27 de dezembro de 2011

I'll Try Anything Once (You Only Live Once)

Poderia escrever milhares de linhas sobre o ano que passou e sobre o ano que virá, mas talvez isso seja pura redundância diante de uma música tão linda e emblemática.

 

5 de novembro de 2011

Sonhos

Vinícius e Juliana caminhando. Foto de alguma amiga querida.
Quanto aos sonhos, poucos percebem a diferença entre concretizá-los e realizá-los. Concretizar um sonho, para mim, significa saber exatamente o que se deseja. Significa, por exemplo, não apenas sonhar com a "felicidade", mas saber exatamente e minuciosamente o que ela significa para você. Significa saber onde se está, onde se pretende chegar e qual dentre os vários caminhos é o melhor até lá. Realizar um sonho, por sua vez, refere-se ao intervalo entre o caminho e a chegada. Significa todo o processo de alcance daquilo que se deseja. Envolve tanto o caminho quanto a chegada.

A confusão entre os dois verbos ocorre por muitos motivos. Primeiro porque às vezes queremos "realizar nossos sonhos" sem nem sabermos concretamente quais são eles. Não raro isso acontece. É o que chamo de "caminho sem fim": sem pontos de parada, é um caminho aflitivo, que cansa. Devemos evitá-lo. Segundo porque às vezes chegamos a realizar sonhos que nunca sonháramos. Raramente isso acontece. É o que alguns chamam de "sorte": quando assumimos o papel de rumo e a alegria caminha até nós. É maravilhoso quando ocorre, mas é imprudente depender apenas disso. Terceiro porque às vezes, ao mesmo tempo, a concretização e a realização caminham juntas. Não sei com qual frequência isso ocorre, mas suspeito que sejam raros tais casos. É o que chamo, dentre tantas denominações possíveis, de namoro bom. E graças a Deus é o que tenho vivido nestes exatos três anos com a tão doce Juliana, querida companheira de caminhada com quem tenho sido tão alegremente feliz e com quem tenho desejado as tantas novas alegrias que hão de vir e que havemos de alcançar.

Com ela, é verdade, sei que poderemos concretizar sonhos que nunca serão realizados. Mas com ela, principalmente, sei com muita propriedade que poderemos realizar sonhos nunca antes sonhados e, mais do que isso, continuar realizando os tantos sonhos que temos sonhado juntos.

três anos de namoro =-]

12 de agosto de 2011

Tempo, Tempo, Mano Velho

Quadro Tile of Time, de Vladimir Kush.
Não mais aquela surpresa constante da criança que vai descobrindo a vida a cada novo passo, mas sim aquela surpresa inusitada - quase um susto - de quem já sabe o que esperar da previsibilidade do mundo e que, mesmo assim, ainda não espera perfeitamente bem. Não o susto de quem se descobre perdido, mas o susto de quem sabe exatamente qual rota seguir e de repente descobre que o mapa está desatualizado, ou mesmo que a meta mudou. A surpresa de quem vai descobrindo que nem sempre há um retorno quando se erra o caminho; e que o preço a ser pago pelo combustível queimado na rota errada é caríssimo. Não o susto de quem vê um animalzinho na pista, mas o horror de quem vê outra pessoa atropelando-o deliberadamente. Não a surpresa do adolescente que se apaixona pela menina que mal conheceu, mas a surpresa causada pelo velhinho que, apesar das rugas da convivência, ama fervorosamente sua companheira de vida. Não a surpresa de receber uma nova cartinha de amor, mas surpresa de encontrá-la perdida na gaveta após tanto tempo. Não a surpresa de quem descobre um novo escritor, mas a surpresa de quem, achando que leu toda uma obra, descobre na própria biblioteca um bom livro ainda não lido, ou lido outrora sem o mesmo deleite. Não o susto de ser apunhalado pelas costas, mas a atonicidade de se descobrir perdoando de verdade. Não a surpresa de quem descobre um escândalo religioso, mas a alegria misteriosa de quem descobre o cristianismo puro e simples. Não um grande presente ou uma festa surpresa dos amigos em volta, mas um grande abraço de quem não se vê há muito tempo. Não a surpresa de um texto extraordinário, mas a publicação de um texto banal após tanto tempo sem escrever. Surpresas e sustos, bons e ruins, que vão fazendo da vida algo realmente interessante - às vezes até assustador - e que vão fazendo de mim, aos trancos e barrancos, alguém surpreendentemente mais maduro e mais feliz a cada novo dia; a cada novo ano.

aniversário de 23 anos

3 de junho de 2011

Teologia Relacional: uma abordagem literária

Há quem diga que todo leitor é uma espécie de deus que, ao ser surpreendido com a morte de uma personagem, pode ressuscitá-la voltando algumas páginas ou mesmo reiniciando a leitura. Uma espécie de deus da tão surrada "teologia relacional", que não deseja a morte de ninguém, que tem poder de ressurreição, mas que não tem poder algum para mudar a história. Para alguns, deus meio que passivo. Para outros, Deus compassivo e amoroso.

