28 de outubro de 2014

Dois

Quando nos casamos há dois anos, após deliciosos quatro anos de namoro, às vezes eu sentia uma inevitável inquietação que me fazia perguntar: será que continuará dando certo? Será que continuará tão bom assim? E fui vendo, daquela primavera em diante, que nossa parceria não apenas continuaria dando certo, pois ela foi ficando cada vez melhor, mais afinada, mais gostosa de viver.

Porque você é a companhia mais agradável que já conheci e desfrutei. Brilhantemente inteligente e talentosa. Sensível e ligeira para lidar com as alegrias sem perder os pés do chão. Forte e sensível para lidar com os desafios da vida sem perder a serenidade, a fé e a ternura. Admiravelmente íntegra e coerente, sempre enraizada em valores justos e amorosos.

Porque você tem uma beleza radiantemente dengosa que a torna sempre lindíssima, atraente, infinitamente abraçável e beijável. Porque você sabe ser eruditamente simples, conversar com profundidade e cumplicidade, cantar e dançar e rir e esbanjar amorosidade e doçura, seja em um domingo preguiçoso, seja em meio ao turbilhão de uma semana complicada, da hora que tenta acordar à hora que tenta dormir. Sempre com esse sorriso lindíssimo e essa energia que quer sempre mais e melhor.

Porque você é extremamente realista e extremamente sonhadora, em um equilíbrio elegante e impressionante: uma explosão de sede de vida! Porque você também sabe dos meus inúmeros defeitos e me faz, mesmo sem perceber, sempre cheia de jeitinho, empenhar-me para ser cada vez mais um homem igualmente íntegro, respeitoso e amoroso com você e com todos ao nosso redor. Porque você tem esse jeito todo admirável e único de levar a vida e de partilhá-la comigo.

Porque, por conta disso tudo, é você quem eu amo, cada dia mais e mais. Porque é você que me faz, com o coração agitado e emocionado diante desse dia tão especial, voltar a me perguntar: será que continuará dando certo? Será que continuará tão bom assim? Porque é você que, ao mesmo tempo que instiga as perguntas, me dá uma piscadela marota e me cochicha cheia de charme: há de ser ainda melhor!

24 de setembro de 2014

Critério de Valor

Todo bom critério é evidente. E não há melhor critério do que o respeito ao próximo, o respeito àqueles que, semelhantemente a você, possuem defeitos e qualidades, que erram e acertam, que tentam, cada um à sua maneira, fazer o que julgam ser o melhor.

Respeitar os outros, inclusive, no meu caso, é respeitar a mim mesmo, respeitar os meus valores, valores tão cuidadosamente plantados e cultivados por quem verdadeiramente me ama. Por quem me respeita acima de tudo.

Respeito é o contrário de fazer vista grossa ou largar mão: respeito é o ápice da atenção, do olhar atento, do esforço em entender e, se preciso, ajudar e melhorar. Do esforço em aceitar a ajuda alheia, sempre alheio a vaidades.

Respeito é o critério que mais faz inflar positivamente o juízo de valor sobre qualquer avaliado. É o critério que não precisa de explicação, tampouco de argumentação ou de forçação. É o critério cristalino: sólido e transparente como cristal.

Respeito é o valor evidente em qualquer pessoa digna. E a "dignidade", diga-se de passagem, só é para poucos quando pronunciada isoladamente. Quando esmiuçada com atenção, logo se vê que é para todos, pois todos são dignos de respeito. Porque ninguém, se respeitado, é desprovido de valor.

6 de agosto de 2014

Praia

Meus dedos adentram seus cabelos como ondas suaves que beijam as margens de areia. Seu suspiro estremece meus ombros como a brisa esvoaça a firmeza dos coqueiros. Tal como sol de verão, o calor de nosso abraço agarra e abrasa nossos corpos e alma. E a felicidade nos é dada de modo frágil e recorrente, como conchas coloridas a serem acolhidas com delicadeza, carinho e atenção.

17 de abril de 2014

Chora-se

O tão inesperado que veio.
O que se foi tão inesperadamente.
O tão esperado que pode não vir.
A convicta esperança no que virá.

