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A Arte é uma Bicicleta

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Aos amigos práticos, defendo-me dizendo que a arte é uma bicicleta ergométrica: mesmo que não leve a lugar algum, aumenta o fôlego e tonifica os músculos, dando-nos melhores condições para caminhar rumo às conquistas.

Aos amigos sonhadores, alerto que a arte é uma bicicleta convencional: além de melhorar nosso condicionamento físico e espiritual, ajuda-nos a chegar muito mais rápido à felicidade, desde que o caminho não seja muito vertical.

Nos olhos de quem vê

Beleza é construção humana, uma construção interna em relação ao que está fora, a construção de uma porta estreita, uma porta de vidro transparente e espelhada, a porta de uma casa de repouso, o lugar ideal para que a própria beleza se entregue em si, e descanse em paz.

Desejo de Natal

Que a cidade fosse toda decorada por um lindo céu de estrelas brilhantes e visíveis, ou seja, que toda essa beleza latente e natural viesse à tona. E não só isso, mas que essa manifestação se espalhasse em cada vida aqui existente, e que os sorrisos e abraços fossem em nós não como enfeites empoeirados que ressuscitam a cada final de ano, mas como um céu que, despindo-se de todo prédio e poluição, voltasse a manifestar seu ontológico esplendor.

Um Mundo Melhor

Quando seu olhar me pergunta se estou alcançando aquele objetivo bonito que anunciei ao chegar aqui de ajudar a melhorar o mundo por meio da educação respondo que sim porque no mínimo estou aprendendo a ser alguém melhor e essa é a principal parte que cada um de nós pode fazer à sociedade enquanto: respira, menino, simplesmente responde esse seu sorriso atento, enraizando-me a certeza de que, por mais torto que possa parecer, estamos no caminho certo.

Desafios Educacionais

A educadoræs.
Dizemos que a vida é um constante aprendizado e temos absoluta certeza da importância de desafiarmos nossos educandos,

mas poucas vezes gostamos quando esta mesma vida, nossa grande mestre, desafia-nos cada vez mais.

Relações Construtivas

Não aquelas em que falamos mal das pessoas, fatos ou ideias, mas aquelas que nos ajudam a enxergar alternativas e aspectos positivos em qualquer ocasião, mesmo nas mais adversas.

Falar mal é fácil e se faz com qualquer desconhecido, mas falar bem e com propriedade requer prática, disposição e profundidade nas relações.

Tomando emprestadas as palavras de Jakobson: falar mal é dispor da função fática, mas falar bem é dispor das demais.

Tempo frio e banho quente

O que sinto por tempo frio é pura paixão avassaladora: desejo intenso e passageiro seguido de dor e desespero.

Já o que sinto por banho quente em tempo frio, e só em tempo frio, é como o amor verdadeiro: se titubeio para entrar, depois não quero mais sair.

Tempo frio e banho quente: combinação perfeita, desde que respeitadas tais condições. Mas muitos adoecem por subverterem essa ordem.

Otimismo

Se sou incurável otimista, é também por estar ao seu lado. Tão poucas as chances de nos encontrarmos, tão impossíveis as chances de você me querer, mas cá estamos com as vidas mais do que cruzadas. Tão improvável estudar fora, tão grande o tempo longe, mas cá estamos unidos do deitar ao despertar, sob o mesmo teto, sob os mesmos sonhos. Tão louco imaginar casa, casamento, festa, viagem, carro, móveis, mas cá estamos abençoados e cheios de novos planos mirabolantes, num amor que transcende qualquer dessas coisas passageiras. Cá estamos: eu cheio de paixão por sua força, seu papo leve e cabeça, sua meiguice, sua beleza estupenda, seu olhar de amor... e você cheia do meu arrepio com seu toque suave, da minha vontade insaciável de seu abraço, do meu gosto em ouvir sua música e suas histórias, da minha disposição em ser bom para você. Tão improvável tudo isso junto, mas cá estou, mais um aniversário ao seu lado, mais otimista do que nunca. E é fácil para mim ser assim, pois você é …

Aprendendo

Estou aprendendo tanto com você! - digo, felicíssimo, pensando também agradar com essa minha felicidade.

Mal sei que gostaria não apenas de ouvir isso, mas principalmente de poder dizer-me o mesmo.

