31 de dezembro de 2010

Ano que foi, ano que vem

Ainda não me acostumei a escrever texto de passagem de ano.

Poderia listar grandes acontecimentos ocorridos, como meu término de relacionamento de mais de dois anos com a Fundap, meu antigo emprego, lugar onde cresci demais em todos os sentidos e que me abriu diversas portas. Lugar que deixou saudade.

Ainda falando em saudade, poderia escrever sobre a volta de ma petite Juliana, de como seu intercâmbio foi uma experiência enriquecedora para nós dois e de como, mesmo longe, mantivemo-nos próximos, juntinhos, caminhando a passos vagarosos e firmes, lado a lado, nesse caminho abençoado e maravilhoso. De como, agora já com mais de dois anos de namoro, o respeito e a ternura continuam nos guiando, e de como ainda me surpreendo com cada qualidade julianística que vai se revelando no simples, no dia-a-dia, no cotidiano. Do quanto ela, Juliana, é uma espécie de luz que me faz enxergar, como num susto, a felicidade.

Falando em sustos, poderia escrever sobre o baita susto que meu amigo Rafael deu em todos nós, e da alegria em saber da minha amiga Camila, pouco tempo depois da operação, que ele já estava bem, lúcido e reclamão como sempre, rs. Poderia falar do quanto a amizade e o incentivo deles e de tantos outros foram importantes para muitas das conquistas desse ano findante e do ano que se aproxima, dentre elas a publicação em livro do conto inédito "Menino no Céu ou A Hora da Escolha", prevista para maio do ano que vem, e a possibilidade cada vez mais concreta de mestrado. Sem o incentivo deles isso absolutamente não seria possível.

Seria inevitável também não mencionar todo o incentivo de minha família, tão admirada e amada. Meus pais, sempre com conselhos edificantes e fortes, ensinando não apenas com palavras, mas principalmente com o exemplo. Admiro demais o quanto são talentosos e esforçados. Esforçados até demais, como quando tentam me ensinar como funciona um automóvel ou como cozinhar decentemente. Fico feliz ao ver todos os projetos que minha mãe desenvolve. Fico feliz ao ver meu pai voltar a estudar. Fico feliz - e assustado - ao ver minha irmãzinha já uma moça tão bonita e inteligente; embora, para "decepção" de seu irmão mais velho, tenha renegado as Crônicas de Nárnia que sempre incentivei com tanto carinho para ficar envolta o dia inteiro nessa coisa de saga Crepúsculo, rs. Embora todos eles não entendam pra quê ler tanto de madrugada ou por que diabos ficar estudando Letras por cinco anos.

Aliás, poderia comemorar por finalmente ser formado bacharel em Letras - Português e Linguística, embora isso acarrete uma já prenunciada saudade de tantos amigos queridos, muitos dos quais me aproximei ainda mais nesse ano e que estarão comigo, jajá, na praia!, comemorando a formatura e mais um início de ano. Já que não pudemos comemorar juntos a vitória da Copa do Mundo.

Poderia escrever da intensa satisfação em dar aulas e da confirmação, cada vez mais clara, que é disso que eu gosto, embora essa missão traga outra meio assustadora: a dificuldade em arranjar dinheiro, rs. Poderia dizer que que nesse ano solidifiquei algumas metas e planos para os anos seguintes, com as quais tenho sonhado e para as quais tenho me preparado. Muitas dessas metas exigem dinheiro, sim, mas a principal, embora difícil, é exatamente a de não fazer de minha vida uma escravidão ao famigerado. Espero seguir firme e forte.

Além de dar aulas, vivi muitas outras paixões. Voltei a algumas, como o estudo de Violão com meu amigo Gagui e o estudo de inglês e francês, e ganhei outra outrora inimaginável: a paixão em dirigir! Também apaixonei-me por alguns filmes muito bons que merecem uma postagem própria! e apaixonei-me por muitas bandas e discos, com destaque para o disco "Música de Brinquedo" do sempre bom Pato Fu. Redescobri minha paixão por alguns escritores como Clarice e Saramago, e deixei aflorar a paixão por outros outrora desconhecidos, como Maria Judite de Carvalho. Escritores que me inspiram a, teimosamente, continuar a escrever, tais como meus amigos Acacio Batista, Ana Carolina, Dayane Okipney e tantas outros, pessoas doces e talentosas a quem admiro e que, como se não bastasse, são leitores construtivos e escrevem bem pacas! Pessoas muito queridas.

Em suma, poderia escrever tudo isso e concluir dizendo - de modo semelhante ao provável discurso da nossa nova presidenta Dilma - que espero para o ano que vem que tantas mudanças positivas continuem acontecendo. Mas sinto que essas palavras não são suficientes para demonstrar toda minha gratidão por mais esse ano e toda minha esperança para o ano seguinte. Sinto que as palavras que escrevi até aqui não bastam. Por isso, espero continuar vivendo e escrevendo, compartilhando com cada pessoa próxima e querida minhas alegrias e sonhos. Quem sabe, ano que vem, eu esteja melhor nisso?

Que Deus continue abençoando todos os nossos planos e sonhos, sendo alvo de toda honra e gratidão. E que o próximo ano seja cheio de paz, alegrias, conquistas e crescimento, tal como esse que acaba aqui. Ótimo início de ano a todos!

Para ser conciso

Para ser conciso, é preciso escrever muito.

4 de dezembro de 2010

Por Amor

Talvez ambas, cigarra e formiga, nunca se toquem do quanto se amam.

Se soubessem, talvez a cigarra tentasse acordar todo dia na mesma madrugada, em plena escuridão do amanhecer, para ir lá, bocejante e desengonçada, tentar acompanhar a incessante marcha operária da outra em busca de folhas sem fim. Cumpriria o papel ridículo de saltitar em meio aos passos firmes e ligeiros de miúdas patinhas incansáveis, terminando a jornada entalada, em plena entrada do formigueiro, empacando o caminho das demais sem trazer uma mísera folhinha. Tudo por amor.

Sem contar que talvez a formiga abandonasse o trabalho da vida toda para ficar ensaiando músicas ao longo do dia, desafinando agudos incorrigíveis nas suas rimas pobres de amor e dor. Cumpriria o papel ridículo de questionar ao sol e à lua como, de repente, a outra deixou de procurá-la nos invernos esfomeantes, e terminaria expulsa do formigueiro e desamparada no frio da solidão. Tudo por amor.

Cada uma, pouco a pouco, deixaria de ser quem era: deixaria de ser amada. Simplesmente por tentar agradar. Simplesmente por pensar que amar é tornar-se a pessoa amada.

Ainda bem que, ao que tudo indica, nunca se tocarão do quanto se amam. Só assim, no mero ser quem são, poderão perpetuar esse amor tão singelo.

