31 de março de 2013

Clichês

O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito.

A Metamorfose, de Kafka

Resenha participante do Desafio Literário 2013

Eu que sempre tão preso ao papel, finalmente li meu primeiro ebook:  A Metamorfose.

Conhecia de cor o enredo (o cara que se transforma num inseto) e o estilo do autor, de modo que há tempos sei explicar o que é um texto kafkaniano. No entanto, o fato: eu ainda não tinha lido nada dele. Não por falta de indicações, mas por pura procrastinação. E gostei, não como algo genial ou comovente, mas como algo necessário.

Com relação à estória, clichê relembrar o quanto Gregor e sua família se metamorfoseando metaforizam a humanidade que vai perdendo seus traços essenciais em meio ao mundo moderno.

Com relação ao estilo, também clichê relembrar o quanto a narração sendo narrada como corriqueira metaforiza a naturalidade com a qual encaramos as bizarrices do cotidiano. Quer cidade mais kafkaniana do que nossa São Paulo?

O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito. E o que Kafka faz é exatamente isso: ao narrar como natural algo nauseante, lembra-nos o quanto fazemos isso no dia a dia. Lembrete que talvez nem faça mais efeito, embora siga necessário: foi apenas quando virou inseto (quando se colocou "outside") que Gregor começou a reparar melhor nas coisas.

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KAFKA, Franz. A Metamorfose. [1915]

29 de março de 2013

Agente ou paciente

Em essência, o verdadeiro cristão não é aquele que converte: é aquele que é convertido. Eis porque o Criador requer de suas criaturas não apenas agência, mas sobretudo paciência.

23 de março de 2013

Romeu e Julieta

Eis a tensão no famoso relato shakespeariano: de um lado, o casal apaixonado luta para juntar aquilo que naturalmente ficaria separado. Do outro, seus pais tradicionalistas lutam para separar aquilo que naturalmente acaba se atraindo. Resumindo em uma analogia religiosa na dialética hegeliana: tese: sincretismo; antítese: fundamentalismo; síntese: final trágico. E a moral da história: é preciso buscar o amor, mas nunca por algum desses caminhos.

21 de março de 2013

Paulistanite

Quem reclama do frio ou do calor, no fundo, apenas odeia o fato de não estar em outro lugar quando o tempo o acomete. Eis porque a grande maioria dos paulistanos sempre reclama da temperatura, seja ela qual for: na prática, reclamam é das circunstâncias da cidade. Na praia ou no campo, (ou mesmo em São Paulo, mas) sem correria e trânsito, o tempo é sempre bom.

16 de março de 2013

O dilema das portas

Uma das metáforas mais significativas a que recorro para explicar meu comportamento, tanto meus acertos quanto meus erros, é a seguinte: "meu prazer é abrir portas".

Quando penso em abandonar tal comportamento, deparo-me com este trecho lindo e me conforto:
"Todos conhecemos que a noite e os dois lados que todas as noites têm: a noite dentro de casa e a noite fora de casa. Ou seja: há a tranquilidade e o esperado e há, ainda, o medo e a estranheza. Claro que se poderá sempre dizer que a poesia não se encontra nem em um lado nem no outro: a noite tem dois lados e a poesia é a porta da casa no momento em que é aberta e o escuro cobre a relva e o céu. Mas quando alguém tem medo, deve correr para casa; e quando sente tédio, deve correr para a parte de fora da casa. E a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo, o que é bom e dois, sendo uma única, a poesia. Uma coisa que caminha, ao mesmo tempo, para seu lado direito e para o esquerdo não é uma coisa útil (porque a utilidade é tema de medidas exatas e previsões em gráficos), é, sim, uma coisa sagrada e mágica."
TAVARES, Gonçalo. M. O senhor Breton e a entrevista.
Mas quando penso em adotá-lo por completo, leio outro trecho lindo e me agito:
"O saguão é uma sala de espera, um lugar a partir do qual se podem abrir as várias portas, e não um lugar de moradia. Para morar, segundo creio, o pior dos cômodos (seja lá qual for) será preferível. É verdade que certas pessoas vão descobrir que terão de esperar no saguão por um tempo considerável, enquanto outras saberão com certeza e imediatamente em qual das portas deverão bater. Eu não conheço o porquê dessa diferença, mas tenho a convicção de que Deus não deixa ninguém à espera a não ser que a julgue benéfica. Quando você chegar ao seu cômodo, descobrirá que a longa espera lhe fez um bem que não seria alcançável por outros meios. Porém, sua estada no saguão deve ser encarada como uma espera, e não como um acampamento. Você deve perseverar na oração, implorando pela luz; e, claro, mesmo que ainda no saguão, deve começar a tentar obedecer às regras comuns à casa inteira. Acima de tudo, deve se perguntar continuamente qual das portas é a verdadeira; não qual delas tem a pintura mais bonita ou possui os melhores ornamentos."
LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples.
Ora de um lado, ora de outro, sigo assim: limiariando.

Dilema

Em três versos
Um escritor
Se esquarteja.