Sem olhar a quem

Eu, porém, vos digo:
olhai a quem ao fazer o bem,
mas sem que isso impeça
de fazê-lo a ninguém.

Deviam ou Deveriam?

O que deviam ou o que deveriam ter feito? Nenhum dos dois. Neste caso é melhor utilizar apenas a primeira pessoa do presente do indicativo: "o que eu devo fazer?"

Ainda Não Sabe

Arrepende-se apenas dos erros cometidos, nunca dos desafios aceitos.

Ainda não sabe que aceitar certos desafios é um erro inaceitável.

A Leonice e o Orgulho da Humildade

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Aos astrólogos falta mencionar não apenas as características universais determinadas pelos astros, mas também as características oriundas de onde nascemos e vivemos.

No Brasil, por exemplo, a "humildade" faz o Rei, sendo não raros, por isso, os leoninos irreconhecíveis pela prescrição do signo zodíaco: "você não gosta de se aparecer, nem gasta muito, nem é tão mandão assim", dizem os elogios que o desavisado faz sem nem perceber que é exatamente isso que oiriça a juba do felino.

Aos leoninos do bem fica o alerta e aos demais fica a dica: ter orgulho da humildade é como acabar com a doença matando o doente.

Eternidade

Eternidade: palavra metalinguística que denota o tempo necessário para compreendê-la de verdade.

No Poema de Deus

É só um verso o universo.

A Sombra

Ao amigo Acacio Batista.
Inquieto pelo que havia acontecido, Gregor Samsa passou a esconder-se nos sombrios vãos dos móveis da casa, enquanto eu, pela falta da luz que me dava vida, já nem vivia: virei mero componente da sombra existente há anos naquela escrivaninha, tal como história abandonada pelo escritor que envelhece.

Valor

Em vez de visar ser valorizado, viver sendo valoroso.

As Gêneses

I.
No princípio criou Deus o altruísmo e, por consequência estrutural, o egoísmo. Depois Darwin os rebatizou de princípios da preservação da espécie e da sobrevivência.
II.
Também criou Deus o Amor, que nada mais é do que o altruísmo possível de ser investido não apenas nos outros, mas também em si próprio. Esse foi o barro da criação do único vivente racional da Terra cuja diferença em relação aos demais é a capacidade de amar: o ser humano. 
III.
Porquanto está escrito:
bem-aventurado aquele que ama,
porque raciocina.
IV.
Um gato pode ser egoísta e um cachorro pode ser altruísta, mas apenas o ser humano pode ser amoroso - pelo menos por enquanto, diria Darwin (e muitos amantes dos animais alegam: tal evolução está a todo vapor). Todavia, alguns acham que bicho e planta, por não amarem, também não podem ser amados. Mas em verdade vos digo: por mais difícil que seja, também é preciso amar tais pessoas, porque não sabem o que fazem. Se o raciocínio delas estivesse certo, também não po…

Relatividade

No fundo, algo nos diz que os milhares de pontos de vistas que relativizam a verdade podem ser classificados em dois grandes tipos: os certos e os errados.

Esse ou Este?

Sendo escrita e leitura processos cada vez menos lineares no tempo e no espaço, a escolha entre esse ou este já não depende mais de antes ou depois, nem de próximo ou distante: virou escolha meramente estilística.

Telescópio

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Sonhei que a graça do telescópio era essa mesma: se não nos aproxima fisicamente de todas as coisas bonitas e distantes que vemos através dele, pelo menos nos aproxima das pessoas que se achegam para partilhar a mesma visão. Afinal, sonhar com o irrealizável também é uma boa forma de viver a realidade, principalmente quando em boa companhia.

Não basta cortar o mal pela raiz

Não basta cortar o mal pela raiz; é preciso desenraizá-lo e, em seu lugar, plantar, cultivar e colher o bem.

Basta, portanto, a sorte do solo fértil, a recompensa do plantio bem feito e a bênção da chuva divina.

Preceitos

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Sempre me lembra que para escrever bem é preciso duas coisas: não tratar o leitor como idiota (tipo quando fico explicando cada detalhe, como agora), nem transubstanciá-lo em bidu. Ou seja: não subestimar, nem superestimar. Ela é tão sabida que o mesmo preceito vale para tudo, tanto na minha relação com os outros quanto comigo mesmo. Como se não bastasse, essa Juliana ainda vai além e não apenas diz, mas age exatamente assim - na escrita, comigo, com todos - o que nos lembra outro grande preceito: aquele da coerência e coesão.