Embora seja uma analogia bastante charmosa, confesso que para mim o Deus verdadeiro sempre esteve mais para escritor. Escritor dos bons. Escritor cuja história nem é escancaradamente óbvia, nem misteriosa demais. Escritor cuja mão ao mesmo tempo bate e acarinha. Escritor cuja história é cheia de peripécias, altos e baixos, poesia! Escritor cujos narradores e eu-líricos, consubstanciados a si-próprio, sabem a hora de aparecer e a hora de velar. Escritor, enfim, tantas e tantas vezes incompreendido pelos poucos que de fato o lêem - mesmo quando lido e discutido pelos mais conceituados literatos.

Eis assim ilustrada, conforme sempre aprendi, a diferença entre o deus com quem a qualquer momento eu poderia ter vontade de me relacionar e o Deus que desde cedo irresistivelmente me atraiu. Deus este, a propósito, sobre o qual - confesso - acabou escapando de repente uma intermitente e instigante questão: mas será possível conceber um bom escritor que não seja também um bom leitor? Por mais óbvia que seja a resposta, a mim foi preciso viajar e viajar com muita rebeldia por meio da Ortodoxia de Chesterton, grande escritor, para com prazer ser mais um a paradoxalmente descobri-la em uma nova terra que, no fundo no fundo, era exatamente a mesma de onde eu tinha partido.

30 de abril de 2011

Casa Poliglota

Logo da Casa Poliglota, elaborado por Leandro Amado.
Um dos meus maiores sonhos de vida é trabalhar naquilo que gosto ajudando aos outros e fazendo isso de maneira justa e dedicada. E uma das maiores alegrias, minha e de meus amigos da Letras-USP, é saber que parte desse sonho está sendo cada vez mais realizado através da Casa Poliglota.


Veja nosso site:

A Casa Poliglota é um projeto idealizado por nós com o intuito de oferecer aulas particulares de idiomas com qualidade e flexibilidade. A equipe, composta por professores altamente competentes, oferece aulas de Língua Portuguesa (redação, gramática, etc) e de línguas estrangeiras, como Alemão, Espanhol, Francês, Inglês, Italiano, Latim, Libras e Português para estrangeiros - sem contar que, se tudo der certo, muito em breve ofereceremos outros idiomas!

Esse projeto surgiu diante de alguns fatos que fomos percebendo ao longo de nosso trabalho como professores particulares: 1) algumas escolas de idiomas cobram um preço muito abusivo para oferecer aulas de qualidade muito inferior às aulas particulares; 2) nessas escolas de idiomas, muitas vezes o professor fica atado ao material de uso obrigatório, sem poder acelerar o ritmo ou trazer materiais mais adequados e produtivos ao interesse de cada aluno; enquanto nas aulas particulares temos a liberdade de oferecer ao aluno todas as condições necessárias para que alcance seus objetivos; 3) a única qualidade das escolas de idiomas é conseguir reunir pessoas interessadas em aprender novos idiomas; 4) oras, então se todos nós oferecemos aulas particulares e acreditamos que elas têm melhor resultado, divulgar em conjunto é muito melhor do que divulgar individualmente! divulgando, podemos mostrar às pessoas interessadas que existe uma alternativa muito mais benéfica e barata: as aulas particulares dos professores da Casa Poliglota.

Se você tem interesse em fazer aulas com algum de nossos professores, entre em contato! E se quiser nos ajudar com a divulgação, clique aqui e veja como! Você pode divulgar nosso link para seus amigos via e-mail, Twitter e Orkut; você pode, com um único clique no botão "curtir", divulgar para seus amigos no Facebook; você pode colar um banner nosso em seu blog ou site!; você pode até copiar e colar este texto em seu blog.

Em nome de toda nossa equipe, agradeço a cada um pela atenção, pelo apoio e pela ajuda na divulgação! Esse projeto está sendo cultivado com muito carinho e dedicação (nunca vi tanta gente boa e competente junto!), de modo que, se Deus quiser, continuaremos colhendo cada vez mais frutos positivos!

