12 de fevereiro de 2011

Um livro pra chamar de seu

Quadro Pillow Book, de Vladimir Kush.

Paquerou muitos em bibliotecas e livrarias. Paixões fugazes que começavam e terminavam num cafezinho ou num puf. Saboreava-os o máximo que podia, pois o tempo urgia. Depois vieram os virtuais, clandestinos. Promissores, mas sem a delícia do toque ou do cheiro. Até que passou a alugar alguns. Amor a prazo, bom, mas sujeito a punições. Sem atrasos. Sem marcações. Livros sem donos, livres, feitos apenas para passarem de olho a olho, de mão a mão. Mesmo assim, mais possíveis do que se roubasse, ou melhor, emprestasse das amigas, embora a emoção de pegar um livro alheio fosse muito atraente. Ainda mais quando as amigas falavam bem do dito-cujo.

Um dia começou a querer um livro pra chamar de seu. Trabalhou muito, economizou, e conseguiu um. Tantas opções. Tão iguais. No começo lia-o devagarzinho, com cuidado, saboreando-o delicadamente. Queria que não tivesse fim. E até que durou bastante. Mas um dia o livro acabou. Virou lembrança, empoeirada. Sabia de cor a história. Podia prever cada uma de suas palavras. Sem mais expectativas ou surpresas. Sem delicadezas. Passou então a deixá-lo na estante, esquecido, junto aos outros que foi acumulando. Tantos. Tão iguais! Nem a estante cheia de livros a saciava.

Ainda queria um livro pra chamar de seu. Mas ele não vinha. As lembranças dos livros passados ressoavam em sua mente. Em suas idéias. Foi juntando-as. Digitando-as. Palavras soltas. Breves parágrafos. Um capítulo. Uma personagem. E um livro foi surgindo. Seu livro, sob sua rédea. Tão seu! Surgindo como o sol da manhã. Devagar. Quente. Fazendo-se levemente presente tanto na luz do dia quanto no brilho da noite enluarada. Eternamente feliz, sem fim. Que bonito, não?

Até que terminou. Soltou a rédea. E agora? Queria vê-lo nas bibliotecas e livrarias. À vista e a prazo. De olho a olho, de mão a mão. Na boca das amigas. Nas prateleiras. Emprestado. Comprado. Saboreado... Mas pena que ninguém aceitou história tão besta.

5 comentários:

  1. Muito bom Vinícius! Aliás, fiquei sabendo pelo Ireno que um conto dele e outro seu será publicado. Parabéns!
    PS: Aceitarão! :D

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  2. Ai Vi,só vc!Escreve com tanta naturalidade que até parece ser fácil!Parece que as histórias brotam de vc, são parte de vc e isso é tão bonito!

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  3. Nada como sentir um livro em suas mãos.

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