3 de abril de 2014

19 de março de 2014

Der Radwechsel

« Sento-me à beira da estrada.
O motorista troca o pneu.
Não quero estar lá, de onde venho.
Não quero estar lá, aonde vou.
Por que assisto à troca do pneu com impaciência? »

(Bertold Brecht, trad. Ricardo Domeneck, via Gustavo Nagel)

28 de janeiro de 2014

A Fila Anda

Impactaste minha vida como caminhão tombado na pista expressa da Marginal Tietê, como objeto na via às sete da manhã. Fizeste meu coração bater forte como bateria no Anhembi, como torcida organizada em final de campeonato. Puseste-me ansioso e sem escolha como trabalhador na linha vermelha querendo entrar em trem lotado, como mãe na fila do SUS. Encheste minha esperança como a 25 de Março no Natal, como córrego em verão. Deixaste meu amor grande e louco como o preço dos imóveis, como o trânsito da M'Boi Mirim. E minha vida ficou boa como pastel de japonês, como piscina do Sesc. Mas usaste-me e esqueceste-me como político eleito, como bituca de cigarro. Fiquei pálido e sem vida como céu cinza sem estrelas, como flor de shopping center. Perdido e sem rumo como turista na Paulista, como criança em beco da Luz. E quis voltar no tempo como retirante nordestino, como costureira boliviana. Mas não consigo esquecer-te. A fila não anda nesta cidade.

27 de janeiro de 2014

Gostar e Fazer

Eis o segredo: não só fazer o que gosta, tampouco apenas gostar do que faz, mas sempre as duas coisas juntas – gostar e fazer – como duas faces de uma moeda que, se não compra a felicidade, pelo menos é dada como troco em tal transação.

24 de janeiro de 2014

Quem vem do lado oposto

Já pouco importa se é grande linha de frente ou pequena tropa de elite: talvez prefira não estar em guerra alguma.

21 de janeiro de 2014

Quanto Mais

Quanto mais reconhecemos nossos próprios erros, mais paciência temos com os erros alheios. E quanto mais paciência temos com os erros alheios, menos erros cometemos.

14 de janeiro de 2014

Amor e Dedicação

Não é preciso amar aquilo a que nos dedicamos, mas dedicação é imprescindível em tudo o que amamos.

7 de janeiro de 2014

Epifania

Conversávamos no sofá após o jantar até que:

Estava contando para ela a deliciosa frustração de, no dia seguinte à publicação daquele breve conto de distopia no blog, ter lido a caminho do trabalho um fabuloso trecho em O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, trecho no qual o escritor constrói uma distopia terrível e belíssima de pessoas que vão se apequenando até que tudo ocorra apenas no cérebro de modo que as mentes se conectam em uma profunda compreensão da vida.

Fato é que tal trecho me pôs a concluir que nunca chegaria lá, nunca viria a ser escritor como aquele gajo.

Ela repetiu que o maior problema era não apenas a forma escrita, mas principalmente a forma pessimista e superficial com que eu tinha abordado os avanços tecnológicos. Dizia-me isto enquanto ia zapeando o televisor até que o acaso nos levou ao canal Cultura e vimos ali, no Roda Vida, o próprio assunto de nossa conversa: o escritor, ele mesmo, diante dos jornalistas brasileiros!

Estupefacto, ouvi dizê-lo acreditar que a felicidade é uma espécie de epifania. pois lá estava eu, de facto, a experimentar aquilo tudo. e a epifania, veja bem, não era o escritor a dar entrevistas sobre o equívoco de reduzi-lo à democracia das minúsculas, ou sobre a redenção do esteves após a superficial alcunha dada por pessoa, posto que a entrevista podemos resgatar a qualquer momento graças à tecnologia via internet, grande bem quando convém: a Epifania, pois, era tê-la ali comigo, no sofá, após o jantar, conversando de escritas e distopias enquanto o autor de a máquina de fazer espanhóis, o autor de o filho de mil homens, o Autor que eu venho lendo e por quem venho me apaixonando nos últimos meses, valter hugo mãe, ia falando que há uma espécie de desperdício do potencial humano quando não se tem filhos. Era como se nossas mentes estivessem conectadas em uma profunda compreensão da vida - como naquela distopia, mas sem que isso nos apequenasse: muitíssimo pelo contrário.

Fato é que enchi-me das esperanças de um dia chegar lá, tal como este português.

5 de janeiro de 2014

Distopia

Por muito tempo a humanidade desejou criar uma máquina que se equiparasse ao cérebro humano.

No entanto, lá no século XXI, diante da impossibilidade percebida, mudou de estratégia e passou a investir não no avanço da engenhoca propriamente dita, mas no retrocesso do cérebro humano por meio das mais diversas bugigangas tecnológicas, as quais - diziam - facilitariam a vida humana (em vez de fazer a montanha vir até Maomé, preferiu petrificá-lo, de modo que a humanidade realizasse outro sonho antigo: voltar no tempo - neste caso, para o tempo das pedras).

Só agora, séculos adiante, a história deu mostras de que realmente é cíclica e nos pôs a sonhar o mesmo de outrora: o desejo de aprender a pensar por conta própria.

O desejo da desanimalização.