10 de dezembro de 2013

A Arte é uma Bicicleta

Duas bicicletas e sol brilhando ao fundo. Fonte: http://ultradownloads.com.br/papel-de-parede/Bicicletas-ao-por-do-sol/

Aos amigos práticos, defendo-me dizendo que a arte é uma bicicleta ergométrica: mesmo que não leve a lugar algum, aumenta o fôlego e tonifica os músculos, dando-nos melhores condições para caminhar rumo às conquistas.

Aos amigos sonhadores, alerto que a arte é uma bicicleta convencional: além de melhorar nosso condicionamento físico e espiritual, ajuda-nos a chegar muito mais rápido à felicidade, desde que o caminho não seja muito vertical.

7 de dezembro de 2013

Nos olhos de quem vê

Beleza é construção humana, uma construção interna em relação ao que está fora, a construção de uma porta estreita, uma porta de vidro transparente e espelhada, a porta de uma casa de repouso, o lugar ideal para que a própria beleza se entregue em si, e descanse em paz.

28 de novembro de 2013

Desejo de Natal

Que a cidade fosse toda decorada por um lindo céu de estrelas brilhantes e visíveis, ou seja, que toda essa beleza latente e natural viesse à tona. E não só isso, mas que essa manifestação se espalhasse em cada vida aqui existente, e que os sorrisos e abraços fossem em nós não como enfeites empoeirados que ressuscitam a cada final de ano, mas como um céu que, despindo-se de todo prédio e poluição, voltasse a manifestar seu ontológico esplendor.

21 de novembro de 2013

Um Mundo Melhor

Quando seu olhar me pergunta se estou alcançando aquele objetivo bonito que anunciei ao chegar aqui de ajudar a melhorar o mundo por meio da educação respondo que sim porque no mínimo estou aprendendo a ser alguém melhor e essa é a principal parte que cada um de nós pode fazer à sociedade enquanto: respira, menino, simplesmente responde esse seu sorriso atento, enraizando-me a certeza de que, por mais torto que possa parecer, estamos no caminho certo.

24 de outubro de 2013

Desafios Educacionais

A educadoræs.

Dizemos que a vida é um constante aprendizado e temos absoluta certeza da importância de desafiarmos nossos educandos,

mas poucas vezes gostamos quando esta mesma vida, nossa grande mestre, desafia-nos cada vez mais.

17 de outubro de 2013

Relações Construtivas

Não aquelas em que falamos mal das pessoas, fatos ou ideias, mas aquelas que nos ajudam a enxergar alternativas e aspectos positivos em qualquer ocasião, mesmo nas mais adversas.

Falar mal é fácil e se faz com qualquer desconhecido, mas falar bem e com propriedade requer prática, disposição e profundidade nas relações.

Tomando emprestadas as palavras de Jakobson: falar mal é dispor da função fática, mas falar bem é dispor das demais.

7 de outubro de 2013

Tempo frio e banho quente

O que sinto por tempo frio é pura paixão avassaladora: desejo intenso e passageiro seguido de dor e desespero.

Já o que sinto por banho quente em tempo frio, e só em tempo frio, é como o amor verdadeiro: se titubeio para entrar, depois não quero mais sair.

Tempo frio e banho quente: combinação perfeita, desde que respeitadas tais condições. Mas muitos adoecem por subverterem essa ordem.

24 de setembro de 2013

Otimismo

Se sou incurável otimista, é também por estar ao seu lado. Tão poucas as chances de nos encontrarmos, tão impossíveis as chances de você me querer, mas cá estamos com as vidas mais do que cruzadas. Tão improvável estudar fora, tão grande o tempo longe, mas cá estamos unidos do deitar ao despertar, sob o mesmo teto, sob os mesmos sonhos. Tão louco imaginar casa, casamento, festa, viagem, carro, móveis, mas cá estamos abençoados e cheios de novos planos mirabolantes, num amor que transcende qualquer dessas coisas passageiras. Cá estamos: eu cheio de paixão por sua força, seu papo leve e cabeça, sua meiguice, sua beleza estupenda, seu olhar de amor... e você cheia do meu arrepio com seu toque suave, da minha vontade insaciável de seu abraço, do meu gosto em ouvir sua música e suas histórias, da minha disposição em ser bom para você. Tão improvável tudo isso junto, mas cá estou, mais um aniversário ao seu lado, mais otimista do que nunca. E é fácil para mim ser assim, pois você é nitidamente uma mulher muito abençoada, cheia de coisas ainda mais bonitas para viver, para seguir vivendo. Cheia de alegria, de saúde, de amigos ao redor. Para viver também comigo, se Deus quiser, pois cá estou com mais amor do que nunca, sonhando com voos cada vez mais altos e um ninho cada vez mais aconchegante para nossa família já tão bonita. Amo você, pequena, e sei que há de ser cada vez mais feliz! Conte sempre comigo nessas contas malucas, viu? que eu conto um conto cada vez maior, cada vez mais romance ao seu estilo profundo e transparente como o céu e o mar que se refletem e se completam. Profundo e transparente como o nosso amor.

15 de setembro de 2013

Aprendendo

Estou aprendendo tanto com você! - digo, felicíssimo, pensando também agradar com essa minha felicidade.

Mal sei que gostaria não apenas de ouvir isso, mas principalmente de poder dizer-me o mesmo.

5 de setembro de 2013

Sem olhar a quem

Eu, porém, vos digo:
olhai a quem ao fazer o bem,
mas sem que isso impeça
de fazê-lo a ninguém.

3 de setembro de 2013

Deviam ou Deveriam?

O que deviam ou o que deveriam ter feito? Nenhum dos dois. Neste caso é melhor utilizar apenas a primeira pessoa do presente do indicativo: "o que eu devo fazer?"

27 de agosto de 2013

Ainda Não Sabe

Arrepende-se apenas dos erros cometidos, nunca dos desafios aceitos.

Ainda não sabe que aceitar certos desafios é um erro inaceitável.