23 de abril de 2011

Das indicações e outras surpresas

Algumas honras nos pegam tão de surpresa que até nos deixam sem palavras. Ontem aconteceu uma delas. A escritora Larissa "Frau" Forster, responsável pelo excelente blog Das capivaras e outras coisas e também participante do blog Meninas Improváveis, escreveu em sua coluna semanal um texto cuja proposta era indicar um blog. Qual foi minha surpresa quando vi o Canto em Silêncio como blog indicado! Diz a escritora:

« No período que estive na faculdade, tive a chance de fazer bons amigos e conhecer pessoas extremamente talentosas. E uma delas é Vinícius Barqueiro. Em seu blog, Canto em Silêncio, o qual acompanho, podemos encontrar desenhos, aforismos, contos... Tudo com muita sensibilidade e grande clareza de espírito. Eu particularmente prefiro os contos, que sempre me fazem refletir e repensar minha pacata existência. » (FORSTER, F. "Canto em Silêncio". In: Meninas Improváveis. São Paulo: Blogspot, 2011)

Obrigado pelas palavras e pelo incentivo, escritora Larissa. Não sei se todos sabem, mas singelos incentivos como esse nos reanimam muito na tarefa prazerosa e corajosa que é escrever e publicar. Assim como muita leitura boa, o retorno dos amigos-leitores é essencial para a constante melhora daqueles que, como eu, pretendem um dia também serem denominados escritores.

2 de abril de 2011

A moeda do desejo secreto

« Há duas faces na moeda do desejo secreto: em uma, a comoção de quem é surpreendido com aquilo que sempre desejou e nunca pediu; em outra, a angústia de quem espera do devedor aquilo que ele nem sabe que deve. »

19 de março de 2011

Sobre os Anjos

« A questão não é se existem ou não anjos infiltrados entre nós; a questão é se o mundo pode ou não alegar que você é um deles. »

12 de março de 2011

A epidemia da reclamação

Nunca houve doença tão contagiosa quanto a epidemia da reclamação. Basta que alguém vocifere uma mísera reclamaçãozinha sobre algo tão banal como, sei lá, "o tempo", para que outrém abra um sorriso de concordância revoltada e comece a reclamar também. Não importa se "o tempo" está calor ou frio demais, se chove muito ou pouco, se o fim do feriado chega rápido ou se o fim do expediente nunca chega - qualquer reclamação gera outra e mais outra e mais outra ad eternum. É a própria reclamação a iniciadora-mór de diálogos, de amizades, até de amores! E de brigas e separações. É reclamando que a mãe dá a luz e é reclamando que a criança nasce. É reclamando que a gente procura emprego e é reclamando que a gente trabalha. Viver é reclamar. É sempre a partir de uma insatisfação com o presente que grandes idéias nascem e o mundo se transforma. É a eterna transformação do mundo o maior motivo de reclamação. Todo mundo reclama de tudo toda hora. Pior é que, se a gente ousa lutar contra essa epidemia, acaba sucumbindo e passa a reclamar do quanto o mundo é reclamão. Pior ainda é que, quando a gente constata que está reclamando das reclamações alheias, a gente passa a também reclamar das nossas próprias reclamações sobre as reclamações alheias. E o pior de tudo mesmo é que, paradoxalmente, só reclamando da gente a gente melhora. Melhora passageira, claro, nunca definitiva, pois absolutamente não há cura para a epidemia da reclamação. Nascemos assim e assim morremos - não adianta reclamar.

Tal qual o criminoso

Tal qual o criminoso que pede ao assaltado para, por obséquio, passar-lhe uma parte de seu montante financeiro, assim o conto cujo único valor consiste no respeito à norma culta.

5 de março de 2011

Big Fish in Wonderland

Embora eu saiba que, para muitos, minhas opiniões sobre Tim Burton são sempre meio suspeitas (por conta da minha paixão pela força imagética de seus filmes), preciso compartilhar uma hipótese que não me sai da cabeça há algum tempo. É que tenho visto em "Alice in Wonderland" (2010) muito mais do que uma fraca adaptação de um livro: penso que a história de Lewis Carroll foi mero pretexto para Tim Burton fazer uma escancarada releitura de imagens e questões subjetivas já abordadas em outra grande obra sua, "Big Fish" (2003), filme que também recorre à deliciosa fronteira entre realidade e fantasia. Por favor, leiam e digam se minha hipótese é plausível (ou se estou ficando louco).