Viagens

Quando a fama chegar e minha arte for emoldurada pela crítica e pendurada na parede do museu do cânone, hão de viajar aventando mil e uma explicações para minha tendência a escrever fragmentos em vez de romances. Todavia, como em tudo, os mesmos se esquecerão da razão óbvia: a quantidade de baldeações a que estive submetido nas minhas próprias viagens diárias.

Coisas Apaixonáveis

Pois vejo você de rabo de olho se apaixonar pela poesia de Chico como quando ele canta Cecília e boquiaberto apaixono-me também como quando Clarice me explica você em um parágrafo incompreensível já que apaixonar-me por você é sobretudo querer viver a vida toda apaixonando-me contigo pelas mesmas coisas apaixonáveis sonhando com elas e buscando realizá-las.

Trindade

Sim, de fato, a vida pode ser entendida como um grande conto de fadas do príncipe que batalha contra o dragão para resgatar a princesa.

A diferença é que, na vida, nós somos ao mesmo tempo príncipe, dragão e princesa: lutamos contra nós mesmos para nos reencontrarmos.

Eis, guardadas as devidas proporções, mais um exemplo de criação à "imagem e semelhança" do criador.

O ser humano: resgatador e resgatado, prisioneiro e guardião.

A Tristeza, aos Otimistas de Espírito

Ao amigo Acacio Batista.
Se fosse apenas mais uma em um grande jardim florido, por puro costume torpe da humanidade, talvez a nobre flor nem fosse notada - tal como seu pai Drummond, se houvesse mais poesia no mundo. A tristeza, aos otimistas de espírito, ou realça a beleza da alegria, ou mesmo a faz nascer.

A Felicidade é um Feriado

A felicidade é um feriado: embora seja passageira, é melhor quando se curte também a expectativa pela chegada e as lembranças que posteriormente permanecem.

Aforismos

Hei de ter dois tipos de críticos: um que apontará minha mania de utilizar dois-pontos e ponto-e-vírgula; outro que apontará minha mania de dividir tudo em dois tipos.

No entanto, nenhum deles será tão assertivo quanto aquele que apontar minha mania de, sistematicamente, começar sempre negando uma coisa verossímil para, logo em seguida, afirmar com convicção algo menos superficial.

Ou ainda: minha mania de exemplificar com metáforas como quem arranca uma planta da terra para, em seguida, propor o jeito certo de plantá-la e cultivá-la.

Literalmente, pelo menos até aqui, é assim que penso e, sobretudo, é assim que escrevo.

Pura diversão!

Não só [, mas também]

Prato cheio aos analistas do discurso (ou a qualquer cidadão minimamente sensato):
« "Nós [a Fifa] não estamos aqui só para encher os bolsos e sair do país", afirmou o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. Em seguida, ele acrescentou: "Sempre se pode fazer mais. (...)" » (matéria do UOL)

A Solidão é como o Silêncio na Música

Há quem diga que a solidão é essencial para o encontro consigo mesmo e, por consequência, a melhor ocasião para o desenvolvimento pessoal.

Mas não basta:

Quanto mais próximos uns dos outros, no melhor e no pior de cada um, mais referenciais do que fazer ou não e, por consequência, mais ocasiões para o desenvolvimento pessoal e, principalmente, coletivo.

A solidão é como o silêncio na música: essencial, sim, desde que seja intercalada com algumas notas-solo e, principalmente, com muito acorde coletivo.

O Sistema

Trecho de "Lição de Desigualdade".
"O Sistema": presente em praticamente todas as nossas ações no dia; espécie de algo imutável ao qual – dizem – devemos nos adaptar, pouco importando que seja criado e administrado por outros humanos (ou seja, pouco importando que, no fundo, seja completamente mutável).