24 de agosto de 2013

A Leonice e o Orgulho da Humildade

"I Saved My Soul", quadro de Vladimir Kush. Paisagem com rochedos à beira-mar e nuvens no céu. Os rochedos formam a imagem de um leão e as nuvens formam a imagem de um cordeiro. Um animal olha para o outro.

Aos astrólogos falta mencionar não apenas as características universais determinadas pelos astros, mas também as características oriundas de onde nascemos e vivemos.

No Brasil, por exemplo, a "humildade" faz o Rei, sendo não raros, por isso, os leoninos irreconhecíveis pela prescrição do signo zodíaco: "você não gosta de se aparecer, nem gasta muito, nem é tão mandão assim", dizem os elogios que o desavisado faz sem nem perceber que é exatamente isso que oiriça a juba do felino.

Aos leoninos do bem fica o alerta e aos demais fica a dica: ter orgulho da humildade é como acabar com a doença matando o doente.

23 de agosto de 2013

11 de agosto de 2013

A Sombra

Ao amigo Acacio Batista.

Inquieto pelo que havia acontecido, Gregor Samsa passou a esconder-se nos sombrios vãos dos móveis da casa, enquanto eu, pela falta da luz que me dava vida, já nem vivia: virei mero componente da sombra existente há anos naquela escrivaninha, tal como história abandonada pelo escritor que envelhece.

28 de julho de 2013

As Gêneses

I.

No princípio criou Deus o altruísmo e, por consequência estrutural, o egoísmo. Depois Darwin os rebatizou de princípios da preservação da espécie e da sobrevivência.

II.

Também criou Deus o Amor, que nada mais é do que o altruísmo possível de ser investido não apenas nos outros, mas também em si próprio. Esse foi o barro da criação do único vivente racional da Terra cuja diferença em relação aos demais é a capacidade de amar: o ser humano. 

III.

Porquanto está escrito:
bem-aventurado aquele que ama,
porque raciocina.

IV.

Um gato pode ser egoísta e um cachorro pode ser altruísta, mas apenas o ser humano pode ser amoroso - pelo menos por enquanto, diria Darwin (e muitos amantes dos animais alegam: tal evolução está a todo vapor). Todavia, alguns acham que bicho e planta, por não amarem, também não podem ser amados. Mas em verdade vos digo: por mais difícil que seja, também é preciso amar tais pessoas, porque não sabem o que fazem. Se o raciocínio delas estivesse certo, também não poderiam comer bichos e plantas, já que não são devorados por eles - pelo menos por enquanto.

V.

Todo aquele que ama, raciocina; mas nem todos que raciocinam também amam: eis a diferença entre ciência e religião. E a retórica é o vício de ambas, tal como o cigarro que, além de prazer e charme, também faz adoecer.

VI.

Ouvistes o que foi dito:
nem todo raciocínio procede,
nem todo procedimento é racional.

VII.

No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Imperativo: amai a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. O egoísta coloca a si mesmo acima de tudo e o altruísta comete o mesmo com o próximo; apenas o amoroso concorda com o Verbo em número e pessoa.

27 de julho de 2013

Relatividade

No fundo, algo nos diz que os milhares de pontos de vistas que relativizam a verdade podem ser classificados em dois grandes tipos: os certos e os errados.

25 de julho de 2013

Esse ou Este?

Sendo escrita e leitura processos cada vez menos lineares no tempo e no espaço, a escolha entre esse ou este já não depende mais de antes ou depois, nem de próximo ou distante: virou escolha meramente estilística.

20 de julho de 2013

Telescópio

Ilustração de Rosa de Mayo Joubrel

Sonhei que a graça do telescópio era essa mesma: se não nos aproxima fisicamente de todas as coisas bonitas e distantes que vemos através dele, pelo menos nos aproxima das pessoas que se achegam para partilhar a mesma visão. Afinal, sonhar com o irrealizável também é uma boa forma de viver a realidade, principalmente quando em boa companhia.

16 de julho de 2013

Não basta cortar o mal pela raiz

Não basta cortar o mal pela raiz; é preciso desenraizá-lo e, em seu lugar, plantar, cultivar e colher o bem.

Basta, portanto, a sorte do solo fértil, a recompensa do plantio bem feito e a bênção da chuva divina.

13 de julho de 2013

Preceitos

Foto de Juliana escrevendo, por Vinícius Cassio Barqueiro.

Sempre me lembra que para escrever bem é preciso duas coisas: não tratar o leitor como idiota (tipo quando fico explicando cada detalhe, como agora), nem transubstanciá-lo em bidu. Ou seja: não subestimar, nem superestimar. Ela é tão sabida que o mesmo preceito vale para tudo, tanto na minha relação com os outros quanto comigo mesmo. Como se não bastasse, essa Juliana ainda vai além e não apenas diz, mas age exatamente assim - na escrita, comigo, com todos - o que nos lembra outro grande preceito: aquele da coerência e coesão.

12 de julho de 2013

Viagens

Quando a fama chegar e minha arte for emoldurada pela crítica e pendurada na parede do museu do cânone, hão de viajar aventando mil e uma explicações para minha tendência a escrever fragmentos em vez de romances. Todavia, como em tudo, os mesmos se esquecerão da razão óbvia: a quantidade de baldeações a que estive submetido nas minhas próprias viagens diárias.

9 de julho de 2013

Coisas Apaixonáveis

Pois vejo você de rabo de olho se apaixonar pela poesia de Chico como quando ele canta Cecília e boquiaberto apaixono-me também como quando Clarice me explica você em um parágrafo incompreensível já que apaixonar-me por você é sobretudo querer viver a vida toda apaixonando-me contigo pelas mesmas coisas apaixonáveis sonhando com elas e buscando realizá-las.

8 de julho de 2013

Trindade

Sim, de fato, a vida pode ser entendida como um grande conto de fadas do príncipe que batalha contra o dragão para resgatar a princesa.

A diferença é que, na vida, nós somos ao mesmo tempo príncipe, dragão e princesa: lutamos contra nós mesmos para nos reencontrarmos.

Eis, guardadas as devidas proporções, mais um exemplo de criação à "imagem e semelhança" do criador.

