28 de fevereiro de 2013

Quincas Borba, de Machado de Assis

Resenha participante do Desafio Literário 2013

Há tempos eu adiava a leitura de Quicas Borba, mesmo depois de ter sido presenteado com uma linda edição deste livro por meus queridos amigos Rafael e Camila. De lá para cá, restava-me a lembrança das risadas ao acompanhar o começo da história do humanitista Rubião, fato que me ajudou, pois, a escolher este romance na categoria "livros que nos façam rir" - agora para lê-lo por inteiro.

Não é novidade: o humor de Machado é delicioso pela ironia. "Ao vencedor, as batatas", sim, mas sem deixar de notar que tanto vencedores quanto perdedores são ridículos em suas manobras em busca da sobrevivência, loucos como o filósofo Quincas Borba. Rimos da glória e da desgraça dos personagens sem deixarmos de lembrar que, de um jeito ou de outro, agimos da mesma maneira, cheios de dissimulação e interesse. Rimos por cumplicidade.

Não é à toa, pois, que dizem que Machado inaugurou o "realismo" no Brasil: não apenas o inaugurou, mas o batizou de humanitismo. E digo mais: com escrita invejável, desenhou em seus livros minuciosas caricaturas da realidade. Leitura que vale muito a pena.

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ASSIS, Machado de. Quincas Borba. [1891] São Paulo: Globo, 2008.

12 de fevereiro de 2013

"O lado bom da vida" e a polêmica dos finais felizes

O louco – diz Chesterton – não é aquele que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão”. A loucura é a incapacidade de fazer algo despretensioso.

Cartaz do filme "Silver Linings Playbook". No Brasil, "O lado bom da vida".

Difícil falar de um filme tão sensível e inteligente de maneira completa e sem spoilers. Por isso, escrevo aqui apenas alguns fragmentos de minhas impressões, voltadas principalmente a quem já o assistiu. A quem ainda não assistiu, minha veemente indicação.

Silver linings playbook, em cartaz no Brasil como O lado bom da vida, conta a história de Pat, internado após um ataque eufórico ao descobrir a esposa com um amante. O filme começa com a saída de Pat da clínica, ainda bipolar, buscando recuperar o tempo perdido. Nesse processo, ele conhece Tiffany, também com transtornos mentais desde a trágica morte do marido. Juntos, enfrentando preconceitos e desafios, eles vão tentando redescobrir a sanidade.

Muitos podem dizer que o filme quer mostrar quanto todo mundo é um pouco louco, mas eu digo o contrário: o filme mostra como a insanidade é bastante particular e assustadora. Todo mundo tem manias e superstições, até o ótimo Robert de Niro (pai de Pat) e o psicanalista indiano – e isso é engraçadíssimo. Mas a loucura, mesmo, é trágica e deve ser tratada clinicamente.

Logo no primeiro encontro com Pat, Tiffany encerra o jantar na casa da irmã dizendo mais ou menos o seguinte: "não somos como eles, Pat, nós não mentimos, não somos hipócritas". Com essas palavras, é feito o primeiro laço em comum entre a patologia dois personagens tão cativantes: o exagero da sinceridade.

Assim que saiu da clínica, Pat pede que a mãe alugue alguns livros que lembram sua ex-esposa Nikki. Enquanto lê em uma das primeiras noites fora da clínica, Pat tem um ataque de fúria e grita com os pais: "cadê o final feliz? A vida já tem problemas demais!". Mais adiante, a própria Nikki sentencia em uma polêmica carta: "a falta de finais felizes faz bem às pessoas: ela lembra que a vida é realmente difícil".

Ao longo do filme, à medida que Pat e Tiffany vão ensaiando os passos de dança, as coisas começam a se ajeitar. A primeira prova que Tiffany mostra de sua melhora é a capacidade de arquitetar a chantagem por meio das cartas: ela mente para Pat, aproveitando-se da situação ainda bipolar do rapaz. Da mesma forma, mais adiante, a primeira prova que Pat mostra de sua melhora é a capacidade de fingir acreditar nessa estória das cartas: ele deixa de acreditar na ilusão à medida que começa a mentir. Ainda mais próximos, eles vão perdendo o excesso de sinceridade: por meio da arte, aprendem a dissimular.

Não vou relembrar qual é o final da trama, mas posso afirmar que ele é uma resposta ao argumento de que “a falta de finais felizes faz bem às pessoas”. No fundo, como mostra o próprio filme, o excesso de realismo está mais próximo da loucura do que da realidade: às pessoas prosaicas, a fantasia faz muito bem. As pessoas gostam de se iludir, voluntariamente.

A maior polêmica na vida real e na ficção não é buscar ou não um final feliz, mas saber delimitar o que é um final feliz. Às vezes, mesmo a derrota em um concurso de dança pode ser muito comemorada, basta saber enxergar o todo: capacidade exclusiva das pessoas sãs.

O filme é despretensioso como a maioria das coisas saudáveis: dançar, assistir futebol, estar com a família, rir. É extremamente realista, não de modo apelativo, violento, trágico, mas de modo poético e fantasioso. Belíssimo.

3 de fevereiro de 2013

Certezas

Melhor um gato que voa do que um gato que arranha.

Do mesmo modo, aprendi: melhor a falta de certezas do que uma certeza errada.

Por isso, sábios amigos, em verdade vos digo: melhor a inteligência que combate a violência, do que a retórica que combate a pluralidade filosófica pós-moderna.

A certeza da incerteza é tão incongruente quanto o gato que voa, mas a violência é tão doída quanto a garra de um felino.

1 de fevereiro de 2013

São Paulo, meu!

« São Paulo, meu, onde até a Garoa, trabalhadora incessante, corre para não perder a hora de regar o trânsito: semente sustentável que há de brotar! »

Frase ganhadora do 1º lugar no concurso de frases "Aniversário da Cidade de São Paulo", promovido pela biblioteca do Senac Lapa Tito.

Como prêmio, ganhei um belíssimo livro: "Desenhando São Paulo - Mapas e Literatura".