4 de novembro de 2010

Caminhada

Vinícius e Juliana caminhando no Parc de la Tête d'Or, em Lyon. Foto tirada por alguma amiga querida.

Acerta quem diz que o melhor do caminho é a própria caminhada.

Em um caminho campestre, por exemplo, é realmente indispensável saber apreciar o perfume das flores, o canto dos pássaros, a imponência delicada das árvores frondosas. Indispensável viver o presente, colher o dia, não apenas saudosar verões ou projetar invernos. Sobretudo quando tal caminhada é metáfora do amor.

Erra, no entanto, quem esquece que o caminho só existe quando leva de um lugar a outro. Que o caminho leva tempo. Afinal, não fossem um ponto de partida e um ponto de chegada, nem haveria caminho; bem como, não fosse o tempo, nem haveria pássaros, flores, árvores.

É impossível colher um dia não plantado.

Há quem defenda a total falta de perspectiva, um simples ir-levando, e a esses resta um mero vagar, não a caminhada em sentido pleno. Resta um vagar como a folha que o outono seca e leva, não a alegria primaveril das flores ao sol diário, os laços íntimos dos pássaros nos ninhos e nas nuvens, as raízes e frutos das sábias árvores. Resta a passividade de ser levado pelo vento, não a liberdade de curtir a brisa com os pés-no-chão.

De fato, não só de primaveras vivem flores, pássaros, árvores; mas é gritante como parte do fascínio que despertam está na corajosa força com que vencem invernos e, cheios de delicada ternura, desabrocham, aprendem a voar, frutificam. Admirá-los ao longo do caminho, afinal, nada mais é do que reconhecer tal verdade. Mais que isso: reconhecer-se como parte integrante dessa verdade, partilhando a força e a suavidade do tipo de passo que o amor exige: "paciente e natural em cada dia, profundo e ao mesmo tempo aéreo, verde e simples".

Acerta quem diz que o melhor do caminho é a própria caminhada, mas acerta ainda mais quem, diante disso, simplesmente caminha.

Com cautela e carinho, passo-a-passo, colhendo e plantando cada dia. Projetando, sim, possíveis pontos de chegada. E sabendo rememorar, com muita alegria e gratidão, o ponto de partida. Em nosso caso, aquele inesquecível fim de tarde primaveril há exatos dois anos: primeiro passo dentre tantos que, graças a Deus, vieram e hão de vir nessa caminhada tão maravilhosa. Linda e delicada como uma flor, livre e alegre como um pássaro, forte e frutífera como uma árvore.

deux anées avec ma chèrie

30 de outubro de 2010

Os gêneros breves

"Os gêneros breves, quando bem praticados, exigem mais que os exaustivos, tanto de quem os comete como de quem os lê. Um aforismo, isto é, duas ou três linhas de pensamento concentrado, dá ao bom leitor mais trabalho que muitas e muitas páginas de prosa corrida. Justamente porque o interesse de quem o escreve é de que o leitor faça por si todo o caminho feito por ele até a fórmula. Um aforismo começa a ser lido depois que se o lê. Já na prosa mais pormenorizada, ao contrário, tudo está lá. Acabada a leitura, resta a impressão. Engana-se por isso quem a julga mais pesada. Ao fim de um dia, alguém cansado não há de se aproximar, prioritariamente, de um Lichtenberg, mas de um romancista ou um ensaísta qualquer, sob pena de não tirar proveito algum do que vai lendo. Outro engano: o de imaginá-la mais demorada. Inversamente, cem páginas de bons fragmentos demandam, além de mais empenho, muito mais tempo do que, digamos, cem páginas de um contorcido Proust. Porque cada frase de um aforista genuíno, sendo independente das demais, exige para si atenção exclusiva, enquanto, em outros escritores, algumas dezenas de páginas servem, por acúmulo, à construção de uma única idéia (um único painel) a ser considerado — páginas e mais páginas e mais páginas para que afinal se saiba que a coisa é realmente conforme já se havia dito na primeira."

NAGEL, G. "Os gêneros breves". In: Lado "b" da minha mente.

24 de outubro de 2010

Sobre Política e Religião (resposta de Mayra Lourenço)

por Mayra Lourenço, em resposta ao texto "Sobre Política e Religião"

"Olá!

Não tenho a mesma capacidade retórica do autor deste belíssimo texto, tampouco tenho o domínio das letras como seus colegas e meu estimado futuro esposo, mas creio que poderei contribuir para o debate com minhas perdidas e alongadas reflexões históricas. Como todo historiador, comecemos por separar as frutas colocando cada qual em sua cesta, para que possamos compreender as suas especificidades; atentarmos a cada cor e sabor para que, posteriormente, possamos ajuntar tudo e fazer uma bela salada de frutas, sabendo qual a importância de cada amora ou maçã dentro dessa imensa tigela; notando qual é mais doce ou amarga e qual a composição exata de cada elemento para elaborar a receita com o gosto perfeito.

Então vamos aos morangos: creio que não podemos colocar no mesmo pote idéias tão distintas, comecemos a descascar as frutas. Socialismo, anarquismo e capitalismo são diferentes modelos de sistema político e econômico. Cada um destes pressupostos teóricos discute a forma que o Estado deve ser organizado e quais elementos e maneiras o homem deve se valer para produzir e reproduzir os artigos de que tem necessidade. Ao se autodenominar socialista, não se está proferindo apenas uma crença em justiça baseada em uma entidade abstrata, ideal e superior. Parto de pressupostos concretos, discutindo científica e racionalmente a forma como o Estado poderia estar organizado, bem como critico a forma encontrada contemporaneamente. Portanto, é absolutamente possível discutir socialismo em uma sociedade capitalista, pois trata-se de um debate relacionado a uma determinada ordem específica de organização social. Ambos tratam de matérias semelhantes: de como deve ou está estruturada determinada sociedade em suas características econômicas e políticas.

Agora às maçãs: concordo plenamente que a religião é um campo que deve ser discutido, na medida em que é parte constituinte e constituidora da sociedade ao atribuir modos de reflexão e conduta dos seres responsáveis pela construção da história. A visão de Eva e Maria influencia até hoje o modo como a mulher é vista na sociedade: de um lado a mulher que destruiu a humanidade pelo seu desejo, de outro o ideal de mulher bela, calma e submissa. Deve-se destacar, também, a importância do ideal de solidariedade e amor ao próximo que salva e salvou tantas vidas no decorrer das últimas centenas de anos. A constituição dos dogmas da igreja é dinâmica e passa por vários processos de transformação, como a criação oficial do purgatório (séc XII) e a extinção do Limbo (séc. XX) no catolicismo, exemplos da historicidade desta instituição; ou a reforma de Lutero que temeu o clamor das massas, ficando sob a asa dos príncipes alemães. Acho que me perdi nas sementes, voltemos à polpa. A religião pode e deve ser discutida em seus aspectos sociais e políticos, como definidora de normas e ações sociais, mas o caráter dogmático deve ficar circunscrito ao ambiente privado, aí sim entra a tradicional justificativa, caro leitor: o Estado é laico sim e não deve basear suas normas em princípios alicerçados na crença pessoal: o deus dos cristãos não é o deus do budista e do ateu, mesmo porque estes não acreditam em Deus.