Lição de Desigualdade

Certo dia, uma senhora "do bem" (meia idade, classe média) adentra ao supermercado anexado ao shopping center da cidade, ou melhor, do bairro. (antro do consumo: cenário ideal para uma ilustração social)

Enquanto assiste aos comerciais pela televisão instalada para entreter os consumidores com incentivos de "sejam felizes", espera irritada na fila do caixa. (filas: todos estão sujeitos e acostumados a elas: a pé, de carro, até mesmo de avião)

Ao chegar ao caixa, percebe que um produto está vencido (é preciso que os produtos tenham curto prazo de validade para que a economia rode) e, revoltada, reclama para a pobre atendente que, também estressada, aciona um apoio.

Uma espécie de sirene começa a piscar.

Enquanto o apoio não vem, os itens vão sendo lançado no sistema. ("o sistema": presente em praticamente todas as nossas ações no dia; espécie de algo imutável ao qual – dizem – devemos nos adaptar, pouco importando que seja criado e administrado por outros …

A Solução Política

Realizar um Sonho

Releitura do texto "Sonhos".
Realizar um sonho não é apenas alcançar aquilo que você já queria: isso se chama alcançar uma meta; caminhar pela estrada até chegar ao destino desejado.

Realizar um sonho, na verdade, é descobrir algo que é melhor do que qualquer coisa que você poderia imaginar.

Um sonho é algo que, embora advindo da imaginação, sempre está além dela. É como o sol que nasce no horizonte da estrada e, em outra dimensão, dá vida ao mundo inteiro.

Ou ainda: um sonho é como minha querida Juliana: parte fundamental do meu caminho, não como estrada em que piso ou como ponto a que chego: mas como um sol que me ilumina, que me aquece, que me faz enxergar melhor e que, independentemente de mim, brilha muito, esteja onde estiver.

Esposa, feliz dia do namorados!

Coragem

Coragem nem sempre é enfrentar o inimigo mais forte; muitas vezes, é saber evitá-lo ou mesmo, se preciso, saber fugir dele sem vergonha alguma.

Isso vale principalmente para um grande inimigo nosso: a tentação de fazer algo que, embora agradável ou vantajoso, seja diferente daquilo que acreditamos ser o mais justo ou o mais certo.

Coragem, em suma, é ter a honra não apenas de enfrentar perigos, mas principalmente de manter a consciência tranquila.

Quanto à tranquilidade da consciência, duas tendências: de um lado, quem vive sem culpa por pura inconsequência ou falta de juízo; do outro, quem vive religiosamente pautado pela noção da culpa imperdoável ou irresgatável. No meio, a coragem de agir de acordo com o que acredita, nem que, para isso, seja atacado por ambos os lados.

Fatos Reais

A nobreza de um rei não se mede pelas dimensões de seu reino, mas pela imensidão da sua humildade.

A autoridade não é um território que se conquista com guerra, mas um trono que se herda enquanto filho da integridade.

Um verdadeiro súdito do reino não serve apenas ao rei; antes, é fiel aos seus irmãos compatriotas.

Wing

Please, say the right way to write.
Oh, please, Sky, why am I shy?
Please bring a thing like a wing,
I wish to fly.

But, if I won't fly, Sky,
Oh, please, stay with me and say
A thing about this day, the wind,
My wish away.

Foco

Menos naquilo que já sei; mais naquilo que hei de aprender e, principalmente, de ensinar.

O que sou

É aquilo que sempre digo, só que não: é aquilo que sempre faço.

As Forças do Mal

O problema não está nas opções, mas nos critérios de escolha - ou melhor, na falta deles.

Se pudéssemos definir como agem as forças do mal, muitos diriam que elas roubam pessoas, objetos ou possibilidades de escolha, mas eu discordo: para mim, perder tudo isso, por mais difícil que seja, faz parte da vida.
Estou convencido de que uma verdadeira força do mal é aquela que, sem tirar absolutamente nenhuma pessoa, objeto ou possibilidade de escolha, arranca de nós algo muito maior: nossos valores, critérios a partir dos quais escolhemos o que amar e a que nos dedicar.
O inferno, desse modo, não seria uma sala sem televisão ou computador, mas uma sala repleta de canais e sites acessados por alguém que não sabe do que gosta ou do que tem interesse.
Como sempre digo: o problema não está na falta de ruas para chegar a algum lugar, mas na multidão de ruas que levam a lugar nenhum.
E digo mais: infelicidade não é a falta do que se ama; é a falta de saber o que amar.