O ser humano: resgatador e resgatado, prisioneiro e guardião.

7 de julho de 2013

A Tristeza, aos Otimistas de Espírito

Ao amigo Acacio Batista.

Se fosse apenas mais uma em um grande jardim florido, por puro costume torpe da humanidade, talvez a nobre flor nem fosse notada - tal como seu pai Drummond, se houvesse mais poesia no mundo. A tristeza, aos otimistas de espírito, ou realça a beleza da alegria, ou mesmo a faz nascer.

6 de julho de 2013

A Felicidade é um Feriado

A felicidade é um feriado: embora seja passageira, é melhor quando se curte também a expectativa pela chegada e as lembranças que posteriormente permanecem.

28 de junho de 2013

Aforismos

Hei de ter dois tipos de críticos: um que apontará minha mania de utilizar dois-pontos e ponto-e-vírgula; outro que apontará minha mania de dividir tudo em dois tipos.

No entanto, nenhum deles será tão assertivo quanto aquele que apontar minha mania de, sistematicamente, começar sempre negando uma coisa verossímil para, logo em seguida, afirmar com convicção algo menos superficial.

Ou ainda: minha mania de exemplificar com metáforas como quem arranca uma planta da terra para, em seguida, propor o jeito certo de plantá-la e cultivá-la.

Literalmente, pelo menos até aqui, é assim que penso e, sobretudo, é assim que escrevo.

Pura diversão!

24 de junho de 2013

Não só [, mas também]

Prato cheio aos analistas do discurso (ou a qualquer cidadão minimamente sensato):
« "Nós [a Fifa] não estamos aqui só para encher os bolsos e sair do país", afirmou o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. Em seguida, ele acrescentou: "Sempre se pode fazer mais. (...)" » (matéria do UOL)

20 de junho de 2013

A Solidão é como o Silêncio na Música

Há quem diga que a solidão é essencial para o encontro consigo mesmo e, por consequência, a melhor ocasião para o desenvolvimento pessoal.

Mas não basta:

Quanto mais próximos uns dos outros, no melhor e no pior de cada um, mais referenciais do que fazer ou não e, por consequência, mais ocasiões para o desenvolvimento pessoal e, principalmente, coletivo.

A solidão é como o silêncio na música: essencial, sim, desde que seja intercalada com algumas notas-solo e, principalmente, com muito acorde coletivo.

19 de junho de 2013

O Sistema


"O Sistema": presente em praticamente todas as nossas ações no dia; espécie de algo imutável ao qual – dizem – devemos nos adaptar, pouco importando que seja criado e administrado por outros humanos (ou seja, pouco importando que, no fundo, seja completamente mutável).

15 de junho de 2013

Lição de Desigualdade

Certo dia, uma senhora "do bem" (meia idade, classe média) adentra ao supermercado anexado ao shopping center da cidade, ou melhor, do bairro. (antro do consumo: cenário ideal para uma ilustração social)

Enquanto assiste aos comerciais pela televisão instalada para entreter os consumidores com incentivos de "sejam felizes", espera irritada na fila do caixa. (filas: todos estão sujeitos e acostumados a elas: a pé, de carro, até mesmo de avião)

Ao chegar ao caixa, percebe que um produto está vencido (é preciso que os produtos tenham curto prazo de validade para que a economia rode) e, revoltada, reclama para a pobre atendente que, também estressada, aciona um apoio.

Uma espécie de sirene começa a piscar.

Enquanto o apoio não vem, os itens vão sendo lançado no sistema. ("o sistema": presente em praticamente todas as nossas ações no dia; espécie de algo imutável ao qual – dizem – devemos nos adaptar, pouco importando que seja criado e administrado por outros humanos)

De repente, a pobre atendente – ou melhor, a caixa registradora – apresenta na tela um preço divergente: a prateleira marcava R$ 3,00, mas a tela do sistema mostra R$ 3,20.

O que vale é o que aparece na tela, senhora – afirma a pobre atendente.

É a gota d'água para a senhora do bem se exaltar e começar a reclamar em alto e bom som sobre o serviço prestado ali. Afinal, é uma vergonha – esbraveja – trabalhar tanto, pagar tão caro e não ter seus direitos garantidos.

Neste momento, o apoio acionado pela sirene chega e pede à senhora que se acalme e deixe os demais consumidores passarem enquanto o gerente é acionado. No entanto, a senhora do bem – que, afinal, está nos "seus" direitos – diz que não: ninguém vai passar enquanto o caso dela não for resolvido.

As demais pessoas do bem que estão na fila começam a esboçar murmurações, mas sabem que fariam o mesmo se fossem elas as acometidas por tal barbárie.

Enquanto o gerente não vem, a televisão troca a felicidade dos comerciais por uma sentença de noticiário. Junto à foto tenebrosa, a notícia "vândalos atrapalham trânsito em mais uma noite violenta" preenche a tela.

A notícia parece ter um efeito analgésico e criar um vínculo tácito entre as pessoas do bem que estão na fila. Elas logo começam a trocar reclamações sobre os vândalos: os mais contidos dizem que lutar pelos direitos é preciso, desde que não atrapalhe a vida de ninguém; outros mais veementes dizem que é um absurdo tanto alvoroço por causa de centavos.

O filho de uma pessoa do bem pergunta se foi mesmo o tal de vândalo (ainda não sabe muito bem o que isso significa) que quebrou aquilo.

O bom pai, sempre atencioso, afirma: se apareceu na tela, então é verdade, filho.

O filho pergunta para ver se entendeu: o tal de vândalo é igual à senhora que está atrapalhando todo mundo para ser notada e ter seus direitos garantidos, não é?

O bom pai, sempre atencioso, afirma: não, filho, é diferente.

