Fogo do Céu

Não que as outras sejam menos impressionantes, mas uma das ideias mais emblemáticas da religião Evangélica é o perdão divino: quanto maior a culpa sentida pelo fiel, mais impressionado ele fica com o modo e a capacidade de seu Deus perdoá-lo e amá-lo incondicionalmente. É isso que garante tanta comoção e devoção.

Do mesmo modo, o que mais impressiona e revolta às demais crenças não são os milagres, os relatos bizarros ou os paradoxos doutrinários – em outras áreas, fatos semelhantes são aceitos normalmente. O que mais estranha os olhos alheios, religiosos ou não, é a multidão de gente vivendo pautada pela noção de culpa. Necessariamente é preciso sentir-se (ou melhor, verdadeiramente ser) culpado para entender, aceitar e proceder de acordo com os mistérios dessa crença – ou melhor, tentar viver de acordo com ela, porque atingir plenamente a santidade seria perder a culpa motivadora; em outras palavras, perder o Espírito Santo, responsável pela consciência da culpa e do padrão ético-moral a ser almejado. [Não é à toa que acredita-se que o único pecado sem perdão é negar o Espírito Santo.]

Daí, entre tantas coisas decorrentes, o nobre valor atribuído nos catecismos às “perseguições do mundo”: quanto mais os que não compartilham da mesma crença culpam e condenam o Evangelicalismo por isso ou aquilo, mais essa culpa imputada serve de combustível para o fogo incessante que segue crescendo ao longo dos séculos. Daí também, como modo de angariar mais fieis, a pregação que igualmente culpa e condena: sendo impossível ficar indiferente, ou você vira parte da fogueira, ou ela tenta queimá-lo.

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