Posto isto, encaminhemos para a seleção das framboesas. A argumentação do texto ao qual me baseio para produzir esta resposta remete sempre ao conceito de democracia, mas o que será isso? Como não posso, tampouco consigo negar minha formação, vamos à história, voltemo-nos aos gregos que foram os que primeiro cunharam o termo. O conceito tratado aqui diz respeito ao governo das demos criado por Clístenes. Nesta ordem política, a sociedade ateniense foi reorganizada em pequenas unidades e, a partir destas, havia as seleções para participar das instituições públicas. Com este novo regime, a participação nas esferas estatais era permitida a todos os cidadãos; o problema é que este grupo correspondia a apenas 10% da população, na medida em que as mulheres, os escravos e os metecos eram impedidos de participar. A democracia, na sua origem, portanto, não quer dizer governo e voz para todos. Vamos cortar logo esta fruta se não perderei toda a salada: correrei com os acontecimentos. Como se sabe, o período clássico foi substituído pelo helenístico, os gregos dominados pelos Romanos, estes derrubados pelos germânicos que, por sua vez, contribuíram para formar o sistema político, econômico e social chamado de feudalismo, durante a Idade Média e, finalmente, com a desagregação do sistema feudal, surgem as monarquias nacionais e o Antigo Regime. Perdi o fôlego e quase faço um suco. Cheguemos ao ponto: o marco definidor da contemporaneidade e responsável pela derrubada do sistema vigente no século XVIII foi, como é do conhecimento de todos, a Revolução Francesa. Este processo foi alimentado pelos ideais iluministas, que por sua vez reelaboram a idéia de democracia. Neste grupo de intelectuais que se diziam dotados da luz para combater a escuridão do misticismo gestou-se a concepção da participação popular, da educação pública e gratuita e da exaltação da racionalidade humana como ponto fundamental da essência humana E divina. Neste mesmo processo foi produzida, além das citadas, outra idéia presente em nossa carta constitucional: a concepção do Estado Laico, no qual as normas de um determinado corpo político devem ser baseadas no que a razão humana pode abarcar, relegando a crença a esfera particular.

Como já estou me alongando demais, terminemos logo a framboesa para seguimos às amoras. Dentro das concepções iluministas proclamadas e instituídas pela ação revolucionária e contra-revolucionária encontramos diferentes concepções de Estado, como a de Voltaire, que defendia uma monarquia constitucional (e disse que defenderia até a morte o direito de falar, mesmo que não concordasse, mas provavelmente um sans cullotes não o teve como advogado) e como a de Rousseau, que proclamava a soberania popular e o fim da propriedade privada. Mas porque esta última idéia não vingou? Ora, a Revolução Francesa significou o triunfo do ideal burguês, é o capitalismo no topo da montanha-russa (russa?). Pois é, caríssimos: individualismo, exploração do trabalho e ditadura da maioria: eis as partes constituintes do que apaixonadamente chamamos de democracia. É, simplesmente, um regime que pretende a igualdade tratando da mesma forma o que a priori é diferente; em outras palavras, faz parte do sistema democrático que uma idéia se sobreponha a outra, afinal, democracia é a ditadura da maioria, ou melhor, da minoria que fica com o que é da maioria. Proclama-se a democracia como se fosse sinônimo de igualdade; se assim o for vivemos em qualquer outro regime, e não o democrático.

Não estou defendendo a instauração de um estado ditatorial ou acho que as opiniões divergentes devem se calar. Relaxem; não sou stalinista, mas critico a democracia. O que quero dizer é que o Estado laico é pressuposto da democracia, da ordem política gestada durante a R. F. e incorporada a nossa carta constitucional. Liberdade de associação e idéias? Sim. Pode-se organizar igrejas, quantas e da forma que quiserem! Fale e discuta o que puder. A lei permite que a religião deva ser debatida: todo cidadão tem o direito de se manifestar e proferir suas crenças!

Entretanto, o Estado está alicerçado na ordem racional e não na crença. Portanto, o que é considerado particular não pode se valer para o geral, a crença em Deus é individual, não pode ser considerada um princípio social comum.

Ora, basear uma ordem institucional estatal na justificativa de que Deus não quer ou não prega que se faça o aborto é o mesmo que procurar controlar o desmatamento com a justificativa de que os duendes e gnomos estão sendo massacrados. O foco aqui não é decidir entre a verdade e a falácia destas duas proposições ou dos pressupostos religiosos, mas trata-se de evidenciar que as bases de edificação da ordem administrativa se dão a partir daquilo que se pode comprovar, já que foi constituída a partir da filosofia grega retomada pelos iluministas, do caráter investigativo: abortar pode ser proibido se se atentar contra a vida, já que esta é uma garantia suprema da constituição, ou a devastação deve ser evitada pois implica na perda vegetal e processo de aquecimento do planeta, prejudicando os biomas terrestres.

Agora às cerejas! Partindo deste pressuposto, poderíamos pensar que o Estado deveria ser a representação dos anseios e expectativas dos seus habitantes, na medida em que é parte e objeto de determinado meio social. Se a maioria dos brasileiros é cristã, por que não adotar o princípio religioso como definidor das ações governamentais? Entretanto, no Irã se fala de religião no Estado e trata-se de uma ditadura. No regime autocrático brasileiro a Igreja Católica foi a primeira a querer chutar o Jango. E dizem que é na ditadura que a religião não tem vez?

Poderíamos até fazer como no Oriente Médio: juntar política e religião e elaborar um estado teocrático, mas para isso teria de se rasgar a lei máxima: só fazendo uma revolução! “Aux armes citoyens! Formez vos bataillons!”

Hora de misturar:

Chegou a hora de misturar as frutas e fazer, finalmente, a salada. Falar de socialismo não é o mesmo que falar de Deus ou de crenças religiosas, pois se trata de matérias diversas. Discutir socialismo no capitalismo significa debater no campo político e social, elaborando uma reflexão sobre a mesma matéria. O regime democrático não pressupõe igualdade tampouco se fundamenta na ordem de tudo fazer e poder; assim pode-se discutir religião, mas esta deve resguardar-se ao campo da opinião e da crença, sendo impossibilitada sua utilização para pensar as normas e pressupostos estatais. A idéia de estado laico, portanto, gestada junto com a idéia de democracia, corresponde a ascensão da racionalidade e da ciência como fundamento das instituições políticas. Pensar outro estado é possível? Sim. Na verdade acredito que a crítica não deve se voltar a religião, tampouco é culpa de duas ou mais pessoas que participam do jogo político e fazem tudo para vencer. O problema ao qual estamos expostos é a própria estrutura democrática que permite que uma disputa política esvazie a complexidade social, escondendo os problemas sociais de classe e trazendo para o centro do debate uma questão particular que deve ser respeitada e, repito, mantida no âmbito privado.