Obs.: o texto contém spoilers.

O estopim de ambas as estórias é, no "plano da realidade", o processo de morte de um pai fantasioso e visionário. Alice perde o pai que era considerado louco tal como está prestes a ocorrer com Will, filho do figuraça Edward Bloom. A morte do pai faz Alice ter que casar para ajudar sua mãe, tal como a iminência da morte do pai faz Will ter que voltar à casa para ajudar sua mãe. Desse modo, tanto Alice quanto Will assumem de repente uma espécie de papel heróico que os arrebata da vida prosaica: Alice sai da casa da infância e parte em viagem rumo à festa de noivado; Will, recém-casado, faz uma viagem de volta para a casa da infância.

A aura heróica já prenunciada por essas viagens é intensificada no "plano da fantasia", carro-chefe dos dois filmes. Em Big Fish, o plano da fantasia consiste nas estórias fantásticas narradas por Edward Bloom ao longo de sua vida e retomadas por Will em sua viagem para casa, enquanto em Alice consiste no seu recorrente sonho com o "País das Maravilhas", retomado pela garota no dia da festa de noivado. Nos dois casos, uma grande aventura ocorre em meio a personagens bizarras e imagens emblemáticas concernentes ao universo fantasioso dos pais. Essa viagem ao plano da fantasia - que uma análise ousada poderia chamar de "descida ao mundo dos mortos" - permite a Alice e Will lidar com questões subjetivas tanto em relação à morte do pai, quanto em relação aos rumos que tomarão no plano da realidade. Ambos, pois, fazem então uma viagem para dentro de si-mesmos.

Quando entendemos, então, o plano da fantasia como instrumento de trabalho da subjetividade do plano real, podemos nos aventurar na tarefa quase psicanalítica de interpretar algumas imagens fantasiosas apresentadas pelos dois filmes, por mais que às vezes pareçam tão despretensiosas e nonsense quanto o relato de um sonho.

Apresentei minha interpretação sobre muitas imagens do filme Alice em texto anterior (um de meus textos favoritos), dentre elas a imagem da lagarta e as imagens de Alice gigante e anã. Argumentei que a lagarta, eterno símbolo da metamorfose, funciona para Alice como uma espécie de "oráculo" pelo qual a garota acaba descobrindo seu futuro - embora sinta-se extremamente desconfortável com esse destino predeterminado em Wonderland, tal como se sente na vida real. Também argumentei que a oscilação de tamanho de Alice figura seu momento de transição de menina a mulher, de modo que, no mundo novo, a personagem ora sente-se pequena demais, ora sente-se grande demais. É assim que, creio eu, são figuradas algumas questões importantes no filme de Alice, principalmente a discussão acerca do destino e do desajuste em relação ao mundo, visto que a todo momento a garota mostra-se descontente com o ambiente em que vive e busca algo novo.

Foi sobretudo por meio dessas imagens de Alice que, ao assistir recentemente Big Fish, comecei a suspeitar da ligação entre os dois filmes. Em uma das primeiras cenas do plano fantasioso de Big Fish, Edward Bloom, ainda jovem, vai à casa de uma bruxa e vê seu futuro numa espécie de "oráculo", tal como Alice. Mais do que isso, o adolescente Bloom também começa a sentir-se desconfortável com a vida prometida na cidadezinha, tanto que decide fugir - tal como a garota. Vem daí, inclusive, a idéia de "peixe grande" e a simbologia do peixe que, para crescer, precisa de um lago maior. Nesse processo, aparecem ainda figuras de gigantes e anões: primeiro o gigante Karl, o estrangeiro desajustado que mostra a Edward o quanto a vida pode ser grande perto de sua vilinha. Em seguida os anões do circo e a cena emblemática do imponente gigante Colossus que, de repente, fica pequeno perto do realmente grande gigante Karl. Creio que essa cena, aparentemente banal, é imagem clara da transição pela qual Edward passa: de "grande" herói amado por Ashton a "pequeno" faxineiro de circo itinerante (isso é nítido na conversa de Ed com o dono do circo). Sem essa compreensão, poderíamos criticar tamanha ênfase numa cena aparentemente tão "desnecessária" - como tantas outras nos filmes de Tim Burton.

