5 de junho de 2010

Alice in Wonderland

Para mim, falar de Alice é falar de expectativas. Primeiro porque era grande minha expectativa pela estréia do filme - e ela foi quebrada de maneira surpreendente. Segundo porque julgo o tema "expectativa" o próprio fio condutor do enredo - muito bem construído, na minha opinião. Terceiro porque vivo um momento de grande expectativa - e nada mais natural do que usar a fantasia para lidar com minhas próprias questões subjetivas.

Por um lado, esperava que o filme fosse uma grande aventura empolgante. Decepcionei-me. O filme chega a ser monótono em alguns momentos e a tentativa de ao mesmo tempo agradar os fãs do Lewis Caroll, da Disney e do Tim Burton não parece ter sido tão bem sucedida. Ninguém é capaz de agradar a todos, nem mesmo um filme com Jhonny Depp.

Por outro lado, não esperava que o filme tivesse um enredo dos mais geniais. Surpreendi-me. O "país das maravilhas" de Alice é um "sonho" onde ela lida com todas as questões subjetivas que envolviam seu casamento armado: não-conformidade com os padrões da sociedade, saudades da infância e do falecido pai, indecisão quanto ao futuro e, principalmente, rebeldia contra essa expectativa que tinham dela.

Nesse grande "sonho", ela retoma minuciosamente cada uma dessas questões subjetivas. Assim, a inconstância de seu tamanho é o dilema da adolescente que de repente se vê adulta. O Coelho Branco é a ansiedade e o medo de atrasar para "seu" próprio futuro, conhecido por todos, menos por si-mesma. Os dois carinhas que anunciam sua missão de matar o temido dragão para salvar aquele mundo são as duas gêmeas que anunciam o casamento com o noivo imbecil para salvar financeiramente a família. A sogra autoritária que planeja todo o casamento é a ditadora Rainha de Copas. O bando de convidados fúteis são os paparicadores que seguem padrões ridículos de beleza só para serem socialmente bem-vistos. O Valete que trai a rainha e põe em descrédito o casamento de interesse é o genro que é pego traindo a irmã. A macabra rainha branca é a distante mãe, também esperançosa pelo ato heróico de Alice. O antigo sócio de seu pai é a estranha lagarta, eterno símbolo da metamorfose, que faz Alice se questionar sobre quem era e sobre quem poderia vir a ser. O saudoso pai, empreendedor que era visto como louco, é o Chapeleiro Maluco, o "protagonista" Jhonny Depp, único capaz de entender a garota. Aliás, é linda a cena em que Alice, no sonho, constrói uma despedida para (na minha opinião) seu pai, o Chapeleiro - despedida que não houve na vida real. E vai longe essa verdadeira mesa farta para os psicanalistas de plantão tomarem um chá.

Alice soluciona seu dilema trocando o ato heróico do casamento de interesse pela continuação do trabalho do pai, frustrando a expectativa de todos ao seu redor, inclusive dos espectadores. Sua decisão é um verdadeiro espelho de nossa época. Por um lado, porque reflete exatamente nossa sociedade que, cada vez mais, parece desacreditar na instituição "casamento" e acreditar na instituição "trabalho" como única forma de final feliz. Por outro lado, porque é totalmente o contrário de nossa sociedade, contraditória, que ainda tem as duas instituições como expectativa social muito forte em relação a nós.

Julgo o filme genial exatamente por jogar tão bem na nossa cara, em 3D, todas essas questões de tão difícil trato em relação ao amor, ao trabalho e à morte. É o melhor e mais realista efeito especial que poderia ter.

Tanto em seu defeito quanto em sua qualidade, o filme me fez pensar como é difícil agradar a todos e, principalmente, como é difícil agradar a nós mesmos se não sabemos o que queremos, quem somos e quem podemos ser. Antes de corrermos ansiosos atrás do Coelho Branco da formatura, do novo trabalho e de quaisquer outras expectativas nossas ou alheias, talvez seja bom parar diante de uma lagarta e questionar o sentido de tudo isso. E só assim, tendo claro o que esperam de nós e o que queremos, "ser donzela ou matar mil dragões, ter cautela ou seguir furacões".