A democracia não nos representa, não atende aos anseios e necessidades do grupo social que a compõe. Ora, para que serve o Estado? Para atender a sua população? Qual grupo social? Tal qual está organizado, representa os interesses dos grandes capitalistas e senhores de terras. A minoria mandando na maioria. Mudar? Não sei! Pensar? Talvez. Já diria o escritor, só há prática revolucionária com consciência revolucionária.

No final, excluindo as maçãs, produzimos uma bela salada de frutas vermelhas!

Ops! Cadê a faca? Alguém pegou?"

Mayra Lourenço é historiadora, pretensa marxista, educadora, filha da Elayr, esposa do Acácio, dona do falecido Strike e amiga de um monte de “uspianos” que fazem letras.

16 de outubro de 2010

Sobre Política e Religião

Em face dos atuais discursos vazios de nossos presidenciáveis, os quais ignoram qualquer senso crítico ou coerência e visam apenas agradar a grande maioria da população, penso que seria contraditório da minha parte criticar tal postura por meio de textos que visassem apenas agradar a grande maioria de vocês, amigos leitores. É por isso que apresento a seguir algumas idéias soltas; talvez bem polêmicas, mas certamente não-vazias. Haverá quem possa dizer que são apenas brincadeiras forçadas de lógica e retórica, mas haverá também quem saiba descascá-las e espremê-las de maneira que rendam um suco forte, saudável e refrescante.

1. Dizer que questões religiosas não podem entrar em pauta porque o Estado é laico é tão infundado quanto dizer que questões socialistas não podem entrar em pauta porque o Estado é capitalista. Uma coisa é não concordar com a religião ou com o socialismo; outra coisa é querer impedir que o povo e os candidatos discutam tais questões. Uma coisa é não concordar com o que uma pessoa diz; outra coisa é não defender até à morte o seu direito de dizer. Uma coisa é democracia; outra coisa é ditadura. Apenas em ditaduras não se permite falar de religião. A mesma Constituição Federal que afirma que o Estado é laico também afirma que todo cidadão tem direito, desde que respeitados os direitos alheios, à livre expressão de suas opiniões e ao livre exercício de suas crenças.

2. Em princípio, não se pode condenar quem faz campanha por meio de questões religiosas, pois o candidato que assim faz está exercendo seus direitos democráticos. Quem critica tal cidadão, alegando que o Estado é laico, critica a própria democracia. Não é porque o Estado é laico que se pode criticar a postura dos presidenciáveis; na verdade, pode-se (e é justo) criticá-los porque o Estado é democrático e, por isso, garante a todo cidadão o direito à livre expressão de suas opiniões, sejam elas favoráveis e contrárias ao estado atual das coisas. Sejam elas religiosas ou não.

3. O mesmo Estado democrático que garante aos presidenciáveis o direito de apelar para questões religiosas é, portanto, o Estado que garante ao cidadão repudiar tal postura dos candidatos, seja por meio da livre expressão de opinião, seja por meio do voto. Nesse sentido, não é descabido constatar que a apelação religiosa de Dilma e Serra tem por objetivo exclusivamente uma coisa: o voto. O problema, assim, não está nas questões religiosas em si, mas na deturpação que fazem delas, utilizando-as como trampolim ao poder. Mais do que isso, o problema está na extrema idiotice da parte de qualquer religioso que acredita nas retóricas dos presidenciáveis e de qualquer outro interesseiro. Repita-se: o problema não está em acreditar em um Deus; está em acreditar nos interesseiros que o utilizam com fins gananciosos, tanto nos púlpitos de igrejas quanto nos palanques políticos.

4. Condenar a religião por causa da lamentável postura de interesseiros é como condenar uma faca de cozinha utilizada em um assassinato a facadas; é sentenciar que a faca de cozinha deve ser presa enquanto o verdadeiro assassino fica impune. Quem defende a distância entre religião e Estado é tão prudente e maduro quanto quem deixa uma faca de cozinha fora do alcance de uma criança ou de um louco. Quem se deixa levar pelo discurso vazio dos presidenciáveis é tão inconsequente e infantil quanto um adulto que pega a faca do armário, dá para uma criança e diz: "corta o titio, corta". E quem diz que a facada é culpa da faca de cozinha é tão inconsequente e infantil quanto o louco que a dá na mão de uma criança.

5. A tática dos presidenciáveis se adapta à realidade; ou seja, os candidatos só têm apelado à religião porque há quem cai neste apelo. Isso não significa que todos os religiosos caem nela, tampouco que o problema está na religião. O problema está nos tolos influenciáveis e nos mercenários aproveitadores. Só existem mercenários aproveitadores porque existem tolos influenciáveis. Uma coisa vem antes da outra. A necessidade de leis como a "ficha limpa" é um exemplo disso, pois se não houvesse quem votasse em maus candidatos, não seria necessário proibir que se candidatassem. A existência de quaisquer leis em nosso Estado indica que algum dia se concluiu que é bom que sejam cumpridas, tal como a emergência do debate sobre questões religiosas indica que é bom que sejam debatidas. Nem impostas, nem excluídas: debatidas.

6. Por mais que o Estado seja laico, os religiosos têm todo o direito democrático de reivindicar dos políticos suas crenças, tal como os ateus, os socialistas, quaisquer outros. Mesmo quem não concorda com essas crenças colocadas em debate não pode discordar do direito de serem debatidas. O uso mercenário de questões religiosas não significa que essas questões sejam mercenárias, tampouco que mereçam nojo. Quem merece nojo são todos os mercenários - políticos ou religiosos - que usam inconsequentemente a religião, instrumento tão comum, necessário e cortante quanto uma faca de cozinha. 

7. Quem vota na Dilma porque acredita que Serra é um mal-maior não necessariamente compartilha de toda a pauta política dela; do mesmo modo que alguém religioso não necessariamente compartilha dos abusos que, infelizmente, existem em algumas igrejas. Condenar a religião e todos os religiosos por causa da triste campanha que temos assistido é não apenas sentenciar a prisão da faca de cozinha, mas sentenciar também a prisão de todos os adultos, apenas por causa de uns poucos que deram a faca na mão da criança. Prisão rima muito com ditadura.