Por meio do através

Em época de tremenda superficialidade, não é de se estranhar que, apesar de a língua ser totalmente metafórica, inclusive em contextos formais, o uso do "através" seja tão condenado por possuir o sentido de "atravessar": vivemos em uma época em que tudo é possível, desde que não "atravesse" nada ou ninguém: desde que seja superficial.

Eis assim, como sempre foi e há de ser, a língua como reflexo da sociedade: através dela - corrigiriam, por meio dela - revelam-se nossos maiores melindres: temos total liberdade de falar ou fazer tudo, desde que absolutamente nada seja alterado.

Sol e Estrela

Não basta saber que o sol é uma estrela; é preciso, sobretudo, lembrar que cada estrela é um sol alheio.

Fins e Meios

Assim como pode haver diversos caminhos por uma única rua (um único meio para diversos fins), pode haver um único caminho por diversas ruas (um único fim por diversos meios). O que determina um caminho não são as ruas (os meios), mas são os pontos de partida e chegada (os fins). E nossa época está assim: cada vez mais meios, cada vez menos fins.

Vida Equilibrada

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Vida equilibrada
não é aquela sem extremos. O equilíbrio depende de extremos equivalentes. Quanto mais peso em cada um dos lados,
mais raro e belo o equilíbrio. Maior a leitura, melhor a escrita. Maior o cansaço, melhor o descanso. Maior o esforço, melhor a recompensa. Maior o poder, maior a responsabilidade. Maior o amor, melhor a pessoa a quem se ama.
E quanto melhor tudo isso, maior o risco de desabamento. Resumindo: maior o risco, melhor a vida.
E vice-versa.

Trabalho de Formiguinha

Enquanto a formiga diligentemente trabalhava, a cigarra continuava seu discurso poético e pomposo:

- E digo mais: o problema é que vocês, formigas, ficam fazendo o trabalho que na verdade é de responsabilidade única e exclusiva do Governo que elegemos. Enquanto vocês fizerem a tarefa alheia, os problemas serão minimizados e nada vai mudar estruturalmente neste país injusto...

Mas enquanto a cigarra fazia seu discurso poético e pomposo, a formiga continuava trabalhando diligentemente. E digo mais: em seu "trabalho de formiguinha", ainda que pequeno, fazia a diferença ao seu redor.

Clichês

O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito.

A Metamorfose, de Kafka

Resenha participante do Desafio Literário 2013
Eu que sempre tão preso ao papel, finalmente li meu primeiro ebook:  A Metamorfose.

Conhecia de cor o enredo (o cara que se transforma num inseto) e o estilo do autor, de modo que há tempos sei explicar o que é um texto kafkaniano. No entanto, o fato: eu ainda não tinha lido nada dele. Não por falta de indicações, mas por pura procrastinação. E gostei, não como algo genial ou comovente, mas como algo necessário.

Com relação à estória, clichê relembrar o quanto Gregor e sua família se metamorfoseando metaforizam a humanidade que vai perdendo seus traços essenciais em meio ao mundo moderno.

Com relação ao estilo, também clichê relembrar o quanto a narração sendo narrada como corriqueira metaforiza a naturalidade com a qual encaramos as bizarrices do cotidiano. Quer cidade mais kafkaniana do que nossa São Paulo?

O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito. E o que Kafka faz é exatamente isso: ao narrar como natural …

Agente ou paciente

Em essência, o verdadeiro cristão não é aquele que converte: é aquele que é convertido. Eis porque o Criador requer de suas criaturas não apenas agência, mas sobretudo paciência.

Romeu e Julieta

Eis a tensão no famoso relato shakespeariano: de um lado, o casal apaixonado luta para juntar aquilo que naturalmente ficaria separado. Do outro, seus pais tradicionalistas lutam para separar aquilo que naturalmente acaba se atraindo. Resumindo em uma analogia religiosa na dialética hegeliana: tese: sincretismo; antítese: fundamentalismo; síntese: final trágico. E a moral da história: é preciso buscar o amor, mas nunca por algum desses caminhos.