10 comentários:

  1. Excelente texto e muito profundo! Partilho de diversas opiniões suas e gostei muito na sua análise. Acho que todos nós temos um modo de lidar com o "desconhecido" e esse é o modo que ela encontrou.

    ResponderExcluir
  2. Amei, Vi! Fiquei um pouco decepcionada com o filme e concordo quando você diz que é impossível agradar aos fãs do Lewis Caroll, da Disney e do Tim Burtom (mesmo num filme com Johnny Depp - e olha que eou eu, hein?! rsrs!) Mas analisando alguns pontos que você descreve no texto, vejo que você reiterou o que eu pensava sobre alguns (ainda que poucos) pontos fortes do filme... Embora não tenha achado o filme genial nem por jogar certas coisas nas nossas caras! rsrs Muito bem escrito!!!

    ResponderExcluir
  3. Ai, que vontade de assistir! Eu sou a única pessoa do mundo que ainda não viu! Ao que parece, vou me identificar, porque também tive que virar adulta de uma hora pra outra, depois da morte do meu pai. Sei como é difícil essa passagem! Parabéns pelo texto claro e delicioso - com sempre! Inté!

    ResponderExcluir
  4. hum...

    Bom texto e boa análise, mas, sinceramente, não gostei do enredo desse filme. Achei o começo forçado demais...rs

    abraço!

    ResponderExcluir
  5. Eu também ainda não fui assistir Alice!
    Mas também estou na expectativa, e mesmo lendo esse texto contando o final (rss), eu ainda estou super afim de conferir!
    Porque acho que também estou nessa fase, de tentar agradar a todos, e ser cobrada por algo que as vezes eu mesma nem sei se quero, enfim... todas essas questões que querendo ou não são tratadas com genialidade nessa história.
    ps. excelente análise! =)

    ResponderExcluir
  6. Ótimo texto, cara! Mesmo!
    Eu não me decepcionei com o filme pois já esperava algo diferente de tudo que já tinha sido criado dentro do mundo de Alice.

    Já estou seguindo e se quiser fazer alguma parceria... é só deixar um comentário!

    Abraço.



    ___________________________________
    O bom e velho clichê!
    http://obomevelhocliche.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  7. Caro Vinícius Cássio Barqueiro,

    O filme é mais genial contado da maneira como o fez do que na assistido na tela do cinema com uns óculos bizarros.

    A sua análise é poderosa e pertinente, porque chama a atenção para dimensões endógenas dos enredos que nem sempre são devidamente digeridas ou percepcionadas pelo público.

    Este filme, se for visto apenas pela sua história e pelo facto de ser 3D, não tem é brilhante. Entretém com cores e efeitos, mas não faltam filmes a fazerem isso.

    O que de facto o distingue é a metáfora, mas essa precisa de ser trabalhada e divulgada. Dou-lhe os meus parabéns por esta divulgação, está brilhante!

    Votos de sucesso,

    Marcelo Melo
    www.3vial.blogspot.com

    ResponderExcluir
  8. Oi! Tem um selo pra você no meu blog: http://goiabadacomtijolo.blogspot.com/2010/06/selo-sunshine-award.html

    ResponderExcluir
  9. acho que não verei o filme! sua análise me deixou feliz! não quero me decepcionar =]

    ResponderExcluir
  10. Vini, o teu texto está lindo e a maneira como você percebeu o filme é de muita sensibilidade e perspicácia. Porém, o meu problema com Alice é exatamente esta necessidade de agradar a todos, crianças, adultos, fãs da Disney, entusiastas do 3D... Acredito que a mensagem principal do filme se perdeu no meio da necessidade de criar um blockbuster, infelizmente...

    Bjos ;)

    ResponderExcluir