8. Em um Estado laico e democrático, é incoerente que se condene a religião ou todos os religiosos por conta das atrocidades cometidas por alguns mercenários. Mais do que incoerente, é inaceitável que um religioso lúcido, que detém a faca da religião nas mãos, faça a loucura de entregá-la a tais cretinos. Fazer isso, repita-se, é dar a faca para uma criança e dizer: "corta o titio, corta". Pode ser que a facada corte um dedo; pode ser que a facada serre o pulso. Caso a situação já tenha chegado a tal ponto, deve-se pensar: apesar da dor, é possível viver com apenas nove dedos. E quanto ao pulso?

3 de outubro de 2010

O Grande Herói do Povo

(conto infantil, a ser ilustrado)

Era uma vez o Grande Herói do Povo.

Ele empenhava toda sua vida na luta contra a Injustiça. Caçava bandidos perigosos. Enfrentava monstros poderosos. Protegia os fracos e indefesos. Todos amavam o Grande Herói do Povo.

Um dia o Grande Herói do Povo matou a Injustiça! Prendeu todos os bandidos perigosos! Dominou todos os monstros poderosos! Deu segurança a todos os fracos e indefesos! Foi uma vitória fantástica! Todos comemoraram aquela vitória!

Mas a festa durou pouco tempo. De repente, o Povo parou de amar nosso Grande Herói.

Todos os fracos e indefesos começaram a reclamar: Você não é mais o mesmo! Você não luta mais contra a Injustiça! Você não caça mais bandidos perigosos! Você não enfrenta mais monstros poderosos! Queremos outro Grande Herói.

Enquanto o povo reclamava, a Injustiça ressuscitou. Ela estava ainda maior e mais forte. Virou a Grande Injustiça do Povo.

Foi assim que nosso Grande Herói perdeu a luta contra a Injustiça. Ninguém viveu feliz para sempre. Mas o Povo estava feliz assim.

11 de setembro de 2010

Contraditório Prazer

Como bom taboanense-paulistano, confesso que sinto um contraditório prazer em estar sufocado de trabalho. Minha louca ocupação é como o ar dessa metrópole, que ao mesmo tempo dá a vida e acaba com a saúde. Minha falta de fôlego é como um combustível: me faz correr ainda mais em busca de um suspiro aliviado, de uma parada para encher o tanque e retomar a estrada poluída. Toda busca por dinheiro custa caro. E em meio a tudo isso, pois, eis minha falta de tempo para o blog, servindo de inspiração, profunda, para eu nele escrever após tanto tempo sem tempo. Mesmo que isso me custe um bocado de tosse e de olhos ardentes.

21 de agosto de 2010

Arte Pós-Moderna

Após muita insistência, a cigarra conseguiu convencer a formiga a acompanhá-la na aula de arte cigarral.

Chegaram ao local, repleto de cigarras-artistas, e logo ouviram a professora-cigarra bradar:

- Vamos fazer arte pós-moderna, cigarrinhas! Inovem! Rompam paradigmas! Fujam de qualquer lugar comum!

Como num passe de mágica, todas as cigarras começaram a pintar cubismos, surrealismos, abstratismos e toda forma de arte fragmentária, descontínua e perturbadora. Formavam ali uma grande orquestra regida pela clave da dissonância.

Enquanto isso, a formiga pintava detalhadamente a paisagem cotidiana, colorindo minuciosamente toda sorte de grãos terreais, folhas crocantes, pedregulhos montanhosos e gotas d'água arqüirisadas por fechos da luz pós-chuva. Naquela pequenina tela, um pequeno fio de água eterna cortava o chão, paralelando o caminho pelo qual as formigas costumavam marchar em trabalho, religiosamente sorridentes. Era um belíssimo quadro, quase clássico.

Ao verem aquela imagem, as colegas cigarras começaram a caçoar da pobre formiga. Por meio de gargalhadas e gritos, diziam que a formigola nunca conseguiria ser tão diferente e pós-moderna quanto todas elas.

A professora, porém, boquiaberta, observava. Primeiro em silêncio, depois em palavras:

- Posso fazer uma observação? Esse quadro é... é... é um grande exemplo de...

Mas antes que a professora-cigarra teorizasse qualquer coisa, a formiga saiu correndo, fugindo daquele lugar perturbador.

Uma das duas não tinha idéia do valor daquele quadro.

12 de agosto de 2010

Dois Patinhos na Lagoa

Quadro Cisnes Refletindo Elefantes, de Salvador Dali.
Percebo que, de fato, tenho muito a comemorar e agradecer hoje. Não meu "crescimento" ou "nascimento" ou "independência", pois ano-a-ano sinto-me diminuir diante da constante expansão do mundo ao meu redor, além de descobrir na alegria carinhosa dos abraços e mensagens o quanto dependo mais dos outros do que de mim mesmo. Comemoro na verdade o crescimento do mundo, o nascimento das pessoas próximas e minha óbvia dependência disso tudo.

A subjetividade de hoje me faz olhar, sim, para dentro de mim, mas para enxergar o não-eu, tanto por meio dos olhos alheios que me vêem de maneira muito melhor do que realmente sei que sou, quanto por meio dos meus próprios olhos, ano-a-ano renovados, limpos e abrilhantados através das tantas lágrimas e sorrisos que dia-a-dia deixam marcas em minha face, irreversíveis como o tempo.

Tempo que insistirá em passar na constante esperança de dias futuros, a qual para mim consiste em fazê-los, todos, dias e mais dias de muita comemoração e gratidão, tanto quanto hoje.

aniversário de 22 anos

31 de julho de 2010

O Poder das Palavras

A formiga carregava um pesado fardo de folhas quando deparou-se com a cigarra, cantando toda sorridente. A cigarra, vendo a expressão cansada e silenciosa da amiga, decidiu ajudar. Filosofou poeticamente um monte de palavras de ânimo e arrematou com ar de sabedoria:

- Oh, formiga, são as palavras que sustentam o céu!

A formiga bufou e perguntou se as palavras poderiam, então, ajudar a carregar pelo menos uma mísera folhinha.

26 de junho de 2010

Chega de Saudade

Juliana e Vinícius. Foto de Vinícius Cássio Barqueiro.