Paulistanite

Quem reclama do frio ou do calor, no fundo, apenas odeia o fato de não estar em outro lugar quando o tempo o acomete. Eis porque a grande maioria dos paulistanos sempre reclama da temperatura, seja ela qual for: na prática, reclamam é das circunstâncias da cidade. Na praia ou no campo, (ou mesmo em São Paulo, mas) sem correria e trânsito, o tempo é sempre bom.

O dilema das portas

Uma das metáforas mais significativas a que recorro para explicar meu comportamento, tanto meus acertos quanto meus erros, é a seguinte: "meu prazer é abrir portas".

Quando penso em abandonar tal comportamento, deparo-me com este trecho lindo e me conforto:
"Todos conhecemos que a noite e os dois lados que todas as noites têm: a noite dentro de casa e a noite fora de casa. Ou seja: há a tranquilidade e o esperado e há, ainda, o medo e a estranheza. Claro que se poderá sempre dizer que a poesia não se encontra nem em um lado nem no outro: a noite tem dois lados e a poesia é a porta da casa no momento em que é aberta e o escuro cobre a relva e o céu. Mas quando alguém tem medo, deve correr para casa; e quando sente tédio, deve correr para a parte de fora da casa. E a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo, o que é bom e dois, sendo uma única, a poesia. Uma coisa que caminha, ao mesmo tempo, para seu lado direito e para o esquerdo nã…

Dilema

Em três versos
Um escritor
Se esquarteja.

Dor

O soldado beija,
em sonho,
a mulher viúva.

Graduação

Inconformado,
Conformado,
Formado.

Quincas Borba, de Machado de Assis

Resenha participante do Desafio Literário 2013
Há tempos eu adiava a leitura de Quicas Borba, mesmo depois de ter sido presenteado com uma linda edição deste livro por meus queridos amigos Rafael e Camila. De lá para cá, restava-me a lembrança das risadas ao acompanhar o começo da história do humanitista Rubião, fato que me ajudou, pois, a escolher este romance na categoria "livros que nos façam rir" - agora para lê-lo por inteiro.

Não é novidade: o humor de Machado é delicioso pela ironia. "Ao vencedor, as batatas", sim, mas sem deixar de notar que tanto vencedores quanto perdedores são ridículos em suas manobras em busca da sobrevivência, loucos como o filósofo Quincas Borba. Rimos da glória e da desgraça dos personagens sem deixarmos de lembrar que, de um jeito ou de outro, agimos da mesma maneira, cheios de dissimulação e interesse. Rimos por cumplicidade.

Não é à toa, pois, que dizem que Machado inaugurou o "realismo" no Brasil: não apenas o inauguro…

"O lado bom da vida" e a polêmica dos finais felizes

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O louco – diz Chesterton – não é aquele que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão”. A loucura é a incapacidade de fazer algo despretensioso.


Difícil falar de um filme tão sensível e inteligente de maneira completa e sem spoilers. Por isso, escrevo aqui apenas alguns fragmentos de minhas impressões, voltadas principalmente a quem já o assistiu. A quem ainda não assistiu, minha veemente indicação.

Silver linings playbook, em cartaz no Brasil como O lado bom da vida, conta a história de Pat, internado após um ataque eufórico ao descobrir a esposa com um amante. O filme começa com a saída de Pat da clínica, ainda bipolar, buscando recuperar o tempo perdido. Nesse processo, ele conhece Tiffany, também com transtornos mentais desde a trágica morte do marido. Juntos, enfrentando preconceitos e desafios, eles vão tentando redescobrir a sanidade.

Muitos podem dizer que o filme quer mostrar quanto todo mundo é um pouco louco, mas eu digo o contrário: o filme mostra com…

Certezas

Melhor um gato que voa do que um gato que arranha.

Do mesmo modo, aprendi: melhor a falta de certezas do que uma certeza errada.

Por isso, sábios amigos, em verdade vos digo: melhor a inteligência que combate a violência, do que a retórica que combate a pluralidade filosófica pós-moderna.

A certeza da incerteza é tão incongruente quanto o gato que voa, mas a violência é tão doída quanto a garra de um felino.

São Paulo, meu!

« São Paulo, meu, onde até a Garoa, trabalhadora incessante, corre para não perder a hora de regar o trânsito: semente sustentável que há de brotar! »

Frase ganhadora do 1º lugar no concurso de frases "Aniversário da Cidade de São Paulo", promovido pela biblioteca do Senac Lapa Tito.

