouco apenas gostar do que faz, mas sempre as duas coisas juntas – gostar e fazer – como duas faces de uma moeda que, se não compra a felicidade, pelo menos é dada como troco em tal transação.

24 de janeiro de 2014

Quem vem do lado oposto

Já pouco importa se é grande linha de frente ou pequena tropa de elite: talvez prefira não estar em guerra alguma.

21 de janeiro de 2014

Quanto Mais

Quanto mais reconhecemos nossos próprios erros, mais paciência temos com os erros alheios. E quanto mais paciência temos com os erros alheios, menos erros cometemos.

14 de janeiro de 2014

Amor e Dedicação

Não é preciso amar aquilo a que nos dedicamos, mas dedicação é imprescindível em tudo o que amamos.

7 de janeiro de 2014

Epifania

Conversávamos no sofá após o jantar até que:

Estava contando para ela a deliciosa frustração de, no dia seguinte à publicação daquele breve conto de distopia no blog, ter lido a caminho do trabalho um fabuloso trecho em O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, trecho no qual o escritor constrói uma distopia terrível e belíssima de pessoas que vão se apequenando até que tudo ocorra apenas no cérebro de modo que as mentes se conectam em uma profunda compreensão da vida.

Fato é que tal trecho me pôs a concluir que nunca chegaria lá, nunca viria a ser escritor como aquele gajo.

Ela repetiu que o maior problema era não apenas a forma escrita, mas principalmente a forma pessimista e superficial com que eu tinha abordado os avanços tecnológicos. Dizia-me isto enquanto ia zapeando o televisor até que o acaso nos levou ao canal Cultura e vimos ali, no Roda Vida, o próprio assunto de nossa conversa: o escritor, ele mesmo, diante dos jornalistas brasileiros!

Estupefacto, ouvi dizê-lo acreditar que a felicidade é uma espécie de epifania. pois lá estava eu, de facto, a experimentar aquilo tudo. e a epifania, veja bem, não era o escritor a dar entrevistas sobre o equívoco de reduzi-lo à democracia das minúsculas, ou sobre a redenção do esteves após a superficial alcunha dada por pessoa, posto que a entrevista podemos resgatar a qualquer momento graças à tecnologia via internet, grande bem quando convém: a Epifania, pois, era tê-la ali comigo, no sofá, após o jantar, conversando de escritas e distopias enquanto o autor de a máquina de fazer espanhóis, o autor de o filho de mil homens, o Autor que eu venho lendo e por quem venho me apaixonando nos últimos meses, valter hugo mãe, ia falando que há uma espécie de desperdício do potencial humano quando não se tem filhos. Era como se nossas mentes estivessem conectadas em uma profunda compreensão da vida - como naquela distopia, mas sem que isso nos apequenasse: muitíssimo pelo contrário.

Fato é que enchi-me das esperanças de um dia chegar lá, tal como este português.

5 de janeiro de 2014

Distopia

Por muito tempo a humanidade desejou criar uma máquina que se equiparasse ao cérebro humano.

No entanto, lá no século XXI, diante da impossibilidade percebida, mudou de estratégia e passou a investir não no avanço da engenhoca propriamente dita, mas no retrocesso do cérebro humano por meio das mais diversas bugigangas tecnológicas, as quais - diziam - facilitariam a vida humana (em vez de fazer a montanha vir até Maomé, preferiu petrificá-lo, de modo que a humanidade realizasse outro sonho antigo: voltar no tempo - neste caso, para o tempo das pedras).

Só agora, séculos adiante, a história deu mostras de que realmente é cíclica e nos pôs a sonhar o mesmo de outrora: o desejo de aprender a pensar por conta própria.

O desejo da desanimalização.