Ali, mais uma vez, o filho aprende com o bom pai um pouco sobre a sociedade em que vive: uma verdadeira lição de desigualdade. (não apenas de opiniões; mas principalmente de direitos)

Afinal, deve ter pensado o pai, nenhum manifestante "paga um serviço" como a senhora do bem; os impostos servem para qualquer outra coisa. (a televisão troca a notícia dos vândalos por uma chamada da Copa do Mundo)

Ou ainda: para que protestar com violência, atrapalhando os outros? Não há outra forma de reivindicar seus direitos? ('num rompante de violência, sentindo-se tacitamente apoiada pelas demais pessoas de bem, a senhora começa a jogar os produtos no chão e gritar contra a pobre atendente pela demora na solução de seu problema)

Coitada! Veja o que essa cidade obrigou a pobre senhora a fazer – observa o pai. (enquanto a sirene continua piscando)

O filho, outrora assustado, começa a se acostumar com tudo aquilo. Percebe que a violência exibida na televisão de fato existe na realidade, embora a realidade que ele está vivendo seja diferente da que ele está assistindo. (voltam os comerciais com incentivos de "sejam felizes")

É simples: então quer dizer que vândalo significa ser humano! – conclui o garoto. E sorri, satisfeito.

12 de junho de 2013

Realizar um Sonho

Releitura do texto "Sonhos".

Realizar um sonho não é apenas alcançar aquilo que você já queria: isso se chama alcançar uma meta; caminhar pela estrada até chegar ao destino desejado.

Realizar um sonho, na verdade, é descobrir algo que é melhor do que qualquer coisa que você poderia imaginar.

Um sonho é algo que, embora advindo da imaginação, sempre está além dela. É como o sol que nasce no horizonte da estrada e, em outra dimensão, dá vida ao mundo inteiro.

Ou ainda: um sonho é como minha querida Juliana: parte fundamental do meu caminho, não como estrada em que piso ou como ponto a que chego: mas como um sol que me ilumina, que me aquece, que me faz enxergar melhor e que, independentemente de mim, brilha muito, esteja onde estiver.

Esposa, feliz dia do namorados!

9 de junho de 2013

Coragem

Coragem nem sempre é enfrentar o inimigo mais forte; muitas vezes, é saber evitá-lo ou mesmo, se preciso, saber fugir dele sem vergonha alguma.

Isso vale principalmente para um grande inimigo nosso: a tentação de fazer algo que, embora agradável ou vantajoso, seja diferente daquilo que acreditamos ser o mais justo ou o mais certo.

Coragem, em suma, é ter a honra não apenas de enfrentar perigos, mas principalmente de manter a consciência tranquila.

Quanto à tranquilidade da consciência, duas tendências: de um lado, quem vive sem culpa por pura inconsequência ou falta de juízo; do outro, quem vive religiosamente pautado pela noção da culpa imperdoável ou irresgatável. No meio, a coragem de agir de acordo com o que acredita, nem que, para isso, seja atacado por ambos os lados.

5 de junho de 2013

Fatos Reais

A nobreza de um rei não se mede pelas dimensões de seu reino, mas pela imensidão da sua humildade.

A autoridade não é um território que se conquista com guerra, mas um trono que se herda enquanto filho da integridade.

Um verdadeiro súdito do reino não serve apenas ao rei; antes, é fiel aos seus irmãos compatriotas.

31 de maio de 2013

Wing

Please, say the right way to write.
Oh, please, Sky, why am I shy?
Please bring a thing like a wing,
I wish to fly.

But, if I won't fly, Sky,
Oh, please, stay with me and say
A thing about this day, the wind,
My wish away.

30 de maio de 2013

Foco

Menos naquilo que já sei; mais naquilo que hei de aprender e, principalmente, de ensinar.

14 de maio de 2013

11 de maio de 2013

As Forças do Mal

O problema não está nas opções, mas nos critérios de escolha - ou melhor, na falta deles.

Se pudéssemos definir como agem as forças do mal, muitos diriam que elas roubam pessoas, objetos ou possibilidades de escolha, mas eu discordo: para mim, perder tudo isso, por mais difícil que seja, faz parte da vida.

Estou convencido de que uma verdadeira força do mal é aquela que, sem tirar absolutamente nenhuma pessoa, objeto ou possibilidade de escolha, arranca de nós algo muito maior: nossos valores, critérios a partir dos quais escolhemos o que amar e a que nos dedicar.

O inferno, desse modo, não seria uma sala sem televisão ou computador, mas uma sala repleta de canais e sites acessados por alguém que não sabe do que gosta ou do que tem interesse.

Como sempre digo: o problema não está na falta de ruas para chegar a algum lugar, mas na multidão de ruas que levam a lugar nenhum.

E digo mais: infelicidade não é a falta do que se ama; é a falta de saber o que amar.

5 de maio de 2013

Por meio do através

Em época de tremenda superficialidade, não é de se estranhar que, apesar de a língua ser totalmente metafórica, inclusive em contextos formais, o uso do "através" seja tão condenado por possuir o sentido de "atravessar": vivemos em uma época em que tudo é possível, desde que não "atravesse" nada ou ninguém: desde que seja superficial.

Eis assim, como sempre foi e há de ser, a língua como reflexo da sociedade: através dela - corrigiriam, por meio dela - revelam-se nossos maiores melindres: temos total liberdade de falar ou fazer tudo, desde que absolutamente nada seja alterado.

3 de maio de 2013

Sol e Estrela

Não basta saber que o sol é uma estrela; é preciso, sobretudo, lembrar que cada estrela é um sol alheio.

27 de abril de 2013

Fins e Meios

Assim como pode haver diversos caminhos por uma única rua (um único meio para diversos fins), pode haver um único caminho por diversas ruas (um único fim por diversos meios). O que determina um caminho não são as ruas (os meios), mas são os pontos de partida e chegada (os fins). E nossa época está assim: cada vez mais meios, cada vez menos fins.

6 de abril de 2013

Vida Equilibrada

Vida equilibrada
não é aquela sem extremos.
Pessoa com os braços erguidos, sem nada nas mãos.
 O equilíbrio depende de extremos equivalentes.
Pessoa com os braços erguidos, com um pequeno pacote em cada uma das mãos.
Quanto mais peso em cada um dos lados,
mais raro e belo o equilíbrio.
Pessoa com os braços erguidos, com um grande pacote em cada uma das mãos.
Maior a leitura, melhor a escrita.
Maior o cansaço, melhor o descanso.
Maior o esforço, melhor a recompensa.
Maior o poder, maior a responsabilidade.
Maior o amor, melhor a pessoa a quem se ama.