Como prêmio, ganhei um belíssimo livro: "Desenhando São Paulo - Mapas e Literatura".

Respiração Artificial, de Ricardo Piglia

Resenha participante do Desafio Literário 2013
Respiração Artificial foi o primeiro livro de ficção que li do argentino Ricardo Piglia. Do mesmo autor, antes, apenas Formas breves, um dos mais belos livros de ensaios que já devorei, ou melhor, que venho devorando incessantemente. Aliás, foi Formas breves que me fez correr atrás da ficção do hermano. No fundo, e na verdade, acho difícil definir qual dos dois é ficção, qual dos dois é ensaio teórico, qual dos dois é mais encantador. A única coisa que sei até aqui: de Piglia, quero ler cada vez mais.

A sinopse de Respiração Artificial é simples, embora o livro seja bastante denso. Emilio Renzi, evidente auter ego do autor, vai dialogando com diversos personagens emblemáticos de maneira assustadoramente profunda e erudita sobre historiografia, filosofia, teoria literária, vida. No fundo, digo do ponto de vista da minha opinião ainda superficial, o livro é uma grande pretexto do qual Piglia dispõe para apresentar relatos autobiográficos, te…

Juliana

Esses seus olhos
Jabuticabais
Cor e delícia
Essenciais
Doce carícia
Da sua boca
Santa malícia
Do seu sorriso
Dá minha paz.

Carpe Diem

A felicidade é a colheita que fazemos daquilo que plantamos.

De fato, boas leitura são sementes de sabedoria. Porém, não é a quantidade de livros que deixa a sabedoria mais farta, mas a qualidade das reflexões brotadas do que lemos.

Isso não exclui a leitura compulsiva: quanto maior a quantidade de livros que lemos, maior a probabilidade de colhermos boas reflexões.

O mesmo vale para a vida: não é a quantidade de anos que determina a felicidade, mas a qualidade com que os vivemos.

No entanto, isso não invalida a importância de conservar a saúde, pelo contrário: quanto mais velhos e ainda saudáveis, maior a probabilidade de vivermos momentos felizes.

A sabedoria, assim como a velhice, requer tempo.

Mesmo aceitando que a vida é fugaz, é preciso saber: a melhor maneira de colher o dia é fazer a fugacidade da vida durar o máximo possível.

A vida: não apenas consumi-la; sobretudo conservá-la.

A melhor colheita, antes de tudo, é aquela bem plantada e bem cultivada.

Os passos seguintes

Continuação do texto "O primeiro passo"
De fato, "a consciência da própria condição continua sendo o primeiro passo para uma possível mudança de vida". No entanto, é preciso ir mais além e definir a direção desse passo inicial, bem como quais devem ser os passos seguintes. Por exemplo: se o problema a ser combatido é a Vaidade, reconhecer os próprios erros pode, em vez de ajudar, apenas atrapalhar o pobre vaidoso: "vejam como sou bom: eu reconheço minhas fraquezas."  (há, inclusive, quem se orgulhe dos próprios defeitos). Por isso, apesar de essencial, a consciência da condição atual não basta: também é preciso saber aonde se quer chegar e qual o caminho a seguir.

Para saber estar junto

Todo bom relacionamento – seja ele familiar, conjugal, profissional, entre amigos, enfim – todo bom relacionamento nos faz valorizar os pequenos prazeres da vida, inclusive os breves – e prazerosos – momentos de introspecção. Afinal, bons momentos a sós são a base de bons diálogos e bons diálogos são a base de bons relacionamentos. Mas vale enfatizar: breves – e prazerosos. Se os momentos a sós forem muito constantes ou não existirem, acabar-se-ão os diálogos e, com eles, qualquer possibilidade de relacionamento. Ou ainda em outras palavras – penso cá comigo mesmo: para saber estar junto, há de se saber ficar sozinho.

E é isso que devemos buscar

Um bom livro não depende da grande quantidade de trechos bons e citáveis; depende, antes, da ausência de trechos não-citáveis.

Ou melhor: um bom livro é aquele de quem não conseguimos citar nada que não pareça, ainda que genial, incompleto ou injusto em relação aos demais trechos.

