28 de julho de 2013

As Gêneses

I.

No princípio criou Deus o altruísmo e, por consequência estrutural, o egoísmo. Depois Darwin os rebatizou de princípios da preservação da espécie e da sobrevivência.

II.

Também criou Deus o Amor, que nada mais é do que o altruísmo possível de ser investido não apenas nos outros, mas também em si próprio. Esse foi o barro da criação do único vivente racional da Terra cuja diferença em relação aos demais é a capacidade de amar: o ser humano. 

III.

Porquanto está escrito:
bem-aventurado aquele que ama,
porque raciocina.

IV.

Um gato pode ser egoísta e um cachorro pode ser altruísta, mas apenas o ser humano pode ser amoroso - pelo menos por enquanto, diria Darwin (e muitos amantes dos animais alegam: tal evolução está a todo vapor). Todavia, alguns acham que bicho e planta, por não amarem, também não podem ser amados. Mas em verdade vos digo: por mais difícil que seja, também é preciso amar tais pessoas, porque não sabem o que fazem. Se o raciocínio delas estivesse certo, também não poderiam comer bichos e plantas, já que não são devorados por eles - pelo menos por enquanto.

V.

Todo aquele que ama, raciocina; mas nem todos que raciocinam também amam: eis a diferença entre ciência e religião. E a retórica é o vício de ambas, tal como o cigarro que, além de prazer e charme, também faz adoecer.

VI.

Ouvistes o que foi dito:
nem todo raciocínio procede,
nem todo procedimento é racional.

VII.

No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Imperativo: amai a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. O egoísta coloca a si mesmo acima de tudo e o altruísta comete o mesmo com o próximo; apenas o amoroso concorda com o Verbo em número e pessoa.

27 de julho de 2013

Relatividade

No fundo, algo nos diz que os milhares de pontos de vistas que relativizam a verdade podem ser classificados em dois grandes tipos: os certos e os errados.

25 de julho de 2013

Esse ou Este?

Sendo escrita e leitura processos cada vez menos lineares no tempo e no espaço, a escolha entre esse ou este já não depende mais de antes ou depois, nem de próximo ou distante: virou escolha meramente estilística.

20 de julho de 2013

Telescópio

Ilustração de Rosa de Mayo Joubrel

Sonhei que a graça do telescópio era essa mesma: se não nos aproxima fisicamente de todas as coisas bonitas e distantes que vemos através dele, pelo menos nos aproxima das pessoas que se achegam para partilhar a mesma visão. Afinal, sonhar com o irrealizável também é uma boa forma de viver a realidade, principalmente quando em boa companhia.

16 de julho de 2013

Não basta cortar o mal pela raiz

Não basta cortar o mal pela raiz; é preciso desenraizá-lo e, em seu lugar, plantar, cultivar e colher o bem.

Basta, portanto, a sorte do solo fértil, a recompensa do plantio bem feito e a bênção da chuva divina.

13 de julho de 2013

Preceitos

Foto de Juliana escrevendo, por Vinícius Cassio Barqueiro.

Sempre me lembra que para escrever bem é preciso duas coisas: não tratar o leitor como idiota (tipo quando fico explicando cada detalhe, como agora), nem transubstanciá-lo em bidu. Ou seja: não subestimar, nem superestimar. Ela é tão sabida que o mesmo preceito vale para tudo, tanto na minha relação com os outros quanto comigo mesmo. Como se não bastasse, essa Juliana ainda vai além e não apenas diz, mas age exatamente assim - na escrita, comigo, com todos - o que nos lembra outro grande preceito: aquele da coerência e coesão.

12 de julho de 2013

Viagens

Quando a fama chegar e minha arte for emoldurada pela crítica e pendurada na parede do museu do cânone, hão de viajar aventando mil e uma explicações para minha tendência a escrever fragmentos em vez de romances. Todavia, como em tudo, os mesmos se esquecerão da razão óbvia: a quantidade de baldeações a que estive submetido nas minhas próprias viagens diárias.

9 de julho de 2013

Coisas Apaixonáveis

Pois vejo você de rabo de olho se apaixonar pela poesia de Chico como quando ele canta Cecília e boquiaberto apaixono-me também como quando Clarice me explica você em um parágrafo incompreensível já que apaixonar-me por você é sobretudo querer viver a vida toda apaixonando-me contigo pelas mesmas coisas apaixonáveis sonhando com elas e buscando realizá-las.

8 de julho de 2013

Trindade

Sim, de fato, a vida pode ser entendida como um grande conto de fadas do príncipe que batalha contra o dragão para resgatar a princesa.

A diferença é que, na vida, nós somos ao mesmo tempo príncipe, dragão e princesa: lutamos contra nós mesmos para nos reencontrarmos.

Eis, guardadas as devidas proporções, mais um exemplo de criação à "imagem e semelhança" do criador.

O ser humano: resgatador e resgatado, prisioneiro e guardião.

7 de julho de 2013

A Tristeza, aos Otimistas de Espírito

Ao amigo Acacio Batista.

Se fosse apenas mais uma em um grande jardim florido, por puro costume torpe da humanidade, talvez a nobre flor nem fosse notada - tal como seu pai Drummond, se houvesse mais poesia no mundo. A tristeza, aos otimistas de espírito, ou realça a beleza da alegria, ou mesmo a faz nascer.

6 de julho de 2013

A Felicidade é um Feriado

A felicidade é um feriado: embora seja passageira, é melhor quando se curte também a expectativa pela chegada e as lembranças que posteriormente permanecem.