E quanto melhor tudo isso, maior o risco de desabamento.
Pessoa caída, com dois grandes pacotes caídos no chão.
Resumindo: maior o risco, melhor a vida.
Pessoa com os braços erguidos, sem nada nas mãos.
E vice-versa.

4 de abril de 2013

Trabalho de Formiguinha

Enquanto a formiga diligentemente trabalhava, a cigarra continuava seu discurso poético e pomposo:

- E digo mais: o problema é que vocês, formigas, ficam fazendo o trabalho que na verdade é de responsabilidade única e exclusiva do Governo que elegemos. Enquanto vocês fizerem a tarefa alheia, os problemas serão minimizados e nada vai mudar estruturalmente neste país injusto...

Mas enquanto a cigarra fazia seu discurso poético e pomposo, a formiga continuava trabalhando diligentemente. E digo mais: em seu "trabalho de formiguinha", ainda que pequeno, fazia a diferença ao seu redor.

31 de março de 2013

Clichês

O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito.

A Metamorfose, de Kafka

Resenha participante do Desafio Literário 2013

Eu que sempre tão preso ao papel, finalmente li meu primeiro ebook:  A Metamorfose.

Conhecia de cor o enredo (o cara que se transforma num inseto) e o estilo do autor, de modo que há tempos sei explicar o que é um texto kafkaniano. No entanto, o fato: eu ainda não tinha lido nada dele. Não por falta de indicações, mas por pura procrastinação. E gostei, não como algo genial ou comovente, mas como algo necessário.

Com relação à estória, clichê relembrar o quanto Gregor e sua família se metamorfoseando metaforizam a humanidade que vai perdendo seus traços essenciais em meio ao mundo moderno.

Com relação ao estilo, também clichê relembrar o quanto a narração sendo narrada como corriqueira metaforiza a naturalidade com a qual encaramos as bizarrices do cotidiano. Quer cidade mais kafkaniana do que nossa São Paulo?

O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito. E o que Kafka faz é exatamente isso: ao narrar como natural algo nauseante, lembra-nos o quanto fazemos isso no dia a dia. Lembrete que talvez nem faça mais efeito, embora siga necessário: foi apenas quando virou inseto (quando se colocou "outside") que Gregor começou a reparar melhor nas coisas.

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KAFKA, Franz. A Metamorfose. [1915]

29 de março de 2013

Agente ou paciente

Em essência, o verdadeiro cristão não é aquele que converte: é aquele que é convertido. Eis porque o Criador requer de suas criaturas não apenas agência, mas sobretudo paciência.

23 de março de 2013

Romeu e Julieta

Eis a tensão no famoso relato shakespeariano: de um lado, o casal apaixonado luta para juntar aquilo que naturalmente ficaria separado. Do outro, seus pais tradicionalistas lutam para separar aquilo que naturalmente acaba se atraindo. Resumindo em uma analogia religiosa na dialética hegeliana: tese: sincretismo; antítese: fundamentalismo; síntese: final trágico. E a moral da história: é preciso buscar o amor, mas nunca por algum desses caminhos.

21 de março de 2013

Paulistanite

Quem reclama do frio ou do calor, no fundo, apenas odeia o fato de não estar em outro lugar quando o tempo o acomete. Eis porque a grande maioria dos paulistanos sempre reclama da temperatura, seja ela qual for: na prática, reclamam é das circunstâncias da cidade. Na praia ou no campo, (ou mesmo em São Paulo, mas) sem correria e trânsito, o tempo é sempre bom.

16 de março de 2013

O dilema das portas

Uma das metáforas mais significativas a que recorro para explicar meu comportamento, tanto meus acertos quanto meus erros, é a seguinte: "meu prazer é abrir portas".

Quando penso em abandonar tal comportamento, deparo-me com este trecho lindo e me conforto:
"Todos conhecemos que a noite e os dois lados que todas as noites têm: a noite dentro de casa e a noite fora de casa. Ou seja: há a tranquilidade e o esperado e há, ainda, o medo e a estranheza. Claro que se poderá sempre dizer que a poesia não se encontra nem em um lado nem no outro: a noite tem dois lados e a poesia é a porta da casa no momento em que é aberta e o escuro cobre a relva e o céu. Mas quando alguém tem medo, deve correr para casa; e quando sente tédio, deve correr para a parte de fora da casa. E a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo, o que é bom e dois, sendo uma única, a poesia. Uma coisa que caminha, ao mesmo tempo, para seu lado direito e para o esquerdo não é uma coisa útil (porque a utilidade é tema de medidas exatas e previsões em gráficos), é, sim, uma coisa sagrada e mágica."
TAVARES, Gonçalo. M. O senhor Breton e a entrevista.
Mas quando penso em adotá-lo por completo, leio outro trecho lindo e me agito:
"O saguão é uma sala de espera, um lugar a partir do qual se podem abrir as várias portas, e não um lugar de moradia. Para morar, segundo creio, o pior dos cômodos (seja lá qual for) será preferível. É verdade que certas pessoas vão descobrir que terão de esperar no saguão por um tempo considerável, enquanto outras saberão com certeza e imediatamente em qual das portas deverão bater. Eu não conheço o porquê dessa diferença, mas tenho a convicção de que Deus não deixa ninguém à espera a não ser que a julgue benéfica. Quando você chegar ao seu cômodo, descobrirá que a longa espera lhe fez um bem que não seria alcançável por outros meios. Porém, sua estada no saguão deve ser encarada como uma espera, e não como um acampamento. Você deve perseverar na oração, implorando pela luz; e, claro, mesmo que ainda no saguão, deve começar a tentar obedecer às regras comuns à casa inteira. Acima de tudo, deve se perguntar continuamente qual das portas é a verdadeira; não qual delas tem a pintura mais bonita ou possui os melhores ornamentos."
LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples.
Ora de um lado, ora de outro, sigo assim: limiariando.