Assim também as pessoas boas: não aquelas com muitas qualidades, mas aquelas - na medida do possível - com cada vez menos defeitos.

Embora não seja costume, encontra-se qualidades em qualquer pessoa, qualquer uma. Raro é achar alguém sem defeitos.

E é isso que devemos buscar, não nos outros, mas em nós mesmos: mais do que grandes atos, poucos trechos não-citáveis. Menos defeitos e mais integridade.

It's Friday

Bem-aventurado aquele cuja alegria da sexta-feira não é apenas pelo final de mais uma semana trabalhosa, mas também - e principalmente - pelo início de mais um final de semana promissor.

Imagine o nutricionista

Imagine o nutricionista dizendo que você precisa comer, que precisa comer e ponto, sem dizer o quê, nem para quê, nem quanto. Seria tão incompleto quanto quem diz aos outros que é importante ler, que é importante ler e ponto. Agora imagine o nutricionista dizendo que você precisa comer arroz com feijão, pois é uma combinação que provavelmente surgiu no Brasil entre o arroz consumido em Portugal e o feijão já consumido pelos índios; ou que o Brasil foi o primeiro país sul-americano a cultivar o arroz, chamado até então de milho d'água, e tudo o mais. Seria tão maçante e irrelevante quanto o professor que ensina apenas períodos literários aos alunos.

O Natal da Formiga e da Cigarra

Enquanto a formiga aproveitava o período do Natal para relembrar e reafirmar a importância das boas ações e dos bons sentimentos promovidos pelo Menino Jesus, a cigarra estava completamente imersa no consumismo e estresse inerentes à época. E pode parecer paradoxal, mas a cigarra, mesmo em meio à agitação, estava euforicamente alegre com o clima de festa, enquanto a nobre formiga afogava-se em sua peculiar melancolia resignada.

Em seu pedestal de sabedoria, a formiga olhava toda aquela agitação ao redor com muito nervosismo e tristeza, criticando a cigarra por não observar o "verdadeiro sentido do Natal". No fundo - e talvez ela nem se dê conta disso - a formiga tinha vontade de fazer sumir aquela cigarra tão desrespeitosa em sua alegria barulhenta!

Desde os tempos mais primórdios, a alegria dos descompromissados ofende aos responsáveis de espírito.

A formiga não percebia quanto suas preces por bons sentimentos e boas ações tinham a ver com as cigarras. Por exemplo: a formig…

Preferência

Preferir não é excluir as demais possibilidades, é apenas ter maior tendência a alguma coisa em relação às outras. Digo isso porque somos diferentes, meu amigo: você prefere os grandes romances, mas eu prefiro os fragmentos literários. E é engraçado porque, no campo amoroso, sempre fui eu o propenso a relacionamentos estáveis e duradouros, enquanto você curte mais a multiplicidade e a fugacidade. Talvez por conta do medo do tédio. E essa diferença pode parecer contraditória, mas prefiro ver uma lógica: é que acho mais fácil me entediar lendo um romance de mil páginas do que lendo mil páginas de fragmentos, assim como me parece bem mais entediante buscar mil e uma experiências com mulheres ao invés de, com apenas uma, viver mil e uma experiências em conjunto. Se essas minhas opções não lhe parecem muito atraentes, talvez seja porque ainda lhe resta conhecer um grande escritor de fragmentos, ou mesmo uma verdadeira companhia. Da minha parte, tenho lutado para um dia ser esse tipo de esc…

Dá a luz

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Aquilo de anos anteriores - melhorar no violão e na paciência, no francês e na persistência, na cozinha e no companheirismo, no bolso e na responsabilidade, na escrita e nas leituras, na garupa e na prudência, na dança e na doçura, na erudição e na prática espiritual - mas com uma diferença marcante: agora casado e também muito feliz por isso.

Tanta coisa outrora tão distante e agora tão real. Ano fantástico esse que dá a luz ao que acaba de nascer.

Por aí, de um lado, quem deseja felicidade a todos, indistintamente. De outro, quem a deseja só a quem de fato merece. Por aqui, o desejo de que todos tenham, sim, a felicidade: seja por merecimento, seja - principalmente - por misericórdia divina. Digo por experiência própria.

Quero transbordar aos outros o que recebo em abundância. Refletir ao meu redor toda a luz que me ilumina.