27 de fevereiro de 2010

Diferente ou Igual

Quadro La reproduction interdite, de René Magritte.
Todos pensavam que eram diferentes, inclusive ele. O fato de ser diferente de todos o assustava, por isso procurava alguém que fosse igual. Ao passar do tempo, porém, descobria que todos eram diferentes. Pior, descobria que a característica de ser diferente é comum a todos. Descobriu que, nisso, todos são iguais. O fato de ser igual a todos o assustou, por isso procurou alguém que fosse diferente. Ao passar do tempo, porém, descobriu que todos são iguais. Todos pensavam que eram diferentes, menos ele. O fato de ser diferente de todos o assustava, por isso...

20 de fevereiro de 2010

Tempestade em Copo D'água

E de repente lá estava a cigarra no copo.

A formiga, que religiosamente passava por ali todo dia, viu sua amiga presa num copo virado de ponta cabeça na terra e correu querendo ajudar.

Iria a formiga salvar sua amiga?

Primeiro, ela pegou um graveto e começou a dar pancadas no copo enquanto gritava seu sermão sobre o problema de virar copos e mais copos pra afogar as mágoas ou pra brindar. Mas a cigarra, que naquela situação nada ouvia do sermão, começou a implorar que a formiga parasse com aquelas pancadas barulhentas que doíam no ouvido.

Depois a formiga começou a cavar muito a terra a fim de fazer um buraco que ligasse o copo ao lado de fora. Mas a cigarra começou um choro muito agudo pedindo que a formiga deixasse aquele trabalho vão e apenas ficasse ali, ao lado do copo, fazendo companhia. A cigarra estava com muito medo.

O tempo foi passando e a formiga começou a desconfiar do que tinha feito a cigarra parar ali. Mas o vidro estava cada vez mais embaçado e o ambiente cada vez mais barulhento, por isso não conseguia perguntar. Não conseguiam se comunicar. O barulho repentino vinha de trovões.

Começou uma tempestade.

A formiga foi ficando desesperada. Enquanto as gotas de água caíam em seus olhos, a cigarra poeticamente começou a fazer carinho no copo. Esse carinho foi desembaçando o vidro, de maneira que agora os olhos de ambas podiam se encontrar. Num olhar certeiro, a cigarra mostrou que a formiga conseguiria entrar ali e escapar da tempestade.

Ela salvou sua amiga.

Vencida a tempestade, a formiga perguntou por que tanto medo, já que pela primeira vez a cigarra havia se precavido e se protegido de um perigo posterior. A cigarra novamente lançou um olhar certeiro que respondeu: eu temia por você.

13 de fevereiro de 2010

Avatar e a euforia religiosa

O filme Avatar trouxe muitas metáforas da realidade e muita euforia, inclusive euforia religiosa. Para muitos é surpreendente imaginar um povo que trate seus semelhantes como irmãos, cuide da natureza com respeito e responsabilidade e creia em um objetivo maior para tudo. Isso encanta todo mundo e parece uma utopia, mas não é. Isso existe, tal como no filme. São muitas as pessoas que religiosamente fazem tudo isso dentro de seu povinho em volta da árvore e à espera do pássaro. O problema não é esse. O problema é que logo em seguida muitas dessas pessoas se desligam de seu "avatar" temporário e voltam a ser humanas, terrestres.

8 de fevereiro de 2010

Suicídio da Inteligência

"Tão logo nos enfiamos mais seriamente em seus textos, começamos a sentir a mesma coisa de sempre, a inexplicável tentação de suicídio da inteligência por meio da própria inteligência. O escorpião cravando o seu ferrão, cansado de ser um escorpião, mas necessitando da escorpianidade para acabar com o escorpião. Em Madras ou em Heidelberg, o fundo da questão é sempre o mesmo: existe uma espécie de equívoco inefável no princípio dos princípios, de onde resulta este fenômeno que está falando a vocês neste momento, bem como vocês que estão escutando. Qualquer tentativa de explicá-lo fracassa totalmente por uma razão que qualquer um pode compreender: para definir e compreender, seria necessário estar fora do definido e do compreensível."

CORTÁZAR, Julio. In: O jogo da amarelinha