Dilema

Em três versos
Um escritor
Se esquarteja.

28 de fevereiro de 2013

Quincas Borba, de Machado de Assis

Resenha participante do Desafio Literário 2013

Há tempos eu adiava a leitura de Quicas Borba, mesmo depois de ter sido presenteado com uma linda edição deste livro por meus queridos amigos Rafael e Camila. De lá para cá, restava-me a lembrança das risadas ao acompanhar o começo da história do humanitista Rubião, fato que me ajudou, pois, a escolher este romance na categoria "livros que nos façam rir" - agora para lê-lo por inteiro.

Não é novidade: o humor de Machado é delicioso pela ironia. "Ao vencedor, as batatas", sim, mas sem deixar de notar que tanto vencedores quanto perdedores são ridículos em suas manobras em busca da sobrevivência, loucos como o filósofo Quincas Borba. Rimos da glória e da desgraça dos personagens sem deixarmos de lembrar que, de um jeito ou de outro, agimos da mesma maneira, cheios de dissimulação e interesse. Rimos por cumplicidade.

Não é à toa, pois, que dizem que Machado inaugurou o "realismo" no Brasil: não apenas o inaugurou, mas o batizou de humanitismo. E digo mais: com escrita invejável, desenhou em seus livros minuciosas caricaturas da realidade. Leitura que vale muito a pena.

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ASSIS, Machado de. Quincas Borba. [1891] São Paulo: Globo, 2008.

12 de fevereiro de 2013

"O lado bom da vida" e a polêmica dos finais felizes

O louco – diz Chesterton – não é aquele que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão”. A loucura é a incapacidade de fazer algo despretensioso.

Cartaz do filme "Silver Linings Playbook". No Brasil, "O lado bom da vida".

Difícil falar de um filme tão sensível e inteligente de maneira completa e sem spoilers. Por isso, escrevo aqui apenas alguns fragmentos de minhas impressões, voltadas principalmente a quem já o assistiu. A quem ainda não assistiu, minha veemente indicação.

Silver linings playbook, em cartaz no Brasil como O lado bom da vida, conta a história de Pat, internado após um ataque eufórico ao descobrir a esposa com um amante. O filme começa com a saída de Pat da clínica, ainda bipolar, buscando recuperar o tempo perdido. Nesse processo, ele conhece Tiffany, também com transtornos mentais desde a trágica morte do marido. Juntos, enfrentando preconceitos e desafios, eles vão tentando redescobrir a sanidade.

Muitos podem dizer que o filme quer mostrar quanto todo mundo é um pouco louco, mas eu digo o contrário: o filme mostra como a insanidade é bastante particular e assustadora. Todo mundo tem manias e superstições, até o ótimo Robert de Niro (pai de Pat) e o psicanalista indiano – e isso é engraçadíssimo. Mas a loucura, mesmo, é trágica e deve ser tratada clinicamente.

Logo no primeiro encontro com Pat, Tiffany encerra o jantar na casa da irmã dizendo mais ou menos o seguinte: "não somos como eles, Pat, nós não mentimos, não somos hipócritas". Com essas palavras, é feito o primeiro laço em comum entre a patologia dois personagens tão cativantes: o exagero da sinceridade.

Assim que saiu da clínica, Pat pede que a mãe alugue alguns livros que lembram sua ex-esposa Nikki. Enquanto lê em uma das primeiras noites fora da clínica, Pat tem um ataque de fúria e grita com os pais: "cadê o final feliz? A vida já tem problemas demais!". Mais adiante, a própria Nikki sentencia em uma polêmica carta: "a falta de finais felizes faz bem às pessoas: ela lembra que a vida é realmente difícil".

Ao longo do filme, à medida que Pat e Tiffany vão ensaiando os passos de dança, as coisas começam a se ajeitar. A primeira prova que Tiffany mostra de sua melhora é a capacidade de arquitetar a chantagem por meio das cartas: ela mente para Pat, aproveitando-se da situação ainda bipolar do rapaz. Da mesma forma, mais adiante, a primeira prova que Pat mostra de sua melhora é a capacidade de fingir acreditar nessa estória das cartas: ele deixa de acreditar na ilusão à medida que começa a mentir. Ainda mais próximos, eles vão perdendo o excesso de sinceridade: por meio da arte, aprendem a dissimular.

Não vou relembrar qual é o final da trama, mas posso afirmar que ele é uma resposta ao argumento de que “a falta de finais felizes faz bem às pessoas”. No fundo, como mostra o próprio filme, o excesso de realismo está mais próximo da loucura do que da realidade: às pessoas prosaicas, a fantasia faz muito bem. As pessoas gostam de se iludir, voluntariamente.

A maior polêmica na vida real e na ficção não é buscar ou não um final feliz, mas saber delimitar o que é um final feliz. Às vezes, mesmo a derrota em um concurso de dança pode ser muito comemorada, basta saber enxergar o todo: capacidade exclusiva das pessoas sãs.

O filme é despretensioso como a maioria das coisas saudáveis: dançar, assistir futebol, estar com a família, rir. É extremamente realista, não de modo apelativo, violento, trágico, mas de modo poético e fantasioso. Belíssimo.

3 de fevereiro de 2013

Certezas

Melhor um gato que voa do que um gato que arranha.

Do mesmo modo, aprendi: melhor a falta de certezas do que uma certeza errada.

Por isso, sábios amigos, em verdade vos digo: melhor a inteligência que combate a violência, do que a retórica que combate a pluralidade filosófica pós-moderna.

A certeza da incerteza é tão incongruente quanto o gato que voa, mas a violência é tão doída quanto a garra de um felino.

1 de fevereiro de 2013

São Paulo, meu!

« São Paulo, meu, onde até a Garoa, trabalhadora incessante, corre para não perder a hora de regar o trânsito: semente sustentável que há de brotar! »

Frase ganhadora do 1º lugar no concurso de frases "Aniversário da Cidade de São Paulo", promovido pela biblioteca do Senac Lapa Tito.