CHEGA! Esperei tanto por este dia... esperava há dez meses atrás que hoje seria o "recomeço"... Enfim, confesso que surpreendi-me. O dia tão ansiado chegou, mas não haverá recomeço. Porque recomeçar é retomar algo parado. E nada ficou parado ao longo desses dez meses de "distância". Graças a Deus, avançamos. Aprofundamos ainda mais nossa cumplicidade, nossa leveza, nossa confiança, nosso respeito, nosso prazer na caminhada conjunta: passo-a-passo, dia-a-dia, mais-e-mais. E se Deus assim quiser, o abraço apertado no saguão do aeroporto será apenas mais uma decolagem deste vôo tão bonito e corajoso, ainda que cheio de escalas, ainda que turbulento nos maus tempos, ainda que escuro nas horas sem sol. Ainda que imprevisível. Afinal, faz parte dessa beleza corajosa a imprevisibilidade, o aperto, as manobras arriscadas, a reconquista cotidiana... o Amor, no sentido mais concreto e prático do termo! Ainda surpreende-me tanta cabeça nas nuvens e pés no chão, tanta força e ternura, tanta felicidade palpável: mais-e-mais, dia-a-dia, passo-a-passo. E se essa caminhada nos reservar qualquer surpresa pela frente, espero que sejam surpresas boas, muito boas, tão boas como a própria chegada da Juliana - depois de tanta espera - aqui, em minha vida. Pra ficar.

12 de junho de 2010

5 de junho de 2010

Alice in Wonderland

Para mim, falar de Alice é falar de expectativas. Primeiro porque era grande minha expectativa pela estréia do filme - e ela foi quebrada de maneira surpreendente. Segundo porque julgo o tema "expectativa" o próprio fio condutor do enredo - muito bem construído, na minha opinião. Terceiro porque vivo um momento de grande expectativa - e nada mais natural do que usar a fantasia para lidar com minhas próprias questões subjetivas.

Por um lado, esperava que o filme fosse uma grande aventura empolgante. Decepcionei-me. O filme chega a ser monótono em alguns momentos e a tentativa de ao mesmo tempo agradar os fãs do Lewis Caroll, da Disney e do Tim Burton não parece ter sido tão bem sucedida. Ninguém é capaz de agradar a todos, nem mesmo um filme com Jhonny Depp.

Por outro lado, não esperava que o filme tivesse um enredo dos mais geniais. Surpreendi-me. O "país das maravilhas" de Alice é um "sonho" onde ela lida com todas as questões subjetivas que envolviam seu casamento armado: não-conformidade com os padrões da sociedade, saudades da infância e do falecido pai, indecisão quanto ao futuro e, principalmente, rebeldia contra essa expectativa que tinham dela.

Nesse grande "sonho", ela retoma minuciosamente cada uma dessas questões subjetivas. Assim, a inconstância de seu tamanho é o dilema da adolescente que de repente se vê adulta. O Coelho Branco é a ansiedade e o medo de atrasar para "seu" próprio futuro, conhecido por todos, menos por si-mesma. Os dois carinhas que anunciam sua missão de matar o temido dragão para salvar aquele mundo são as duas gêmeas que anunciam o casamento com o noivo imbecil para salvar financeiramente a família. A sogra autoritária que planeja todo o casamento é a ditadora Rainha de Copas. O bando de convidados fúteis são os paparicadores que seguem padrões ridículos de beleza só para serem socialmente bem-vistos. O Valete que trai a rainha e põe em descrédito o casamento de interesse é o genro que é pego traindo a irmã. A macabra rainha branca é a distante mãe, também esperançosa pelo ato heróico de Alice. O antigo sócio de seu pai é a estranha lagarta, eterno símbolo da metamorfose, que faz Alice se questionar sobre quem era e sobre quem poderia vir a ser. O saudoso pai, empreendedor que era visto como louco, é o Chapeleiro Maluco, o "protagonista" Jhonny Depp, único capaz de entender a garota. Aliás, é linda a cena em que Alice, no sonho, constrói uma despedida para (na minha opinião) seu pai, o Chapeleiro - despedida que não houve na vida real. E vai longe essa verdadeira mesa farta para os psicanalistas de plantão tomarem um chá.

Alice soluciona seu dilema trocando o ato heróico do casamento de interesse pela continuação do trabalho do pai, frustrando a expectativa de todos ao seu redor, inclusive dos espectadores. Sua decisão é um verdadeiro espelho de nossa época. Por um lado, porque reflete exatamente nossa sociedade que, cada vez mais, parece desacreditar na instituição "casamento" e acreditar na instituição "trabalho" como única forma de final feliz. Por outro lado, porque é totalmente o contrário de nossa sociedade, contraditória, que ainda tem as duas instituições como expectativa social muito forte em relação a nós.

Julgo o filme genial exatamente por jogar tão bem na nossa cara, em 3D, todas essas questões de tão difícil trato em relação ao amor, ao trabalho e à morte. É o melhor e mais realista efeito especial que poderia ter.

Tanto em seu defeito quanto em sua qualidade, o filme me fez pensar como é difícil agradar a todos e, principalmente, como é difícil agradar a nós mesmos se não sabemos o que queremos, quem somos e quem podemos ser. Antes de corrermos ansiosos atrás do Coelho Branco da formatura, do novo trabalho e de quaisquer outras expectativas nossas ou alheias, talvez seja bom parar diante de uma lagarta e questionar o sentido de tudo isso. E só assim, tendo claro o que esperam de nós e o que queremos, "ser donzela ou matar mil dragões, ter cautela ou seguir furacões".

28 de maio de 2010

Duas Janelas

"É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela."

CALLIGARIS, Contardo. In: A coragem do amor que dura.

15 de maio de 2010

Dançarinos Amadores

Cartão postal ilustrado por Gaëlle Boissonnard.

Primeira aula de dança dos dois.

Uma música começou a tocar. Tinham que fazer aqueles movimentos todos. Desajeitados e concentrados, faziam o que podiam e ocasionalmente se trombavam. Tanto que começaram a rir. E o sorriso dela era lindo. E os olhos dele também.

Vieram mais músicas. Gostavam cada vez mais daqueles movimentos e trombadas. As risadas eram agora conversas sobre as tarefas e músicas em comum, cada vez mais difíceis e animadas.

E de repente estavam abraçados, dançando uma música muito bonita e lenta, de passos vagarosos e curtos. Música bonita, nova, a favorita deles. Ela sentiu os olhos dele nos olhos dela, surpresa, e ele sentiu os lábios dela nos lábios dele, sorridentes. Como naquelas trombadas despretensiosas, que também foram se repetindo. Mais. E mais.

À medida que as músicas ficavam mais alegres e mais agitadas, os passos ficavam mais desafiadores. O mais difícil era aquele de soltá-la para o ar. Ela teria que rodopiar e voltar aos braços dele. Temiam demais aquele passo. Preferiam ficar ali, com os pés no chão e as mãos juntas. Mas o salto era preciso.

Começaram a treinar e as trombadas pareciam perder a graça. Ele temia o momento de soltá-la. Ela temia o momento de voltar aos braços dele. Um não queria fazer o outro cair. Ele precisava de força, ela precisava de leveza, ambos precisavam de coragem, confiança, dedicação. Aquele passo era decisivo para a carreira deles. E foi.

