19 de março de 2011

Sobre os Anjos

« A questão não é se existem ou não anjos infiltrados entre nós; a questão é se o mundo pode ou não alegar que você é um deles. »

12 de março de 2011

A epidemia da reclamação

Nunca houve doença tão contagiosa quanto a epidemia da reclamação. Basta que alguém vocifere uma mísera reclamaçãozinha sobre algo tão banal como, sei lá, "o tempo", para que outrém abra um sorriso de concordância revoltada e comece a reclamar também. Não importa se "o tempo" está calor ou frio demais, se chove muito ou pouco, se o fim do feriado chega rápido ou se o fim do expediente nunca chega - qualquer reclamação gera outra e mais outra e mais outra ad eternum. É a própria reclamação a iniciadora-mór de diálogos, de amizades, até de amores! E de brigas e separações. É reclamando que a mãe dá a luz e é reclamando que a criança nasce. É reclamando que a gente procura emprego e é reclamando que a gente trabalha. Viver é reclamar. É sempre a partir de uma insatisfação com o presente que grandes idéias nascem e o mundo se transforma. É a eterna transformação do mundo o maior motivo de reclamação. Todo mundo reclama de tudo toda hora. Pior é que, se a gente ousa lutar contra essa epidemia, acaba sucumbindo e passa a reclamar do quanto o mundo é reclamão. Pior ainda é que, quando a gente constata que está reclamando das reclamações alheias, a gente passa a também reclamar das nossas próprias reclamações sobre as reclamações alheias. E o pior de tudo mesmo é que, paradoxalmente, só reclamando da gente a gente melhora. Melhora passageira, claro, nunca definitiva, pois absolutamente não há cura para a epidemia da reclamação. Nascemos assim e assim morremos - não adianta reclamar.

Tal qual o criminoso

Tal qual o criminoso que pede ao assaltado para, por obséquio, passar-lhe uma parte de seu montante financeiro, assim o conto cujo único valor consiste no respeito à norma culta.

5 de março de 2011

Big Fish in Wonderland

Embora eu saiba que, para muitos, minhas opiniões sobre Tim Burton são sempre meio suspeitas (por conta da minha paixão pela força imagética de seus filmes), preciso compartilhar uma hipótese que não me sai da cabeça há algum tempo. É que tenho visto em "Alice in Wonderland" (2010) muito mais do que uma fraca adaptação de um livro: penso que a história de Lewis Carroll foi mero pretexto para Tim Burton fazer uma escancarada releitura de imagens e questões subjetivas já abordadas em outra grande obra sua, "Big Fish" (2003), filme que também recorre à deliciosa fronteira entre realidade e fantasia. Por favor, leiam e digam se minha hipótese é plausível (ou se estou ficando louco).

Obs.: o texto contém spoilers.

O estopim de ambas as estórias é, no "plano da realidade", o processo de morte de um pai fantasioso e visionário. Alice perde o pai que era considerado louco tal como está prestes a ocorrer com Will, filho do figuraça Edward Bloom. A morte do pai faz Alice ter que casar para ajudar sua mãe, tal como a iminência da morte do pai faz Will ter que voltar à casa para ajudar sua mãe. Desse modo, tanto Alice quanto Will assumem de repente uma espécie de papel heróico que os arrebata da vida prosaica: Alice sai da casa da infância e parte em viagem rumo à festa de noivado; Will, recém-casado, faz uma viagem de volta para a casa da infância.

A aura heróica já prenunciada por essas viagens é intensificada no "plano da fantasia", carro-chefe dos dois filmes. Em Big Fish, o plano da fantasia consiste nas estórias fantásticas narradas por Edward Bloom ao longo de sua vida e retomadas por Will em sua viagem para casa, enquanto em Alice consiste no seu recorrente sonho com o "País das Maravilhas", retomado pela garota no dia da festa de noivado. Nos dois casos, uma grande aventura ocorre em meio a personagens bizarras e imagens emblemáticas concernentes ao universo fantasioso dos pais. Essa viagem ao plano da fantasia - que uma análise ousada poderia chamar de "descida ao mundo dos mortos" - permite a Alice e Will lidar com questões subjetivas tanto em relação à morte do pai, quanto em relação aos rumos que tomarão no plano da realidade. Ambos, pois, fazem então uma viagem para dentro de si-mesmos.

Quando entendemos, então, o plano da fantasia como instrumento de trabalho da subjetividade do plano real, podemos nos aventurar na tarefa quase psicanalítica de interpretar algumas imagens fantasiosas apresentadas pelos dois filmes, por mais que às vezes pareçam tão despretensiosas e nonsense quanto o relato de um sonho.

Apresentei minha interpretação sobre muitas imagens do filme Alice em texto anterior (um de meus textos favoritos), dentre elas a imagem da lagarta e as imagens de Alice gigante e anã. Argumentei que a lagarta, eterno símbolo da metamorfose, funciona para Alice como uma espécie de "oráculo" pelo qual a garota acaba descobrindo seu futuro - embora sinta-se extremamente desconfortável com esse destino predeterminado em Wonderland, tal como se sente na vida real. Também argumentei que a oscilação de tamanho de Alice figura seu momento de transição de menina a mulher, de modo que, no mundo novo, a personagem ora sente-se pequena demais, ora sente-se grande demais. É assim que, creio eu, são figuradas algumas questões importantes no filme de Alice, principalmente a discussão acerca do destino e do desajuste em relação ao mundo, visto que a todo momento a garota mostra-se descontente com o ambiente em que vive e busca algo novo.

