Por Amor

Talvez ambas, cigarra e formiga, nunca se toquem do quanto se amam.

Se soubessem, talvez a cigarra tentasse acordar todo dia na mesma madrugada, em plena escuridão do amanhecer, para ir lá, bocejante e desengonçada, tentar acompanhar a incessante marcha operária da outra em busca de folhas sem fim. Cumpriria o papel ridículo de saltitar em meio aos passos firmes e ligeiros de miúdas patinhas incansáveis, terminando a jornada entalada, em plena entrada do formigueiro, empacando o caminho das demais sem trazer uma mísera folhinha. Tudo por amor.

Sem contar que talvez a formiga abandonasse o trabalho da vida toda para ficar ensaiando músicas ao longo do dia, desafinando agudos incorrigíveis nas suas rimas pobres de amor e dor. Cumpriria o papel ridículo de questionar ao sol e à lua como, de repente, a outra deixou de procurá-la nos invernos esfomeantes, e terminaria expulsa do formigueiro e desamparada no frio da solidão. Tudo por amor.

Cada uma, pouco a pouco, deixaria de ser quem era: deixaria de ser amada. Simplesmente por tentar agradar. Simplesmente por pensar que amar é tornar-se a pessoa amada.

Ainda bem que, ao que tudo indica, nunca se tocarão do quanto se amam. Só assim, no mero ser quem são, poderão perpetuar esse amor tão singelo.

Comentários

  1. Ahh, muito gracinha!!!

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  2. Lindo. Acho que a melhor passagem é "Simplesmente por pensar que amar é tornar-se a pessoa amada". Acho que esse é um erro comum que as pessoas cometem.

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  3. Tocou profundamente. mesmo,mesmo.
    Que saudade, Vi!

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