Cresceram. Não viraram dançarinos profissionais. Mas continuam conversando e rindo sobre as tarefas e músicas em comum. Bastam-se como bons amadores. E lembram com muita alegria daquele lindo momento em que ela saltou, rodopiou, e voltou aos braços dele. Uma graça!

Esse salto passou a embelezar ainda mais os passos vagarosos e curtos da música bonita, velha, a favorita deles.

Não cansam de dançá-la.

16 de abril de 2010

Parabéns, Rafa

Vinícius Barqueiro e Rafael Ireno. Fotos tiradas por amigos.

O Rafael Ireno, o Rafa, é um dos melhores amigos que conheci nos últimos anos. Da companhia sempre boa e agradável! Da conversa que rende e conta a história e diverte e constrói e anima e apóia e aconselha e incentiva e pára, fala sério, bem sério, e depois volta e ri e ri e chama fulano e siclano e assim vai e vai longe! Da calma e da serenidade inspiradoras. Do estresse e da inquietação peculiares! Da Lei de Murphy e das trapalhadas. Dos talentos escondidos e manifestos, cada vez mais. Da baita dedicação acadêmica. Do amor aos estudos, sincero e intenso. Do instinto protetor com todos aqueles que o cercam. Das aventuras na natação e no inglês e no bairro e naquela aula da Letras que, vixe: a melhor! a pior! Da empolgação! Do exagero? Da família engraçada. Da paçoca! Da sensibilidade. Do olhar cúmplice que logo descobre: Ah, ta acontecendo alguma coisa! Dos segredos. Dos conselhos furados. Dos conselhos marcantes! Das sete da manhã na filosofia. Das broncas por faltar nas aulas. Dos planos mirabolantes. Dos comentários nos contos. Dos comentários na IC. Da vírgula que é aqui, não ali. Dos debates acalorados. Dos deveras elevados debates literários e lingüísticos e artísticos e sociológicos e religiosos. Daquele, ce viu, cara, %$&* lance do jogo ontem, putz, que "dibli"! Das melhores dicas de livros e músicas e filmes. Das piores também, rs. Do montão de diferenças e divergências. Do mútuo respeito INCRÍVEL e ADMIRÁVEL! Da admiração que você, Rafa, me faz ter a cada dia. Dos meus votos e orações para que sua vida continue sendo um sucesso, repleto de alegrias e paz. Enfim, da companhia sempre boa e agradável, da qual aprendi a fazer questão de ter sempre por perto na minha vida.

Parabéns por mais um ano de vida, meu amigo.

3 de abril de 2010

O Livro de Eli

O filme é sanguinário e incômodo. Quase um novo ensaio sobre a cegueira. Não nega o poder da Bíblia, tanto que atribui a ela a indestrutibilidade do Denzel Washington, o mérito na construção de impérios e a culpa pela destruição do mundo. De um lado, a besta-humana que mata meio mundo para manter-se com o livro. Do outro, a besta-humana que mata a outra metade para obtê-lo. No meio (do filme), a constatação óbvia de que tanto a defesa da fé quanto o seu uso indevido muitas vezes impedem a completa prática desta crença. A constatação óbvia de que o poder não está no papel ou nas palavras: está na prática. E, por fim, a perpetuação dos ensinamentos sagrados e da paixão humana pelo poder (que, aliás, é afirmada explicitamente pela própria Bíblia). A destruição do mundo é culpa do livro ou da paixão humana pelo poder? Sejam quais forem nossas respostas, elas pressupõem a certeza de sangue, sofrimento e morte. Pressupõem culpados. E há salvação? A vida e o sacrifício do Denzel Washington no filme serviram para alguma coisa? Sejam quais forem nossas respostas, elas refletem questões muito parecidas às que nos acometem neste feriado de Páscoa. Questões sanguinárias e incômodas. Pontos de vista de um mundo cego de tanta luz.

27 de março de 2010

Aprendizado

Foi naquele dia que se apaixonou. Sua vida mudou para sempre.

Depois de percorrer os corredores da biblioteca municipal e redescobrir aquele velho livro, a primeira grande leitura da sua vida, voltou para a mesa e começou a ler um texto qualquer.

Foi nessa hora que sentiu a presença. Que olhos! Ali, na sua frente. Olhos grandes, vibrantes, carentes. Sentiu um arrepio, mas deixou pra lá e falou um oi desconfiado e muito simpático. Não ouviu resposta.

O que ouviu, pouco depois, foi a pergunta de olha meu material? Automaticamente respondeu claro, até já, mas foi muito surpresa ver como aqueles olhos brilharam uma gratidão infinita! Tremeu. Como se fugisse do deslumbre, começou a olhar para qualquer lugar antes de olhar de fato para aquele material. Um gibi e um livrinho muito ilustrado e muito infantil. Quando os olhos voltaram, ouviu um agradecimento muito tímido e gaguejou um de nada muito encantado. Tudo muito.

Era impossível ler o texto qualquer sem se deixar levar pelas gargalhadas que aqueles olhos riam com o gibi, absorvidos naquele mundo mágico. Tanto que desistiu e começou a guardar suas coisas, tentando não atrapalhar aquela alegria. Na verdade, queria fugir.

Quando estava saindo, ouviu a doce pergunta de o que você estuda? Timidamente explicou que estudava letras e disse que não, ainda não sabia se iria ser professor. Ambos sem graça, muito cúmplices. Em seguida perguntou o que a criança gostaria de estudar. Ela respondeu que também não sabia se conseguiria, mas que queria ser alguém na vida. Palavras tão melancólicas. O rapaz disse ah, então é bom estudar, né, mas a criança fez um silêncio fúnebre ao dizer eu, não sei, ler direito. A professora, diz que eu, não sei colocar, as vírgulas, no lugar certo. Minha mãe, manda eu estudar aqui, pra ser alguém na vida. A garoa da janela encharcava os olhos dos dois. Os olhos mais carentes do mundo.

De repente estava ali contando para a criança que as vírgulas eram o de menos! A criança devorava cada palavra que o rapaz dizia. Ambos empolgados. Quatorze anos? Ah, era coincidência demais! Correu na prateleira e pegou aquele velho livro, a primeira grande leitura da sua vida, e começou a contar a história. E contar mais e mais! Os olhos infantis flamejavam alegria e gratidão. Seus olhos também. O destino de ambos ficava mais claro, mais possível.

Até que deu a hora. Dessa vez não era fuga. O rapaz praticamente acordou daquele acontecimento mágico e, novamente um pouco tímido, falou ah, leva o livrinho ilustrado mesmo, e depois, né, quando se sentir capaz, pega o velho livro do qual conversamos. É mais difícil. Mas a criança, muito decidida, falou não, vou levar este mesmo! Se eu, não conseguir, ler logo, eu posso renovar! Ambos sorriram uma gratidão infinita e seguiram seu destino. Tinham aprendido que o mais difícil valia a pena.

