6 de junho de 2009

Si-Mesmo


Depois do crime, a fuga
A triste história tinha acabado de se revelar completamente quando saiu correndo e correndo e correndo, correndo às cegas, correndo em fuga. Era como se não pudesse enxergar. Não por cegueira, mas por raiva de olhar pra trás, medo de olhar pra frente e vergonha de olhar pra dentro de si-mesmo. Logo ele, que sempre se orgulhou de sua forma de ver os fatos. Logo ele, tão improvável. Maldita alucinação! Correndo, correndo desesperadamente! Tinha acabado de matar a mulher que amava, que tanto amava! Logo ele? Ele! Correndo, confuso, correndo e correndo e correndo, logo ele! Loucura. Ninguém imaginaria que seria capaz de tal crime condenável. Nem ele mesmo. Tudo confuso. Infelizmente, porém, o fato é que estava consumado: ela morta, quem diria, e ele logo interceptado pelo grupo de policiais que o seguiam. Foi o fim?

Depois da fuga, o amor
- Alô? Amor? Oi! Tudo bem, e com você? Que bom! Pois é, parece que hoje vai ser um dia bem difícil. É, julgamento de assassinato. Parece que um promotor matou a namorada com um tiro e nega culpa, acredita? Diz que viu uma alucinação e tal e que daí só atirou porque um outro apareceu querendo vingança e, é, muito, muito estranho. Coisa grave, confusa. Sim, é, vou ser o promotor do caso. Mas à noite a gente se vê, né? Não vejo a hora, amor, não vejo! Estou ansioso! Te amo tanto! Beijo. 

Depois do amor, o julgamento
- Oh, caros senhores, vejam, vejam os fatos: Sim, claro que sabemos que há muito tempo o réu serviu à Justiça, mas não, não podemos nos deixar envolver emocionalmente com este fato! Ora, se me permitem aqui respeitosamente relembrar o ditado popular, de boas intenções o inferno está cheio! Sim, outrora um promotor, sim, sim, outrora colega nobre e justo, sim, claro que sim, outrora inocente, mas agora, agora um assassino, assassino, assassino frio e calculista que merece justa punição! Todo criminoso merece justa punição! Ora, caros senhores, nossa justiça deve ser imparcial, cega, cega a qualquer sentimentalismo! A justiça é cega, senhores! Oh, Meritíssimo, diante de tantos indícios que o laudo mostra e que aqui foram exibidos! Esqueceremos da sanidade mental em que o réu se encontrava? Esqueceremos que não havia mais ninguém no local do crime além da vítima e do réu? Oh, vejam, esqueceremos que o único tiro acertou em cheio a vítima? Não, não, senhores! Só podemos concluir que o réu é culpado, o réu é culpado! 

Depois do julgamento, o crime
- Meu amor! Puxa, não via a hora de te encontrar! Sim, hoje o dia foi bem difícil mesmo, mas valerá a pena, acredite! Ah, sobre o crime de hoje? É, ele foi condenado. Triste, muito triste. Você tinha que ver que crueldade. Ele a levou a um apartamento deserto e atirou. Ele até tentou inventar que apareceu um réu que ele tinha acabado de acusar num julgamento e esse cara teria ameaçado a namorada e dito que ele iria saber o tamanho do sofrimento de ser preso por si-mesmo injustamente e tal. Daí o cara teria ameaçado atirar na namorada, por isso ele sacou o revólver e atirou no cara, mas o cara sumiu e a bala atingiu em cheio sua namorada. Diz ele que depois descobriu que o outro cara era uma alucinação dele mesmo, mas que já era tarde. Pois é, coisa confusa, estranha. Quê? Ah, amor, não se doa por eles. Nada é injusto no mundo! Se chegou a hora de ela morrer, era porque era a hora, não é? E se ele, sempre tão certinho, foi preso, fazer o quê? Motivo houve. Mas, AH! Vamos deixá-lo de lado, meu amor, porque hoje é o lindo e esperado dia! Sim, te trouxe aqui por dois motivos...
Nessa hora, ao som de sirenes policiais, alguém arrombou a porta e entrou gritando:
- Há, achei você! VOCÊ sentirá na pele a dor de ser preso injustamente por si-mesmo!
- Você? O que VOCÊ está fazendo aqui?
- Eu? Há! Você se acha muito superior com essa sua namoradazinha, né? Acham que estão imunes a tudo isso? Você verá, VOCÊ verá! Tenho certeza que você a chamou aqui pra pedi-la em casamento e contar que este é o apartamento de vocês, não é? Tenho certeza! Sei como é! Mas vou acabar com isso agora... Você verá!
Nessa hora, o invasor sacou um revólver e apontou para a namorada do promotor, coitado, logo ele, logo ele que, desesperado, nem ligou coisa com coisa, sacou seu revólver e atirou contra o invasor!
Ela caiu.
O que aconteceu? E cadê o invasor? Cadê? O invasor havia sumido, e a história tinha ficado clara. Tudo havia se encaixado. Alucinação? Ele, deserperado, não soube o que fazer. Ficou estático, confuso, até que, ao prestar atenção às sirenes, saiu correndo e correndo e correndo. 

Depois do crime, a fuga
A triste história tinha acabado de se revelar completamente quando saiu correndo e correndo e correndo, correndo às cegas, correndo em fuga. Era como se não pudesse enxergar. Não por cegueira, mas por raiva de olhar pra trás, medo de olhar pra frente e vergonha de olhar pra dentro de si-mesmo. Logo ele, que sempre se orgulhou de sua forma de ver os fatos. Logo ele, tão improvável. Maldita alucinação! Correndo, correndo desesperadamente! Tinha acabado de matar a mulher que amava, que tanto amava! Logo ele? Ele! Correndo, confuso, correndo e correndo e correndo, logo ele! Loucura. Ninguém imaginaria que seria capaz de tal crime condenável. Nem ele mesmo. Tudo confuso. Infelizmente, porém, o fato é que estava consumado: ela morta, quem diria, e ele logo interceptado pelo grupo de policiais que o seguiam. Foi o fim?