Como prêmio, ganhei um belíssimo livro: "Desenhando São Paulo - Mapas e Literatura".

31 de janeiro de 2013

Respiração Artificial, de Ricardo Piglia

Resenha participante do Desafio Literário 2013

Respiração Artificial foi o primeiro livro de ficção que li do argentino Ricardo Piglia. Do mesmo autor, antes, apenas Formas breves, um dos mais belos livros de ensaios que já devorei, ou melhor, que venho devorando incessantemente. Aliás, foi Formas breves que me fez correr atrás da ficção do hermano. No fundo, e na verdade, acho difícil definir qual dos dois é ficção, qual dos dois é ensaio teórico, qual dos dois é mais encantador. A única coisa que sei até aqui: de Piglia, quero ler cada vez mais.

A sinopse de Respiração Artificial é simples, embora o livro seja bastante denso. Emilio Renzi, evidente auter ego do autor, vai dialogando com diversos personagens emblemáticos de maneira assustadoramente profunda e erudita sobre historiografia, filosofia, teoria literária, vida. No fundo, digo do ponto de vista da minha opinião ainda superficial, o livro é uma grande pretexto do qual Piglia dispõe para apresentar relatos autobiográficos, teorias e insights geniais, além de nos convidar, de maneira demasiadamente atrativa, a ler Jorge Luis Borges, Roberto Arlt, James Joyce, Franz Kafka, Wittgenstein, entre tantos outros autores de quem vai falando de maneira tão natural, familiar e apaixonada que fica difícil não desejar conhecê-los. Entre eles, aliás, o próprio Piglia.

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PIGLIA, Ricardo. Respiração Artificial. [1980]. São Paulo: MEDIAfashion, 2012.

30 de janeiro de 2013

Juliana

Esses seus olhos
Jabuticabais
Cor e delícia
Essenciais
Doce carícia
Da sua boca
Santa malícia
Do seu sorriso
Dá minha paz.

28 de janeiro de 2013

Carpe Diem

A felicidade é a colheita que fazemos daquilo que plantamos.

De fato, boas leitura são sementes de sabedoria. Porém, não é a quantidade de livros que deixa a sabedoria mais farta, mas a qualidade das reflexões brotadas do que lemos.

Isso não exclui a leitura compulsiva: quanto maior a quantidade de livros que lemos, maior a probabilidade de colhermos boas reflexões.

O mesmo vale para a vida: não é a quantidade de anos que determina a felicidade, mas a qualidade com que os vivemos.

No entanto, isso não invalida a importância de conservar a saúde, pelo contrário: quanto mais velhos e ainda saudáveis, maior a probabilidade de vivermos momentos felizes.

A sabedoria, assim como a velhice, requer tempo.

Mesmo aceitando que a vida é fugaz, é preciso saber: a melhor maneira de colher o dia é fazer a fugacidade da vida durar o máximo possível.

A vida: não apenas consumi-la; sobretudo conservá-la.

A melhor colheita, antes de tudo, é aquela bem plantada e bem cultivada.

26 de janeiro de 2013

Os passos seguintes

Continuação do texto "O primeiro passo"

De fato, "a consciência da própria condição continua sendo o primeiro passo para uma possível mudança de vida". No entanto, é preciso ir mais além e definir a direção desse passo inicial, bem como quais devem ser os passos seguintes. Por exemplo: se o problema a ser combatido é a Vaidade, reconhecer os próprios erros pode, em vez de ajudar, apenas atrapalhar o pobre vaidoso: "vejam como sou bom: eu reconheço minhas fraquezas."  (há, inclusive, quem se orgulhe dos próprios defeitos). Por isso, apesar de essencial, a consciência da condição atual não basta: também é preciso saber aonde se quer chegar e qual o caminho a seguir.

24 de janeiro de 2013

Para saber estar junto

Todo bom relacionamento – seja ele familiar, conjugal, profissional, entre amigos, enfim – todo bom relacionamento nos faz valorizar os pequenos prazeres da vida, inclusive os breves – e prazerosos – momentos de introspecção. Afinal, bons momentos a sós são a base de bons diálogos e bons diálogos são a base de bons relacionamentos. Mas vale enfatizar: breves – e prazerosos. Se os momentos a sós forem muito constantes ou não existirem, acabar-se-ão os diálogos e, com eles, qualquer possibilidade de relacionamento. Ou ainda em outras palavras – penso cá comigo mesmo: para saber estar junto, há de se saber ficar sozinho.

19 de janeiro de 2013

E é isso que devemos buscar

Um bom livro não depende da grande quantidade de trechos bons e citáveis; depende, antes, da ausência de trechos não-citáveis.

Ou melhor: um bom livro é aquele de quem não conseguimos citar nada que não pareça, ainda que genial, incompleto ou injusto em relação aos demais trechos.

Assim também as pessoas boas: não aquelas com muitas qualidades, mas aquelas - na medida do possível - com cada vez menos defeitos.

Embora não seja costume, encontra-se qualidades em qualquer pessoa, qualquer uma. Raro é achar alguém sem defeitos.

E é isso que devemos buscar, não nos outros, mas em nós mesmos: mais do que grandes atos, poucos trechos não-citáveis. Menos defeitos e mais integridade.

18 de janeiro de 2013

It's Friday

Bem-aventurado aquele cuja alegria da sexta-feira não é apenas pelo final de mais uma semana trabalhosa, mas também - e principalmente - pelo início de mais um final de semana promissor.

12 de janeiro de 2013

Imagine o nutricionista

Imagine o nutricionista dizendo que você precisa comer, que precisa comer e ponto, sem dizer o quê, nem para quê, nem quanto. Seria tão incompleto quanto quem diz aos outros que é importante ler, que é importante ler e ponto. Agora imagine o nutricionista dizendo que você precisa comer arroz com feijão, pois é uma combinação que provavelmente surgiu no Brasil entre o arroz consumido em Portugal e o feijão já consumido pelos índios; ou que o Brasil foi o primeiro país sul-americano a cultivar o arroz, chamado até então de milho d'água, e tudo o mais. Seria tão maçante e irrelevante quanto o professor que ensina apenas períodos literários aos alunos.