Foi sobretudo por meio dessas imagens de Alice que, ao assistir recentemente Big Fish, comecei a suspeitar da ligação entre os dois filmes. Em uma das primeiras cenas do plano fantasioso de Big Fish, Edward Bloom, ainda jovem, vai à casa de uma bruxa e vê seu futuro numa espécie de "oráculo", tal como Alice. Mais do que isso, o adolescente Bloom também começa a sentir-se desconfortável com a vida prometida na cidadezinha, tanto que decide fugir - tal como a garota. Vem daí, inclusive, a idéia de "peixe grande" e a simbologia do peixe que, para crescer, precisa de um lago maior. Nesse processo, aparecem ainda figuras de gigantes e anões: primeiro o gigante Karl, o estrangeiro desajustado que mostra a Edward o quanto a vida pode ser grande perto de sua vilinha. Em seguida os anões do circo e a cena emblemática do imponente gigante Colossus que, de repente, fica pequeno perto do realmente grande gigante Karl. Creio que essa cena, aparentemente banal, é imagem clara da transição pela qual Edward passa: de "grande" herói amado por Ashton a "pequeno" faxineiro de circo itinerante (isso é nítido na conversa de Ed com o dono do circo). Sem essa compreensão, poderíamos criticar tamanha ênfase numa cena aparentemente tão "desnecessária" - como tantas outras nos filmes de Tim Burton.

Ainda seria possível listar e explorar uma porção de imagens e cenas emblemáticas que são convergentes nos dois filmes, como por exemplo as cenas do chá (Edward toma chá na casa do prefeito; Alice toma chá na casa do Chapeleiro Maluco), a imagem da gemeidade bizarra (as gêmeas siamesas em Big Fish; Tweedledee e Tweedledum em Alice); e até a própria imagem de "mocinha" (Alice e Sandra são alvas, vestem vestido azul e têm cabelos enrolados loiro-avermelhados). No entanto, gostaria de caminhar ao fim desta análise focalizando uma cena convergente em específico: a despedida do pai.

Ao longo de todo o filme Big Fish, Will procura ter uma conversa com o pai para conhecer a "verdadeira" versão da vida de Edward Bloom. Ao longo do filme, Will descobre que, embora exagerada, a fantasia do pai tem como fonte a própria realidade (Will descobre quanto é tênue a fronteira entre realidade e ficção). Assim, quando Edward está prestes a morrer, Will finalmente adere à mentalidade do pai e narra uma estória fantasiosa sobre a morte que figura o velório e enterro que estariam para acontecer. A despedida, portanto, tem como tema a fronteira entre realidade e fantasia.

Para quem não sabe, Tim Burton dedicou Big Fish ao pai que tinha acabado de falecer. O diretor conta em entrevistas que não era muito próximo de seu progenitor, de modo que Big Fish, assim, pode ser entendido como uma tentativa de reelaborar, no plano da fantasia, uma reaproximação e uma despedida que não aconteceram na vida real. Tal como na estrutura do filme, portanto, o plano da fantasia funciona como uma forma de trabalho de questões subjetivas do plano da realidade do diretor: uma viagem de si para si-mesmo.

Embora a relação entre o pai de Tim Burton e Big Fish seja razoavelmente conhecida e nítida, penso que minha hipótese traz a novidade de mostrar que essas imagens e questões subjetivas são retomadas onde menos se esperaria: na filmagem de Alice in Wonderland, adaptação de um livro que não tematiza nada disso.

No meu texto anterior sobre Alice, argumentei que o Chapeleiro Maluco figurava o pai e que a cena de despedida era uma maneira de Alice fazer uma despedida que não houve na vida real. O que eu não sabia na época é que a despedida também era uma reelaboração da subjetividade do próprio Tim Burton. É por isso talvez que o diretor tenha dado tanto destaque ao personagem de Johnny Depp; destaque não existente na estória original de Lewis Carroll.

Enquanto Big Fish foi aclamado como filme psicológico, Alice recebeu muitas críticas por se propor a uma aventura que não empolga, talvez porque Tim Burton tenha buscado em Alice um filme tão dramático e psicológico quanto Big Fish, cujo ápice estaria mais na simbologia das imagens do que na estória em si. Via de regra, os filmes de Tim Burton são aclamados quando tomados como poesia; não como prosa.

Estando claro, portanto, que Big Fish e Alice são filmes poéticos que figuram questões subjetivas de um filho diante da morte de um pai, acho que vale a pena encerrar a hipótese com a cena final dos dois filmes.

Após a despedida, Big Fish apresenta Will no plano da realidade, agora pai, contando estórias fantasiosas para seu filho, tal como seu pai Edward fazia. Por sua vez, Alice apresenta a protagonista, também no plano da realidade, partindo em viagem empreendedora, tal como seu pai. Nos dois casos, é possível dizer de maneira poética que no plano da realidade os filhos metamorfoseiam-se no pai.

É assim que Tim Burton, também filho no plano da realidade, rompe as fronteiras entre real e fantasia, metamorfoseando-se nos pais que ficciona. Tal como o pai de Alice, o diretor é um empreendedor visionário tido como louco. E tal como o pai de Will, Tim Burton é um contador de estórias fantasioso e exagerado que, de tanto contar estórias, acaba se tornando uma. Peixe grande demais para o laguinho da crítica.