Era impossível continuar fugindo. Sua vida mudou para sempre.

14 de março de 2010

Maturidade

"Sometimes when I get up in the morning, I feel very peculiar. I feel like I've just got to bite a cat! I feel like if I don't bite a cat before sundown, I'll go crazy! But then I just take a deep breath and forget about it. That's what is known as real maturity." - Snoopy

6 de março de 2010

Literatura e Sociedade

Alguns amigos criticam a literatura contemporânea por ser apenas uma brincadeira de forma que não reflete a sociedade em que está inserida. Criticam sua falta de engajamento e seu esvaziamento de sentido. Creio que não há melhor reflexo que este.

27 de fevereiro de 2010

Diferente ou Igual

Quadro La reproduction interdite, de René Magritte.
Todos pensavam que eram diferentes, inclusive ele. O fato de ser diferente de todos o assustava, por isso procurava alguém que fosse igual. Ao passar do tempo, porém, descobria que todos eram diferentes. Pior, descobria que a característica de ser diferente é comum a todos. Descobriu que, nisso, todos são iguais. O fato de ser igual a todos o assustou, por isso procurou alguém que fosse diferente. Ao passar do tempo, porém, descobriu que todos são iguais. Todos pensavam que eram diferentes, menos ele. O fato de ser diferente de todos o assustava, por isso...

20 de fevereiro de 2010

Tempestade em Copo D'água

E de repente lá estava a cigarra no copo.

A formiga, que religiosamente passava por ali todo dia, viu sua amiga presa num copo virado de ponta cabeça na terra e correu querendo ajudar.

Iria a formiga salvar sua amiga?

Primeiro, ela pegou um graveto e começou a dar pancadas no copo enquanto gritava seu sermão sobre o problema de virar copos e mais copos pra afogar as mágoas ou pra brindar. Mas a cigarra, que naquela situação nada ouvia do sermão, começou a implorar que a formiga parasse com aquelas pancadas barulhentas que doíam no ouvido.

Depois a formiga começou a cavar muito a terra a fim de fazer um buraco que ligasse o copo ao lado de fora. Mas a cigarra começou um choro muito agudo pedindo que a formiga deixasse aquele trabalho vão e apenas ficasse ali, ao lado do copo, fazendo companhia. A cigarra estava com muito medo.

O tempo foi passando e a formiga começou a desconfiar do que tinha feito a cigarra parar ali. Mas o vidro estava cada vez mais embaçado e o ambiente cada vez mais barulhento, por isso não conseguia perguntar. Não conseguiam se comunicar. O barulho repentino vinha de trovões.

Começou uma tempestade.

A formiga foi ficando desesperada. Enquanto as gotas de água caíam em seus olhos, a cigarra poeticamente começou a fazer carinho no copo. Esse carinho foi desembaçando o vidro, de maneira que agora os olhos de ambas podiam se encontrar. Num olhar certeiro, a cigarra mostrou que a formiga conseguiria entrar ali e escapar da tempestade.

Ela salvou sua amiga.

Vencida a tempestade, a formiga perguntou por que tanto medo, já que pela primeira vez a cigarra havia se precavido e se protegido de um perigo posterior. A cigarra novamente lançou um olhar certeiro que respondeu: eu temia por você.

13 de fevereiro de 2010

Avatar e a euforia religiosa

O filme Avatar trouxe muitas metáforas da realidade e muita euforia, inclusive euforia religiosa. Para muitos é surpreendente imaginar um povo que trate seus semelhantes como irmãos, cuide da natureza com respeito e responsabilidade e creia em um objetivo maior para tudo. Isso encanta todo mundo e parece uma utopia, mas não é. Isso existe, tal como no filme. São muitas as pessoas que religiosamente fazem tudo isso dentro de seu povinho em volta da árvore e à espera do pássaro. O problema não é esse. O problema é que logo em seguida muitas dessas pessoas se desligam de seu "avatar" temporário e voltam a ser humanas, terrestres.

8 de fevereiro de 2010

Suicídio da Inteligência

"Tão logo nos enfiamos mais seriamente em seus textos, começamos a sentir a mesma coisa de sempre, a inexplicável tentação de suicídio da inteligência por meio da própria inteligência. O escorpião cravando o seu ferrão, cansado de ser um escorpião, mas necessitando da escorpianidade para acabar com o escorpião. Em Madras ou em Heidelberg, o fundo da questão é sempre o mesmo: existe uma espécie de equívoco inefável no princípio dos princípios, de onde resulta este fenômeno que está falando a vocês neste momento, bem como vocês que estão escutando. Qualquer tentativa de explicá-lo fracassa totalmente por uma razão que qualquer um pode compreender: para definir e compreender, seria necessário estar fora do definido e do compreensível."

CORTÁZAR, Julio. In: O jogo da amarelinha

27 de janeiro de 2010

Sobre a Viagem


Vinícius e Juliana em Versailles. Foto de Jessica Machado.

Nunca gostei de exageros, embora eu seja exagerado. Talvez seja culpa da minha paixão por paradoxos. Comecei a pensar nisso na viagem. Falavam cada exagero verdadeiro. Que lugares fascinantes! Não apenas pela imponência, nem apenas pelo capricho. Fascinantes pelo misto de grandeza e detalhamento, ambos exageradamente na medida certa. Rios de esmeralda, palácios nobres, jardins de sonhos, obras de arte, construções monumentais! Frutos de muito talento, muita coragem, muita guerra, muita loucura, muita fé, muito tempo! É como se a História toda estivesse ali, palpável. Que privilégio! Listaria tudo isso, aliás até listei num rascunho que acabei de abandonar. É que tiraria o foco deste texto. Dizia eu que comecei a pensar nisso na viagem, e não falo da minha viagem. Falo da viagem dela. É, o intercâmbio. Nunca gostei de me expor, embora aqui esteja. Falavam cada exagero falso. Essa viagem nos afasta, mas nos aproxima tanto! Acho fascinante nossa caminhada, paradoxalmente tão grandiosa e tão detalhada. Fruto de muito talento para driblar situações complicadas, sem imponência e sem caprichos. Muita coragem para lutar nessa guerra cheia de aliados. Muita loucura e muita fé para topar o desafio. Muito tempo! Paradoxalmente, é preciso muito pé no chão e muita cabeça nas nuvens. E isso nós temos demais, ambos exageradamente na medida certa. Muito amor e muita força. Talvez seja culpa da minha paixão por paradoxos. É dificílimo, mas é exageradamente tão simples. Tão agradável! É como se a Felicidade toda estivesse aqui, palpável. Que privilégio! E não é exagero, embora eu seja exagerado. É paradoxal, e disso eu gosto.