8 de janeiro de 2013

O Natal da Formiga e da Cigarra

Enquanto a formiga aproveitava o período do Natal para relembrar e reafirmar a importância das boas ações e dos bons sentimentos promovidos pelo Menino Jesus, a cigarra estava completamente imersa no consumismo e estresse inerentes à época. E pode parecer paradoxal, mas a cigarra, mesmo em meio à agitação, estava euforicamente alegre com o clima de festa, enquanto a nobre formiga afogava-se em sua peculiar melancolia resignada.

Em seu pedestal de sabedoria, a formiga olhava toda aquela agitação ao redor com muito nervosismo e tristeza, criticando a cigarra por não observar o "verdadeiro sentido do Natal". No fundo - e talvez ela nem se dê conta disso - a formiga tinha vontade de fazer sumir aquela cigarra tão desrespeitosa em sua alegria barulhenta!

Desde os tempos mais primórdios, a alegria dos descompromissados ofende aos responsáveis de espírito.

A formiga não percebia quanto suas preces por bons sentimentos e boas ações tinham a ver com as cigarras. Por exemplo: a formiga passava o dia todo rogando por mais paciência, mas logo em seguida perdia a cabeça com as filas nas lojas, nos mercados, nas estradas, na lotérica, em todo canto. Logo ela, famosa pela labuta diária na fila do formigueiro. Não percebia que a algazarra das cigarras era a situação ideal promovida pelo mesmo Menino Jesus para que ela colocasse em prática a paciência tão rogada.

Já a cigarra, à essa altura de nossa fábula "estandarte da paciência formigal", nem se abalava: com o cartão de crédito estourado, queria apenas chutar o balde na comilança e curtir as festas com os amigos e a família. Nem passava por sua cabeça que ela, cigarra, presenteava a formiga com um baita desafio espiritual. A cigara queria apenas se divertir, prolongar a festança ao longo de todo o primeiro semestre, carnaval adentro.

Nenhuma das duas, no fundo, tinha ciência da sua verdadeira condição.

Há quem preveja que, no inverno sul-americano, a cigarra passará grande necessidade por não ter sido prudente no verão, enquanto a formiga permanecerá, com justiça, em sua toca quentinha e bem abastecida. E os mesmos preveem que a formiga, que terá passado todo o Natal louvando o desprendimento, a humildade, a misericórdia e os ensinamentos do Menino Jesus, será implacável em seu julgamento de justiça e deixará perecer a preguiçosa cigarra.

E o pior de tudo: tais pessoas ensinarão às criancinhas, por meio da famosa fábula, a importância da prudência e do trabalho, deixando de lado a oportunidade de ensiná-las, também, a relevância dos demais ensinamentos do Menino Jesus, como a misericórdia e a ajuda ao próximo. E essa fábula, incompleta em essência, fará o maior sucesso por aí.

Há quem preveja ainda que a formiga, no fim de sua vida, dirá: oh, Menino Jesus, quando deixei de atendê-lo? Eu que tantas vezes lhe construí presépios belos e quentinhos! Eu que tanto roguei por mim e pelos meus semelhantes! E os mesmos preveem que o menino Jesus dirá implacavelmente: todas as vezes que deixou de prestar misericórdia à pobre cigarra, você deixou de me atender.

E qual será a ação divina após tudo isso? Fará igual à formiga em relação à cigarra?

O que sabemos de fato - promete-nos a fé - é que o Menino Jesus é capaz de ter misericórdia de ambas, tão pequeninas diante de si, e que é essa a verdadeira diferença da sua divindade em relação à nossa animalidade: uma coisa é julgar e condenar, outra coisa é perdoar e cuidar. Ao julgarmos os outros, condenamo-nos a nós mesmos - já dizia o Menino - e ao perdoarmos uns aos outros, somos também perdoados - completava.

5 de janeiro de 2013

Preferência

Preferir não é excluir as demais possibilidades, é apenas ter maior tendência a alguma coisa em relação às outras. Digo isso porque somos diferentes, meu amigo: você prefere os grandes romances, mas eu prefiro os fragmentos literários. E é engraçado porque, no campo amoroso, sempre fui eu o propenso a relacionamentos estáveis e duradouros, enquanto você curte mais a multiplicidade e a fugacidade. Talvez por conta do medo do tédio. E essa diferença pode parecer contraditória, mas prefiro ver uma lógica: é que acho mais fácil me entediar lendo um romance de mil páginas do que lendo mil páginas de fragmentos, assim como me parece bem mais entediante buscar mil e uma experiências com mulheres ao invés de, com apenas uma, viver mil e uma experiências em conjunto. Se essas minhas opções não lhe parecem muito atraentes, talvez seja porque ainda lhe resta conhecer um grande escritor de fragmentos, ou mesmo uma verdadeira companhia. Da minha parte, tenho lutado para um dia ser esse tipo de escritor, bem como tenho buscado todo dia ser esse tipo de companheiro para minha amada. Com todo respeito e satisfação, essa é a minha preferência.

1 de janeiro de 2013

Dá a luz

Ilustração Air Guitar, de Pascal Campion.

Aquilo de anos anteriores - melhorar no violão e na paciência, no francês e na persistência, na cozinha e no companheirismo, no bolso e na responsabilidade, na escrita e nas leituras, na garupa e na prudência, na dança e na doçura, na erudição e na prática espiritual - mas com uma diferença marcante: agora casado e também muito feliz por isso.

Tanta coisa outrora tão distante e agora tão real. Ano fantástico esse que dá a luz ao que acaba de nascer.

Por aí, de um lado, quem deseja felicidade a todos, indistintamente. De outro, quem a deseja só a quem de fato merece. Por aqui, o desejo de que todos tenham, sim, a felicidade: seja por merecimento, seja - principalmente - por misericórdia divina. Digo por experiência própria.

Quero transbordar aos outros o que recebo em abundância. Refletir ao meu redor toda a luz que me ilumina.