7 de janeiro de 2014

Epifania

Conversávamos no sofá após o jantar até que:

Estava contando para ela a deliciosa frustração de, no dia seguinte à publicação daquele breve conto de distopia no blog, ter lido a caminho do trabalho um fabuloso trecho em O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, trecho no qual o escritor constrói uma distopia terrível e belíssima de pessoas que vão se apequenando até que tudo ocorra apenas no cérebro de modo que as mentes se conectam em uma profunda compreensão da vida.

Fato é que tal trecho me pôs a concluir que nunca chegaria lá, nunca viria a ser escritor como aquele gajo.

Ela repetiu que o maior problema era não apenas a forma escrita, mas principalmente a forma pessimista e superficial com que eu tinha abordado os avanços tecnológicos. Dizia-me isto enquanto ia zapeando o televisor até que o acaso nos levou ao canal Cultura e vimos ali, no Roda Vida, o próprio assunto de nossa conversa: o escritor, ele mesmo, diante dos jornalistas brasileiros!

Estupefacto, ouvi dizê-lo acreditar que a felicidade é uma espécie de epifania. pois lá estava eu, de facto, a experimentar aquilo tudo. e a epifania, veja bem, não era o escritor a dar entrevistas sobre o equívoco de reduzi-lo à democracia das minúsculas, ou sobre a redenção do esteves após a superficial alcunha dada por pessoa, posto que a entrevista podemos resgatar a qualquer momento graças à tecnologia via internet, grande bem quando convém: a Epifania, pois, era tê-la ali comigo, no sofá, após o jantar, conversando de escritas e distopias enquanto o autor de a máquina de fazer espanhóis, o autor de o filho de mil homens, o Autor que eu venho lendo e por quem venho me apaixonando nos últimos meses, valter hugo mãe, ia falando que há uma espécie de desperdício do potencial humano quando não se tem filhos. Era como se nossas mentes estivessem conectadas em uma profunda compreensão da vida - como naquela distopia, mas sem que isso nos apequenasse: muitíssimo pelo contrário.

Fato é que enchi-me das esperanças de um dia chegar lá, tal como este português.

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