15 de junho de 2013

Lição de Desigualdade

Certo dia, uma senhora "do bem" (meia idade, classe média) adentra ao supermercado anexado ao shopping center da cidade, ou melhor, do bairro. (antro do consumo: cenário ideal para uma ilustração social)

Enquanto assiste aos comerciais pela televisão instalada para entreter os consumidores com incentivos de "sejam felizes", espera irritada na fila do caixa. (filas: todos estão sujeitos e acostumados a elas: a pé, de carro, até mesmo de avião)

Ao chegar ao caixa, percebe que um produto está vencido (é preciso que os produtos tenham curto prazo de validade para que a economia rode) e, revoltada, reclama para a pobre atendente que, também estressada, aciona um apoio.

Uma espécie de sirene começa a piscar.

Enquanto o apoio não vem, os itens vão sendo lançado no sistema. ("o sistema": presente em praticamente todas as nossas ações no dia; espécie de algo imutável ao qual – dizem – devemos nos adaptar, pouco importando que seja criado e administrado por outros humanos)

De repente, a pobre atendente – ou melhor, a caixa registradora – apresenta na tela um preço divergente: a prateleira marcava R$ 3,00, mas a tela do sistema mostra R$ 3,20.

O que vale é o que aparece na tela, senhora – afirma a pobre atendente.

É a gota d'água para a senhora do bem se exaltar e começar a reclamar em alto e bom som sobre o serviço prestado ali. Afinal, é uma vergonha – esbraveja – trabalhar tanto, pagar tão caro e não ter seus direitos garantidos.

Neste momento, o apoio acionado pela sirene chega e pede à senhora que se acalme e deixe os demais consumidores passarem enquanto o gerente é acionado. No entanto, a senhora do bem – que, afinal, está nos "seus" direitos – diz que não: ninguém vai passar enquanto o caso dela não for resolvido.

As demais pessoas do bem que estão na fila começam a esboçar murmurações, mas sabem que fariam o mesmo se fossem elas as acometidas por tal barbárie.

Enquanto o gerente não vem, a televisão troca a felicidade dos comerciais por uma sentença de noticiário. Junto à foto tenebrosa, a notícia "vândalos atrapalham trânsito em mais uma noite violenta" preenche a tela.

A notícia parece ter um efeito analgésico e criar um vínculo tácito entre as pessoas do bem que estão na fila. Elas logo começam a trocar reclamações sobre os vândalos: os mais contidos dizem que lutar pelos direitos é preciso, desde que não atrapalhe a vida de ninguém; outros mais veementes dizem que é um absurdo tanto alvoroço por causa de centavos.

O filho de uma pessoa do bem pergunta se foi mesmo o tal de vândalo (ainda não sabe muito bem o que isso significa) que quebrou aquilo.

O bom pai, sempre atencioso, afirma: se apareceu na tela, então é verdade, filho.

O filho pergunta para ver se entendeu: o tal de vândalo é igual à senhora que está atrapalhando todo mundo para ser notada e ter seus direitos garantidos, não é?

O bom pai, sempre atencioso, afirma: não, filho, é diferente.

Ali, mais uma vez, o filho aprende com o bom pai um pouco sobre a sociedade em que vive: uma verdadeira lição de desigualdade. (não apenas de opiniões; mas principalmente de direitos)

Afinal, deve ter pensado o pai, nenhum manifestante "paga um serviço" como a senhora do bem; os impostos servem para qualquer outra coisa. (a televisão troca a notícia dos vândalos por uma chamada da Copa do Mundo)

Ou ainda: para que protestar com violência, atrapalhando os outros? Não há outra forma de reivindicar seus direitos? ('num rompante de violência, sentindo-se tacitamente apoiada pelas demais pessoas de bem, a senhora começa a jogar os produtos no chão e gritar contra a pobre atendente pela demora na solução de seu problema)

Coitada! Veja o que essa cidade obrigou a pobre senhora a fazer – observa o pai. (enquanto a sirene continua piscando)

O filho, outrora assustado, começa a se acostumar com tudo aquilo. Percebe que a violência exibida na televisão de fato existe na realidade, embora a realidade que ele está vivendo seja diferente da que ele está assistindo. (voltam os comerciais com incentivos de "sejam felizes")

É simples: então quer dizer que vândalo significa ser humano! – conclui o garoto. E sorri, satisfeito.

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