Ainda seria possível listar e explorar uma porção de imagens e cenas emblemáticas que são convergentes nos dois filmes, como por exemplo as cenas do chá (Edward toma chá na casa do prefeito; Alice toma chá na casa do Chapeleiro Maluco), a imagem da gemeidade bizarra (as gêmeas siamesas em Big Fish; Tweedledee e Tweedledum em Alice); e até a própria imagem de "mocinha" (Alice e Sandra são alvas, vestem vestido azul e têm cabelos enrolados loiro-avermelhados). No entanto, gostaria de caminhar ao fim desta análise focalizando uma cena convergente em específico: a despedida do pai.

Ao longo de todo o filme Big Fish, Will procura ter uma conversa com o pai para conhecer a "verdadeira" versão da vida de Edward Bloom. Ao longo do filme, Will descobre que, embora exagerada, a fantasia do pai tem como fonte a própria realidade (Will descobre quanto é tênue a fronteira entre realidade e ficção). Assim, quando Edward está prestes a morrer, Will finalmente adere à mentalidade do pai e narra uma estória fantasiosa sobre a morte que figura o velório e enterro que estariam para acontecer. A despedida, portanto, tem como tema a fronteira entre realidade e fantasia.

Para quem não sabe, Tim Burton dedicou Big Fish ao pai que tinha acabado de falecer. O diretor conta em entrevistas que não era muito próximo de seu progenitor, de modo que Big Fish, assim, pode ser entendido como uma tentativa de reelaborar, no plano da fantasia, uma reaproximação e uma despedida que não aconteceram na vida real. Tal como na estrutura do filme, portanto, o plano da fantasia funciona como uma forma de trabalho de questões subjetivas do plano da realidade do diretor: uma viagem de si para si-mesmo.

Embora a relação entre o pai de Tim Burton e Big Fish seja razoavelmente conhecida e nítida, penso que minha hipótese traz a novidade de mostrar que essas imagens e questões subjetivas são retomadas onde menos se esperaria: na filmagem de Alice in Wonderland, adaptação de um livro que não tematiza nada disso.

No meu texto anterior sobre Alice, argumentei que o Chapeleiro Maluco figurava o pai e que a cena de despedida era uma maneira de Alice fazer uma despedida que não houve na vida real. O que eu não sabia na época é que a despedida também era uma reelaboração da subjetividade do próprio Tim Burton. É por isso talvez que o diretor tenha dado tanto destaque ao personagem de Johnny Depp; destaque não existente na estória original de Lewis Carroll.

Enquanto Big Fish foi aclamado como filme psicológico, Alice recebeu muitas críticas por se propor a uma aventura que não empolga, talvez porque Tim Burton tenha buscado em Alice um filme tão dramático e psicológico quanto Big Fish, cujo ápice estaria mais na simbologia das imagens do que na estória em si. Via de regra, os filmes de Tim Burton são aclamados quando tomados como poesia; não como prosa.

Estando claro, portanto, que Big Fish e Alice são filmes poéticos que figuram questões subjetivas de um filho diante da morte de um pai, acho que vale a pena encerrar a hipótese com a cena final dos dois filmes.

Após a despedida, Big Fish apresenta Will no plano da realidade, agora pai, contando estórias fantasiosas para seu filho, tal como seu pai Edward fazia. Por sua vez, Alice apresenta a protagonista, também no plano da realidade, partindo em viagem empreendedora, tal como seu pai. Nos dois casos, é possível dizer de maneira poética que no plano da realidade os filhos metamorfoseiam-se no pai.

É assim que Tim Burton, também filho no plano da realidade, rompe as fronteiras entre real e fantasia, metamorfoseando-se nos pais que ficciona. Tal como o pai de Alice, o diretor é um empreendedor visionário tido como louco. E tal como o pai de Will, Tim Burton é um contador de estórias fantasioso e exagerado que, de tanto contar estórias, acaba se tornando uma. Peixe grande demais para o laguinho da crítica.

12 de fevereiro de 2011

Um livro pra chamar de seu

Quadro Pillow Book, de Vladimir Kush.

Paquerou muitos em bibliotecas e livrarias. Paixões fugazes que começavam e terminavam num cafezinho ou num puf. Saboreava-os o máximo que podia, pois o tempo urgia. Depois vieram os virtuais, clandestinos. Promissores, mas sem a delícia do toque ou do cheiro. Até que passou a alugar alguns. Amor a prazo, bom, mas sujeito a punições. Sem atrasos. Sem marcações. Livros sem donos, livres, feitos apenas para passarem de olho a olho, de mão a mão. Mesmo assim, mais possíveis do que se roubasse, ou melhor, emprestasse das amigas, embora a emoção de pegar um livro alheio fosse muito atraente. Ainda mais quando as amigas falavam bem do dito-cujo.

