Aprendizado

Foi naquele dia que se apaixonou. Sua vida mudou para sempre.

Depois de percorrer os corredores da biblioteca municipal e redescobrir aquele velho livro, a primeira grande leitura da sua vida, voltou para a mesa e começou a ler um texto qualquer.

Foi nessa hora que sentiu a presença. Que olhos! Ali, na sua frente. Olhos grandes, vibrantes, carentes. Sentiu um arrepio, mas deixou pra lá e falou um oi desconfiado e muito simpático. Não ouviu resposta.

O que ouviu, pouco depois, foi a pergunta de olha meu material? Automaticamente respondeu claro, até já, mas foi muito surpresa ver como aqueles olhos brilharam uma gratidão infinita! Tremeu. Como se fugisse do deslumbre, começou a olhar para qualquer lugar antes de olhar de fato para aquele material. Um gibi e um livrinho muito ilustrado e muito infantil. Quando os olhos voltaram, ouviu um agradecimento muito tímido e gaguejou um de nada muito encantado. Tudo muito.

Era impossível ler o texto qualquer sem se deixar levar pelas gargalhadas que aqueles olhos riam com o gibi, absorvidos naquele mundo mágico. Tanto que desistiu e começou a guardar suas coisas, tentando não atrapalhar aquela alegria. Na verdade, queria fugir.

Quando estava saindo, ouviu a doce pergunta de o que você estuda? Timidamente explicou que estudava letras e disse que não, ainda não sabia se iria ser professor. Ambos sem graça, muito cúmplices. Em seguida perguntou o que a criança gostaria de estudar. Ela respondeu que também não sabia se conseguiria, mas que queria ser alguém na vida. Palavras tão melancólicas. O rapaz disse ah, então é bom estudar, né, mas a criança fez um silêncio fúnebre ao dizer eu, não sei, ler direito. A professora, diz que eu, não sei colocar, as vírgulas, no lugar certo. Minha mãe, manda eu estudar aqui, pra ser alguém na vida. A garoa da janela encharcava os olhos dos dois. Os olhos mais carentes do mundo.

De repente estava ali contando para a criança que as vírgulas eram o de menos! A criança devorava cada palavra que o rapaz dizia. Ambos empolgados. Quatorze anos? Ah, era coincidência demais! Correu na prateleira e pegou aquele velho livro, a primeira grande leitura da sua vida, e começou a contar a história. E contar mais e mais! Os olhos infantis flamejavam alegria e gratidão. Seus olhos também. O destino de ambos ficava mais claro, mais possível.

Até que deu a hora. Dessa vez não era fuga. O rapaz praticamente acordou daquele acontecimento mágico e, novamente um pouco tímido, falou ah, leva o livrinho ilustrado mesmo, e depois, né, quando se sentir capaz, pega o velho livro do qual conversamos. É mais difícil. Mas a criança, muito decidida, falou não, vou levar este mesmo! Se eu, não conseguir, ler logo, eu posso renovar! Ambos sorriram uma gratidão infinita e seguiram seu destino. Tinham aprendido que o mais difícil valia a pena.

Era impossível continuar fugindo. Sua vida mudou para sempre.

Comentários

  1. ah.. =') o que faz a vida ser menos dura.

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  2. A gnt acaba de ler esse conto com o mesmo sorriso infantil que o começou a escrever. Sabe quando a gnt é pequeno, e vê uma lagarta listrada?

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  3. Muito bonito. E veio numa hora tão engraçada! Gostei mesmo! Tenho a impressão que para os que vão ser professores em breve, significa um pouquinho mais.

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  4. primeira vez que visito o blog, adorei o texto.

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  5. Nos pequenos enxergamos a extensão de nós mesmos quando não somos muito cegos para olhá-los com a alma. Lindo texto! Mudou a dinâmica do meu dia! Se tiver tempo, faça-me uma visita em rumoaescrita.blogspot.com. Um abraço sincero, Deia

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  6. Que bonito!
    Algo que impulsiona a continuar...

    Abraços!

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  7. Minha primeira vez nesse blog, e já com um texto de impacto, muito bom mesmo!
    Parabéns!
    Meu cantinho está às ordens, passa lá pra tomar um café...rsrsrs
    Abraços.

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