24 de outubro de 2009

Presença Ansiada

Assim que entrei. Fui dominado por aquela presença. Não a verde do grande quadro negro. Ou a bege dos colegas de classe. Mas a pequena presença azul-celeste. Clara e branca. Esvoaçante. Ansiada. Ela sempre me inquietava. Mas naquele dia. Aquela presença. Tomava toda minha atenção. E tensão. Necessidade de preenchimento. Observava-a de longe. Timidamente. Desejante. Atento. Aquele azul e branco movia-se. Pra lá. E pra cá. Meus olhos compenetrados. Observavam. Ela movia-se. Abria-se em branco. As mãos em movimento. E fechava-se em azul. Lentamente. Passivamente. Ia. E vinha. Eu já não disfarçava a angústia. Desejava-a. Meu corpo se mexia. Erguia-se à procura. À espera. Aos pequenos movimentos. Intensificava-se. Mais. Meus olhos chamavam-na. Ela saia de vista. E voltava. E ficava parada. E logo se movia. Cada vez mais perto. Cada vez mais perto, cada vez mais. Perto. Perto. Perto perto perto. Perto! Dentro de mim! Dentro da sala. De aula. Não ouvia o professor. Mas aprendia. A esperar. A desejar. A desejá-la por dentro. A ler cada sinal. E a chamá-la em silêncio. O sentido da aula estava ali. Tê-la. Para mim. Agora. As mãos em movimento. Impulsos. Mais um olhar. Agora mais nítido. Mais corajoso. Mais corajoso. Mais. Mas. Não! Não faça isso! Corajoso. Já fiz. Toquei-a! Puxei-a para mim. E as mãos cederam-me. E os olhos confessaram o desejo. De ambos. Ela se abria diante de mim, lentamente. Lentamente. Meu corpo relaxara profundamente, suspirante. Tenso. Erguido. Ela estava ali. Em mim. Olhei ao redor. Uma mão segurava-a em meu colo. Forte. A outra mão nas pernas procuravam. Tocavam. Vasculhavam lentamente aquele jeans. De leve. Silenciosamente. E mais. E mais. Mais. E mais e mais. E mais! Dentro dela. E mais. Até alcançar. Até. O ápice. Ergui. Segurei forte. A caneta do bolso. Abri aquela capa azul. Tudo branco. Assinei meu nome na data. Nas datas. Nenhuma falta. Preenchimento completo. Fechei. E entreguei aos outros corpos sedentos, excitados. Beges. O verde ao fundo. Negro. E eu ali. No céu. Com a presença alcançada! Libertei-me daquela dominação. Levantei. Corajoso. E sorri. Saciado. Assim que saí.

4 comentários:

  1. Não sabia que jogavas com os "duplos sentidos".

    Parabéns! Não sou muito fã de pontos finais, mas este conto é muito bom!

    acaciO

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  2. Cara!
    Como são as coisas... Há pouco mais de três anos sustive toda minha dedicação à liratura por conta de um objetivo: passar em concurso público. Durante a jornada, um pensamento era recorrente: assim que passar, voltarei aos livros (tantos são os que quero ler) e aos contos (tantos são os que quero escrever).
    Agora, quase dois anos após a conquista de meu objetivo, quando, enfim, a anunciada aliança com literatura forte como nunca deveria estar, vejo-me enfiado em livros jurídicos, com aquele recorrente pensamento de outrora... só que, dessa vez, o reencontro será "quando as coisas se acalmarem"...
    Li o seu conto e gostei muito dele: a literatura faz falta, digo com toda a "certeza" (em honemagem ao seu escrito postado meses atrasados), e foi uma satisfação este breve reencontro com ela!

    Gabriel Busch

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