Um dia começou a querer um livro pra chamar de seu. Trabalhou muito, economizou, e conseguiu um. Tantas opções. Tão iguais. No começo lia-o devagarzinho, com cuidado, saboreando-o delicadamente. Queria que não tivesse fim. E até que durou bastante. Mas um dia o livro acabou. Virou lembrança, empoeirada. Sabia de cor a história. Podia prever cada uma de suas palavras. Sem mais expectativas ou surpresas. Sem delicadezas. Passou então a deixá-lo na estante, esquecido, junto aos outros que foi acumulando. Tantos. Tão iguais! Nem a estante cheia de livros a saciava.

Ainda queria um livro pra chamar de seu. Mas ele não vinha. As lembranças dos livros passados ressoavam em sua mente. Em suas idéias. Foi juntando-as. Digitando-as. Palavras soltas. Breves parágrafos. Um capítulo. Uma personagem. E um livro foi surgindo. Seu livro, sob sua rédea. Tão seu! Surgindo como o sol da manhã. Devagar. Quente. Fazendo-se levemente presente tanto na luz do dia quanto no brilho da noite enluarada. Eternamente feliz, sem fim. Que bonito, não?

Até que terminou. Soltou a rédea. E agora? Queria vê-lo nas bibliotecas e livrarias. À vista e a prazo. De olho a olho, de mão a mão. Na boca das amigas. Nas prateleiras. Emprestado. Comprado. Saboreado... Mas pena que ninguém aceitou história tão besta.

5 de fevereiro de 2011

Por uma nova metodologia de disputa acadêmica: Lattes-Cards


Quadro Les jouers de carte, de Paul Cézanne.
Figura 1. Paul Cézanne: Les jouers de carte
ABSTRACT: Discute-se muito acerca da influência do capitalismo no ambiente acadêmico, inclusive no curso de Letras da USP, tradicionalmente de cunho mais socialista. Isso porque a carreira científica tem sido vista cada vez mais como uma trajetória em que é preciso consumir bibliografia e acumular notas, publicações, congressos e premiações para se dar bem na disputa por crescimento no "mercado acadêmico". Tendo em vista isso, e baseado sobretudo na obra de Jorge Cham (CHAM : 2011), nosso trabalho tem por objetivo propor a criação do jogo de cartas que denominamos "Lattes-Cards". Nessas cartas, os pontos acadêmicos acumulados pelos docentes seriam organizados e divididos por critérios de comparação já usados pelas principais agências de fomento (ex. figura 2). Após a etapa de coleta de dados e criação das cartas, distribuir-se-iam as mesmas aos alunos de Letras da USP via JúpiterWeb, de modo a facilitar a já tradicional disputa acerca de quem teve ou tem as melhores aulas (i.e. quem teve ou tem os professores mais bem conceituados). Por trás dessa proposta de trabalho, subsidem pelo menos dois objetivos pedagógicos muito bem definidos: (i) suprir a enorme carência de lazer dos graduandos, sobretudo daqueles que abdicam sua vida social em prol de uma carreira acadêmica; e (ii) ambientar esses estudantes, desde cedo, ao árduo contexto de disputa a que indubitavelmente serão submetidos ao longo de suas carreiras, fazendo da disputa de cartas um verdadeiro trabalho de iniciação científica a todo aquele que quiser entrar neste jogo. Mais do que isso, espera-se que nosso pequeno trabalho fomente também, por parte de colegas, a criação de cards referentes a outros cursos e Universidades, de modo que haja, a partir daqui, uma globalização da idéia e um intenso intercâmbio universitário em relação às referidas disputas acadêmicas do capitalismo científico contemporâneo.

KEYWORDS: Trading cards, Consumismo bibliográfico, Produção intelectual, Capitalismo científico
Imagem Professorial Trading Cards, do site PdD Comics.
Figura 2. Exemplo fictício de Lattes-Card. Fonte: PhD Comics


REFERÊNCIAS:

CHAM, J. [2011] "Professorial Trading Cards". In: PhD Comics. Disponível em www.phdcomics.com. Acesso: fevereiro de 2011.

CNPQ. "Plataforma Lattes". Disponível em: http://lattes.cnpq.br/. Acesso: fevereiro de 2011.

8 de janeiro de 2011

The Next Time Around


"if nothing ventured, nothing earned"

de saída para Ilha Comprida! =)